A revelação do cachalote negro do crime.gov (na voz dos dois autores)

A revelação do cachalote negro do crime.gov (na voz dos dois autores)

Jorge Pontes e Marcio Anselmo*

26 de março de 2019 | 17h24

Da esquerda para a direita: Marcio Anselmo e Jorge Pontes. Foto: Arquivo Pessoal/Alexia Fidalgo

Hoje, fazendo uma retrospectiva das nossas carreiras, percebemos que em várias oportunidades entramos em contato, fomos literalmente tocados, pelo crime institucionalizado e, pressentimos, como quem pressente uma assombração, a presença sombria dessa entidade. Ele de fato nos bafejou, aqui e ali, deixando pistas inequívocas de sua existência.

Contudo, nessas situações, não o identificávamos como tal. Pois, de tão gigantesco, nunca logramos uma visão suficientemente distante para entendê-lo em toda sua amplitude, enfim, para assinalarmos como ele de fato se dimensionava. E o interessante é que em cada uma dessas vezes nós sentíamos um sobressalto, um calafrio, como que percebendo um organismo traiçoeiro e, o quanto nós, o nosso trabalho e a nossa instituição eram como joguetes para aquela criatura que parecia preencher todos os espaços existentes.

Afinal, ninguém consegue aferir a extensão de algo sem se afastar minimamente. Não se vislumbra um grande panorama de perto, ou de dentro. É necessário distanciar para compreender a forma de qualquer gigante. Se nos encontramos em um buraco muito grande, nós não percebemos o buraco. Na verdade, o buraco nos parece o nosso próprio universo. A construção do conhecimento sobre esse fenômeno da justiça criminal foi obtida justamente pelo conjunto de suas aparições. Daí, para entender que aquela entidade tinha nas mãos, para cometer crimes, as rédeas do próprio Estado, de governos em sequência, foram anos a fio.

Era como ver, num mar bravio, uma baleia, um cachalote negro, que vem à tona em situações distintas, de tempos em tempos, de relance, ora deixando-se ver, por uma pequena parte do seu dorso, ora por uma ponta de sua barbatana, ora por um esguicho de vapor, ora largando a boiar o seu âmbar. Assim conseguimos perceber que havia algo escuro se movimentando na superfície, mas sem termos noção da forma, da largura e do comprimento. Vimos as partes, vislumbramos os redemoinhos na água, mas sem ver o todo. Daí não termos tido a noção das dimensões daquele organismo.

Para policiais federais que sempre buscaram o enfrentamento, cumprindo suas missões com retidão, não poderia haver pesadelo maior do que imaginarmos a presença de uma entidade criminosa organizadamente estabelecida nos mais altos extratos oficiais dos três Poderes da República, algo acima de tudo e de todos, dos nossos chefes e do nosso ministro. E isso significava imaginar que não iríamos nunca para onde os operadores da delinquência institucionalizada não desejassem.

Em nós a consciência ocorreu coincidentemente quando chegamos a um determinado ponto das nossas carreiras. Ao atingirmos certos patamares de maturidade e de experiência policial, tivemos em mente, de forma bem nítida, a figura do crime institucionalizado. E percebemos exatamente como funcionava, como ele nos distraía, como manobrava para sucatear propositadamente as instituições, como influenciava e se esparramava pelos poderes da República. Enfim, nós havíamos registrado em nossas memórias todas as vezes em que vimos alguma pequena parte do cachalote e, juntando-as, conseguimos idealizar a baleia inteira.

Ao final, todas as evidências se confirmaram quando um grupo de mulheres e homens mergulharam no abismo, como nunca ninguém antes o fizera, trazendo o corpanzil do monstro à superfície e o descortinando por inteiro. Foi a operação de Curitiba que de fato o desnudou cabalmente. A verdade é que, para a maioria de nós policiais federais, até a Operação Lava Jato, éramos como mariscos que vivem suas vidas inteiras nas costas de um grande cachalote, sem saber sequer da sua existência.

*Jorge Pontes e Marcio Anselmo, Delegados de Polícia Federal autores do livro CRIME.GOV – Quando corrupção & governo se misturam

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