A resposta do Brasil para a pandemia está nas favelas

A resposta do Brasil para a pandemia está nas favelas

Gilson Rodrigues*

19 de março de 2021 | 08h45

Gilson Rodrigues. FOTO: JOSÉ BARBOSA

No Brasil, a situação de pandemia, que deu seus primeiros sinais em março de 2020, atingiu as favelas desproporcionalmente. Essas comunidades de baixa renda espalhadas pelo país têm uma população de moradores que ultrapassa os 13 milhões, sendo majoritariamente composta por negros. São cidadãos que vivem em condições de completa miséria e à margem dos direitos básicos de acesso à higiene sanitária, educação e saúde.

No território brasileiro, o quinto maior do mundo em extensão e cujas diferenças sócio-econômicas e populacionais são igualmente grandiosas, a COVID-19 já contaminou mais de 11 milhões de pessoas e vitimou mais de 270 mil. Isso nos confere um título de grandiosidade nada honroso: o de segundo país com maior volume de casos e mortes.

Após muitos contratempos, enfim, recebemos a vacina, e os grupos, considerados prioritários, estão sendo imunizados. Mas até que toda a população seja vacinada, é preciso seguir as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), que indicam o isolamento social somado as medidas de higiene, evitando-se assim a aglomeração de pessoas. Estas recomendações, no entanto, não são simples de serem executadas para uma grande parcela dessa população que vive nas favelas.

Em média de seis a dez pessoas ocupam um pequeno espaço e, em grande parte destes domicílios, o abastecimento de água é intermitente. Não há condições financeiras para que as famílias adquiram álcool gel e tampouco parem de trabalhar para aderir ao isolamento.

Até aqui, nenhuma surpresa. A previsibilidade é que a mortalidade seja maior nestes territórios, fundamentada pela desigualdade social e pela falta de empenho dos setores públicos em olhar para as necessidades dos menos favorecidos.

A solução encontrada para contornar a paralisia das autoridades, antes que a crise sanitária sem precedentes atinja ainda com mais crueldade os brasileiros que residem nas favelas, foi arregaçar as mangas e lutar. Esqueçam a imagem da favela que lembra cenários de guerra, com tiros e bombas – a realidade não é como nos filmes. Nas vielas estreitas dessas periferias, a imagem de hoje mostra pessoas munidas de uma imensa vontade de ajudar umas as outras.

Na gigante América do Sul, há um muro invisível que impede que sejamos vistos pelo poder público, sendo assim, Paraisópolis criou 12 iniciativas para diminuir o impacto do novo coronavírus nas comunidades. Não desistimos da batalha diária. Sabendo do abandono do poder público, nos tornamos responsáveis por nosso microcosmos, ao mesmo passo em que entoamos diariamente a mensagem: vidas negras importam!

Taxadas com adjetivos reducionistas como violentas e marginais, as favelas são berços do ativismo há muito tempo. Excluídos do direito a serviços públicos, as comunidades estão habituadas a criar soluções para ter acesso à internet, saneamento, saúde e educação. Não à toa, em 2019 as favelas movimentaram 120 bilhões de reais (algo em torno de 30 bilhões de dólares), uma verdadeira potência econômica que merece ser reconhecida por suas qualidades.

Até o momento, as ações adotadas nessa realidade paralela vieram justamente da força do Bloco de Líderes e Empreendedores Sociais das 10 maiores favelas do Brasil, intitulado G10 Favelas – em uma alusão ao G20. Apoiados por essa iniciativa, líderes comunitários em alguns dos bairros mais atingidos pela pobreza do país, contrataram suas próprias ambulâncias, treinaram moradores voluntários para atuarem como brigadistas em casos de emergência, produziram marmitas para garantir a alimentação dos mais necessitados, criaram fundos de desemprego e construíram bancos de dados independentes para rastrear casos e mortes pelo novo coronavírus. Onde há diariamente a ausência do estado, nascem novas e pulsantes iniciativas.

Para ajudar as mulheres diaristas dispensadas de seus trabalhos devido ao novo coronavírus, foram implementadas ações para “adotar” essas desempregadas, disponibilizando renda, cestas básicas e kit de higiene. Em apoio aos comerciantes locais, encorajamos que as pessoas comprassem, nesses estabelecimentos, as cestas básicas doadas.

Na questão social, criamos a figura do Presidente de Rua. Só em Paraisópolis hoje são mais de 650. Cada morador se destaca como voluntário para monitorar a situação de saúde de um grupo próximo de vizinhos.  Esse modelo, presente em mais de 14 estados, está se provando muito efetivo.

E a partir de iniciativas como essas, estamos combatendo a pior pandemia da história recente. A força de pessoas comuns, muitas delas também enfrentando seus próprios desafios, que não possuem grandes riquezas nem cargos representativos, ou seja, é a prova clara que a justiça social e o desenvolvimento de um país devem começar pela base da pirâmide. Se foi possível gerar nestas grandes comunidades uma situação de fortaleza em meio ao caos, é possível inspirar outras favelas e outros tantos cidadãos pelo mundo a fazer o mesmo. Estamos tentando criar a consciência para muito além das barreiras invisíveis que separam pobres e ricos, negros e brancos.

O processo de organização para o pós-pandemia precisa começar agora, com um trabalho assistencial pensado para assegurar a sobrevivência da população menos favorecida: trabalhadores braçais, domésticas, pequenos empreendedores e comerciantes da periferia. Não podemos voltar ao normal, devemos fazer um “novo normal” que não aceite o abismo social entre as classes, não só no Brasil, mas em muitos países pelo mundo.

*Gilson Rodrigues, coordenador nacional do G10 Favelas

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