A Revolução 4.0 e a gente

José Antonio Paganotti*

03 de outubro de 2019 | 05h00

Na última edição do maior evento industrial do mundo, a Feira de Hannover, em março, o chefe de pesquisas do governo brasileiro perguntou a um representante do governo alemão quais tecnologias foram usadas para que aquele país conseguisse que 100% de suas indústrias chegassem à 4.0, estágio em que a produção é marcada, dentre outros, pela automação, uso de Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial (IA) e análise de dados. Este, que já viera ao Brasil apresentar as ações realizadas na Alemanha, disse que eram as mesmas utilizadas no Brasil. “E por que deu certo?” “Because this”, disse o alemão, colocando o indicador na têmpora.

Desde o lançamento da 4.0, com a publicação do White Paper na edição 2011 da mesma feira, o governo alemão elencou quais capacitações seriam demandas dali para frente e, daí, direcionou o desenvolvimento do capital humano. O grande problema do Brasil é aquele que os outros países estão, há anos, resolvendo: conhecimento e formação.

Deu mais certo na Alemanha porque, ali, em cada esquina, há uma escola técnica. Daí, a diferença de salários entre um pedreiro e um médico ser de até 30%. A distribuição de renda liga-se à formação técnica do trabalhador, o que integra um plano de estado. Esse esforço – que, com a completa adequação da indústria, prioriza, a partir de 2019, os serviços – resultou num desenvolvimento que nem mesmo os Estados Unidos, que lançaram um programa semelhante ainda em 2012, conseguem alcançar. Apesar disso, conforme o estudo Global Cities Leaders in The World of Disruptive Innovation, da AT Kearney, Nova Iorque mantinha-se, em 2017, como a cidade mais disruptiva do mundo, enquanto que São Francisco ascendia num ritmo que deve colocá-la no topo do ranking em breve.

Não à toa, a cidade californiana é próxima do Vale do Silício. Seu grau de inovação deriva diretamente da Universidade de Standford que, por preços simbólicos, aluga seus galpões e disponibiliza seus laboratórios para as empresas locais. Bill Gates e Steve Jobs foram seus inquilinos. A aproximação entre academia e corporações é o que move as economias alemã e norte-americana rumo à 4.0 e suas sociedades à 5.0, estágio em que, familiarizados com a tecnologia, cidadãos desfrutam-na plenamente. Desta forma, garantem a base desta transformação: tornar humanos aptos à operação de máquinas autônomas que falam entre si.

Há anos, Inglaterra, Itália, países nórdicos, dentre outros, buscaram trazer de volta suas indústrias e, também seguindo os alemães, incentivaram o desenvolvimento de pesquisas aplicadas (que se destinam a fins comerciais, científicos, médicos, ou seja, práticos) para atenderem às demandas de tecnologias futuras. Quando surgiu a 4.0, ela passou a ser o foco.

Como dizia o engenheiro alemão, as tecnologias usadas lá já estão aqui. Foram-lhe mostradas por Bruno Araujo, gestor de Inovação do Senai e testemunha da conversa em Hannover. Estão, entre outros, no curso técnico de Mecatrônica e em outros ligados a manufatura avançada e virtual, intrínsecas à 4.0. Dentre outros, o Brasil dispõe de três dos 500 computadores mais potentes do mundo. A maior parte destes, porém, dará suporte a inovações como o IBM Q, que, com sua apresentação em janeiro, revelou que a computação quântica, até então aguardada para o futuro, já acontece.

Afora a banalização do termo, essa nova geração de computadores processa dados com base nos saltos de elétrons e liberação de energia. Ao invés de interpretarem uma informação ou a ausência de uma (corrente elétrica ou sua interrupção, o sistema binário, base da computação tradicional), combinam o um e o zero em vários outros papéis, inclusive zero e um simultâneos. Um salto, de fato, quântico na capacidade de processamento. O Q é acessado por entidades científicas, de pesquisa, médicas, governos, que realizarem nele tarefas que supercomputadores levariam de meses a anos para concluir. Vários países realizam experimentos para ampliar o número de Qubits e aumentar a capacidade do IBM Q. Está, portanto, à disposição de quem souber usá-lo.

Como isso se relaciona à vida do cidadão comum? No final da década de 1990, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos percebeu que o mundo se tornava, cada vez mais rapidamente, volátil, incerto, complexo e ambíguo, o que trazia riscos e exigia adaptações. O conceito VUCA (na sigla em inglês) foi rapidamente absorvido como estratégico pelo mundo empresarial e, impulsionado pela tecnologia, intensificou, de forma crescente, mudanças na sociedade como um todo. Smartphones que superam em muito a capacidade de processamento de todos os computadores usados para que o homem chegasse à Lua, AI identificando preferências de todos via apps, biometria e Big Data, IoT e, principalmente, os supercomputadores atuais servindo de base para os quânticos imprimem um novo ritmo.

Com base nessa percepção, a França retoma o modelo tradicional de ensino, os Estados Unidos recrutam professores mundo afora e a Alemanha segue seu curso, já se tornando, como o Japão, uma sociedade 5.0, caracterizada pela familiaridade das pessoas com a 4.0.

No Brasil, com menos de 4% das indústrias ainda rumo a essa revolução, há alguns movimentos. O principal deles, o Indústria 2027, encampado por CNI, Fiesp, Sesi, Senai e IEL, embora importante, não é, diferentemente do alemão ou do norte-americano, um programa de estado. Do lado da formação de mão de obra, temos centros de excelência, como o Senai e universidades públicas que, sem verbas, insistem em manter a qualidade do ensino. Fora estas exceções, vê-se a oferta de cursos que agregam muito pouco à formação dos alunos.

O país pagará caro. Mas também há boas notícias. A revolução – como todas elas – gera desemprego e oportunidades. As empresas que seguirem o modelo de fora se aproximando de universidades competirão com outras que, dado o quadro geral, sequer alcançarão o IIoT, o IoT para indústrias, apenas uma das tecnologias que se integram a AI, Big Data e afins para compor a 4.0. Ao cidadão comum, resta a busca por conhecimento e formação como os incentivados na Alemanha: que capacitem ao pensamento, à análise, à pesquisa e possibilitem o uso das tecnologias que já estão aqui.

*José Antonio Paganotti é professor titular de Administração e Gestão da Inovação em Empresas de Média – Alta Tecnologia na Universidade Municipal de São Caetano do Sul, autor do livro Processo Decisório (Editora Pearson. São Paulo, 2015) e integrante do grupo de Tecnologia e Inovação do Ciesp

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