A repentina popularidade do Butantan

A repentina popularidade do Butantan

Ricardo Viveiros*

28 de junho de 2021 | 09h34

Ricardo Viveiros. FOTO: DIVULGAÇÃO

Para quem, como eu, trabalha há muitos anos em Comunicação, pode parecer natural o que não é popular – de repente –, passar a ser alvo do interesse de todos e ter destacada presença diária na mídia impressa e eletrônica. Por consequência, tornar-se tema das conversas sociais no País e no Exterior. Entretanto, para quem não é especialista, parece que só agora ficou midiático e de interesse da massa o que sempre esteve aí, prestando bons serviços.

Falo do Instituto Butantan que, até a pandemia da Covid-19, era conhecido por poucos apenas como uma espécie de zoológico de cobras e outros animais peçonhentos e que, por isso, tinha o antídoto para as picadas de serpentes, aranhas, escorpiões, lacraias etc. Uma visão superficial e bem simplista de um complexo científico da maior relevância para São Paulo, o Brasil e a América Latina – respeitado em todo o Mundo.

Quem vive em São Paulo, tenha sido levado pelos pais ou professores, já deve ter visitado o Butantan. Até então pela sua parcial fama, apenas referenciado como sinônimo de local que reúne muitas cobras. Colocação usada em piadas sobre as sogras, ou quando para destacar uma pessoa muito capaz, alguém que é “cobra” em determinada atividade.

“Butantan” é um termo da língua Tupi-Guarani que significa “terra duríssima”, através da junção de yby (chão) e atã-atã (muito resistente). A região do Butantã era rota de passagem de bandeirantes e jesuítas catequistas que se dirigiam ao interior do País, como conto no livro “A vila que descobriu o Brasil” (Geração Editorial). Foi na região do Butantã que Afonso Sardinha montou o primeiro armazém de açúcar da vila de São Paulo, em terra recebida em 1607. A antiga sesmaria teve, ao longo do tempo, vários nomes: Ybytatá, Uvatantan, Ubitatá, Butantan e, finalmente, Butantã.

Existe muita confusão entre o que seria o certo: Butantan ou Butantã, exatamente pela recente popularização do Instituto. No Português de hoje, a grafia correta da palavra é com “ã” no final. O nome do instituto é com “n” porque esse era o usual no tempo em que ele foi fundado, em 1901, na Zona Oeste da capital paulista. Sua origem está associada ao combate da peste bubônica, que nos últimos anos da década de 1890 causava uma epidemia. Para produzir o soro contra a peste, foi escolhida uma área então distante do centro paulistano, com a preocupação de preservar as pessoas.

Na Fazenda Butantan, às margens do Rio Pinheiros, foi instalado um laboratório junto ao Instituto Bacteriológico do Estado de São Paulo que, dois anos depois, se tornou Instituto Serumteráphico, passando a atuar na área de pesquisa e produção de soros. Sob a coordenação do médico Vital Brazil, convidado por Adolfo Lutz, outro importante cientista que à época dirigia o Bacteriológico, tiveram início importantes pesquisas. Vital Brazil também trabalhou com Oswaldo Cruz e Emílio Ribas, em especial no combate da peste bubônica, tifo, varíola e febre amarela.

Foi lá, no antigo Bacteriológico, que Vital Brazil desenvolveu, no início quase sem recursos, significativas pesquisas seguidas da produção de medicamentos. Em 1903, resultado de muita dedicação científica, Vital Brazil anunciou a descoberta do soro antiofídico. O produto foi desenvolvido a partir de anticorpos gerados no sangue dos cavalos, depois da injeção de uma pequena quantidade de veneno da própria cobra. Depois da descoberta, outros soros também passaram a ser produzidos no Instituto Butantan. E surgiram vacinas contra tifo, varíola, tétano, psitacose (febre dos papagaios), disenteria bacilar (infecção aguda do intestino) e BCG (tuberculose). As sulfas e as penicilinas vieram mais tarde. As picadas de aranhas, escorpiões e lacraias venenosas deram origem a novos soros. Vital Brazil ficou mundialmente conhecido pela descoberta dos antídotos contra ataques de animais peçonhentos, bem como dos soros contra o tétano e a difteria.

Somente em 1925, o nome oficial passou a ser Instituto Butantan, hoje vinculado à Secretaria de Estado da Saúde do Governo de São Paulo. O conjunto arquitetônico foi tombado pelo Patrimônio Histórico, em 1981. Além dos serpentários, com mais de 60 espécies brasileiras, também estão expostas aranhas, lacraias e escorpiões. Os visitantes podem, ainda, desfrutar do parque no em torno dos edifícios com suas árvores raras e bucólicas alamedas. E visitar o Museu do Instituto Butantan (MIB) e o Museu Histórico. O Hospital Vital Brasil, que funciona no Instituto Butantan, permanece aberto dia e noite. O tratamento é gratuito para qualquer pessoa picada por cobras, escorpiões, aranhas, lacraias e outros animais desse tipo.

Embora com uma longa e respeitada história construída com pesquisas e estudos puramente científicos, só agora, 120 anos depois de fundado, com a pandemia da Covid-19 e muita polêmica político-ideológica em torno das vacinas contra a doença, é que o Instituto Butantan se tornou midiático e muito conhecido. Ou seja, passou a correr o risco de pagar um alto preço, que antes não havia, pela popularidade. Agora, há quem elogie e quem critique o Butantan. Justiça seja feita, o centro de ciências paulista foi pioneiro na vacina contra a Covid-19 no Brasil, com a sua Coronavac sendo aplicada com eficácia desde janeiro deste ano. Cerca de 94 milhões de pessoas já foram imunizadas contra a doença no Brasil, mais de 70% delas com a vacina desenvolvida no Instituto Butantan.

O importante, entretanto, é o Instituto seguir comprometido com sua correta trajetória de prestar relevantes serviços à sociedade paulista e brasileira. Seja quem for o governador paulista, seja quem for o presidente da República. O que interessa é a saúde e o bem-estar da população. De Vital Brazil a Dimas Covas prevalece o compromisso do Butantan com a Ciência: merecendo não apenas uma correta imagem pública, como sempre lutando pela pesquisa e qualidade dos produtos – o que, de fato, interessa à sociedade.

*Ricardo Viveiros é jornalista, escritor e professor. Doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, foi diretor-geral do Museu Padre Anchieta (Pateo do Collegio) e tem vários livros publicados, entre os quais: “Justiça Seja Feita”, “A Vila que Descobriu o Brasil”, “Pelos Caminhos da Educação” e “O Poeta e o Passarinho”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.