A rotina sem fim de um delator

Paulo Roberto Costa, que revelou corrupção e propinas para políticos e partidos, anda exausto; já fez 118 depoimentos e a tornozeleira eletrônica o incomoda

Redação

25 de julho de 2015 | 17h00

Costa é o primeiro delator da Lava Jato. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Costa é o primeiro delator da Lava Jato. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Atualizada às 12h21

Por Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt

Condenado em duas ações penais ligadas à Operação Lava Jato, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa vive dias de extremo cansaço. Em prisão domiciliar e monitorado por tornozeleira eletrônica desde que deixou a carceragem da Polícia Federal, em 30 de setembro de 2014, o primeiro delator da Lava Jato cumpre uma rotina quase que diária fora de casa.

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Desde que escancarou o esquema de corrupção e propinas na estatal, Paulo Roberto Costa prestou 118 depoimentos. De 29 de agosto do ano passado, quando começou a contar o que sabia sobre o cartel na Petrobrás, até a última terça-feira, 21, quando falou à PF sobre o envolvimento de políticos, 326 dias se passaram. É como se ele tivesse prestado um depoimento a cada três dias.

“Hoje (terça-feira, 21), ele está de manhã e à noite fazendo depoimentos para a polícia sobre políticos. O Supremo (Tribunal Federal) mandou que se instaurasse um inquérito mãe e depois inquéritos individuais sobre cada político. Ele está extenuado. Na outra semana, tem CPI, com acareação”, contou o advogado João Mestieri, que defende o delator.

João Mestieri. Foto: Arquivo Pessoal

João Mestieri. Foto: Arquivo Pessoal

Durante oito anos, Paulo Roberto Costa dirigiu uma das áreas mais importantes da Petrobrás. Ele foi preso a primeira vez em 20 de março, três dias depois da deflagração da Lava Jato, e ficou na carceragem da PF até 18 de maio. Foi solto e preso novamente entre 11 de junho e 30 de setembro, quando saiu após firmar o acordo de delação premiada.

A prisão domiciliar do executivo faz parte desta colaboração, que ele firmou com o Ministério Público Federal e foi homologada pelo ministro Teori Zavascki, do STF. Após o acordo de Paulo Roberto Costa, a mulher, as filhas e os genros do ex-diretor também fizeram delação premiada.

“Eu ainda quero ver se consigo mais adiante, livra-lo da tornozeleira. Vamos ver se a gente consegue negociar um outro tipo de preservar a maneira de saber que ele tá cumprindo (a pena)”, afirmou Mestieri. “É muito incômoda. Como ela balança, ele tem de botar uma tornozeleira ortopédica, cortar para proteger a pele. Faz um volume, uma proteção. Machuca.”

Os depoimentos de Costa não têm data para terminar. Segundo o criminalista, ele vai falar até quando houver o que ser esclarecido. Mestieri afirma que há ‘quase 25 frentes de todo lado: criminal, administrativo, cível, TCU (Tribunal de Contas da União), todas as siglas’.

“Como o sistema das colaborações premiadas, você começa, em primeiro lugar, a valorizar a verdade”, diz. “Quando alguém senta lá e faz uma colaboração premiada com detalhes, como é o caso do Paulo Roberto, do Alberto Youssef, doleiro), do (ex-gerente da Petrobrás Pedro) Barusco e de outros, praticamente sela o caminho daquele processo. Não vai mais haver espaço para voltar ao processo anterior. É o primado da verdade.”

Em abril, Paulo Roberto Costa foi condenado a 7 anos de 6 meses de reclusão por organização criminosa e lavagem de dinheiro oriundo de desvios de recursos públicos da Refinaria de Abreu e Lima (RNEST), no município de Ipojuca, em Pernambuco. Na segunda-feira, 20, ele teve sua segunda condenação (12 anos de reclusão), desta vez pelos crimes de corrupção e lavagem em ação envolvendo executivos ligados à empreiteira Camargo Corrêa.

Pelo acordo de delação, ele deverá cumprir 1 ano de prisão domiciliar. O restante, entre 1 e 2 anos, deverá ser no regime semi-aberto.

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