A saúde do futuro e a Inteligência Artificial

A saúde do futuro e a Inteligência Artificial

Gustavo Meirelles*

09 de maio de 2021 | 09h15

Gustavo Meirelles. FOTO: DIVULGAÇÃO

A inovação tecnológica com maior destaque no setor de saúde nos últimos anos é, sem dúvida, a inteligência artificial (IA). Diversas previsões foram feitas, tanto por investidores do mercado financeiro quanto por gurus do setor da tecnologia, apostando no declínio ou até mesmo na obsolescência de algumas especialidades médicas, tendo em vista os avanços da inteligência artificial nos últimos anos. Por outro lado, vários profissionais da saúde, seja na medicina, na psicologia ou na enfermagem, começaram a se preocupar com o papel cada vez maior de destaque das máquinas nas suas áreas de atuação.

Há um grande potencial para inovações no setor de saúde e a inteligência artificial sai na frente, com a automatização de processos, a redução de erros, os ganhos de eficiência e o aumento da qualidade do atendimento e tratamento. É possível usar algoritmos criados por humanos para analisar dados e recomendar tratamentos, resultando na automatização de tarefas repetitivas e monótonas para diversos profissionais, como detecção de pequenos nódulos pulmonares em tomografias computadorizadas de tórax para rastreamento de câncer de pulmão, além de estadiamento, quantificação e avaliação de potencial progressão de algumas doenças, como atualmente na pandemia por COVID-19, em que diversas inovações têm auxiliado bastante pacientes e profissionais de saúde. Um dos exemplos do uso da IA para o combate à pandemia no Brasil foi o projeto Radvid-19, que contou com 50 hospitais cadastrados na estruturação de um banco de dados de 25 mil casos da doença, com emissão de mais de 50 mil relatórios por IA em um período de cerca de 6 meses.

Em um momento em que o paciente está progressivamente no centro da atenção, é hora de os profissionais da saúde se reinventarem. Utilizarem a inteligência artificial como aliada, delegando à máquina tarefas em que estas são melhores, como detecção de lesões, quantificação dos achados e comparação de exames com precisão e de forma infatigável. Para os médicos e demais profissionais da saúde, mais e mais percebidos pela população como “apressados”, “rudes”, “ocupados” e “desinteressados”, é hora de focar na atenção aos pacientes, assumindo a frente das tarefas para as quais somos muito superiores aos computadores: comunicação com colegas, pacientes e familiares, com intuição, bom senso e sensibilidade, fornecendo atendimento humanizado e com empatia. Com tudo isso, seremos capazes, enfim, de entregar cuidados de saúde individualizados e de precisão, paulatinamente focados em saúde preventiva e não na doença, utilizando uma forma de conhecimento denominada por David de Cremer e Garry Kasparov como “inteligência autêntica”, complementar e em colaboração com a inteligência artificial, criando o que os mesmos autores chamam de “inteligência aumentada”.

Em resumo, é hora de nós, profissionais da saúde, concentrarmos nossos esforços no desenvolvimento e no aprimoramento das características que nos tornam humanos, com uma preocupação legítima com o paciente, buscando um atendimento com empatia e personalizado, trabalhando em conjunto com as máquinas em um modelo conhecido como “a nova diversidade”. A maior questão, a meu ver, não é se as máquinas assumirão o papel dos médicos, mas evitar que nos comportemos cada vez mais como elas. Caso contrário, teremos perdido, para nós mesmos, a batalha.

*Gustavo Meirelles, diretor médico do Grupo Alliar

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