A resposta das minorias nas urnas municipais

A resposta das minorias nas urnas municipais

Mara Gabrilli*

12 de novembro de 2020 | 05h15

Mara Gabrili. FOTO GABRIELA BILO/ESTADÃO

Durante muito tempo, a política se mostrou um reduto homogêneo e sobretudo liderado por homens. Presenciei isso, quando resolvi entrar para a política depois de quebrar o pescoço e perder os movimentos de pernas e braços. Fui imbuída de um sentimento para trabalhar por aqueles, que assim como eu, tinham uma deficiência e não se sentiam incluídos nos espaços, serviços e políticas públicas. Era como se fossemos invisíveis.

Em 2004, quando ainda militava na ONG que fundei para apoiar paratletas e pesquisas para a cura de paralisias, percebi que as pessoas com deficiência não conseguiam acessar praticamente nenhum serviço das cidades porque elas eram repletas de barreiras. Elaborei um projeto de criação de uma secretaria na cidade de São Paulo com o foco na inclusão das pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. José Serra, que assumiu o comando da prefeitura paulistana em 2005, acreditou na ideia e me convidou para assumir o desafio de promover a acessibilidade e a inclusão na maior cidade da América Latina.

Nesta época, entre outros feitos, conseguimos reformar cerca de 400 km de calçada da capital, inclusive a da Avenida Paulista, que se tornou a via mais acessível da América Latina. Tempos depois, já vereadora de São Paulo, aprovamos o PEC (Lei 14.675/2008), Plano Emergencial de Calçadas, que obriga a Prefeitura a reformar as calçadas em rotas estratégicas – locais da cidade onde se concentram serviços importantes e com alto fluxo de pedestres, como escolas, hospitais, bancos, creches, etc.

Contudo, lutar pelos direitos das pessoas com deficiência, me levou a trabalhar pelo bem estar geral da população. Costumo muito dizer que uma cidade que é boa para quem tem algum tipo de mobilidade reduzida ou qualquer deficiência, seja temporária ou não, é muito melhor para quem não tem.

Nesse sentido, é dever de quem representa o povo pensar no todo, fazendo reflexões do tipo: o que a cidade pode fazer a favor das pessoas? Calçadas planas, acessíveis e seguras? As escolas podem ser inclusivas para todos os alunos? A comunicação da minha campanha foi pensada para alcançar todo e qualquer eleitor? E a do meu mandato, será feita para todos os cidadãos, inclusive àqueles que não ouvem e não enxergam? E a oferta de transporte público, hospitais e lazer? Atenderá a todos com segurança e agilidade? E os idosos, como incluí-los nos programas da cidade? Mulheres, jovens e a população LGBTQI+, estão todos no radar das ações do município?

São muitas as reflexões que precisam ser feitas para criar uma agenda positiva com soluções para as cidades. E esse é um compromisso que os candidatos a prefeitos e vereadores precisam ter no radar ao elaborar seus planos de governo. Vale lembrar que não há gestões bem sucedidas que não tenham um retrato da sociedade como de fato ela é: diversa. Não se governa bem deixando pessoas para trás.

O futuro saudável de nossos municípios depende de gestões que saibam conciliar os interesses das ditas minorias, que na verdade são gigantes. Políticas públicas precisam ser trabalhadas de forma transversal, com a diversidade permeando todas as áreas.

Que nossos próximos gestores municipais aprendam que trabalhar respeitando as diferenças enriquece nosso repertório como ser público e também como ser humano. É assim que oxigenamos ideias e enriquecemos a nossa democracia, um bem precioso que não podemos abrir mão.

*Mara Gabrilli, senadora (PSDB-SP), publicitária, psicóloga, foi secretária da Pessoa com Deficiência da capital paulista, vereadora por São Paulo e deputada federal por dois mandatos

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