A rede de ligações do ‘Professor’

A rede de ligações do ‘Professor’

Lava Jato achou ligações telefônicas entre o ex-ministro da Fazenda dos militares Delfim Netto e investigados na Operação Buona Fortuna; na lista de contatos, o também ex-chefe da pasta e candidato a delator Antônio Palocci

Ricardo Brandt, Luiz Vassallo e Julia Affonso

13 Março 2018 | 05h00

Uma teia de chamadas telefônicas embasa suspeitas da Lava Jato contra o poderoso ex-ministro da Fazenda dos militares nos anos 1970 Antonio Delfim Netto. Apelidado como ‘Professor’ na lista de propinas da Odebrecht, a ele são atribuídas 152 ligações com outros investigados. O dado consta em relatório da força-tarefa da Lava Jato, no âmbito da Operação Buona Fortuna.

Um dos alvos e apontado como ‘porta-voz’ de Delfim nos supostos esquemas é outro ex-chefe da Fazenda. Antonio Palocci fez uma ligação de apenas 8 segundos, na manhã do dia 11 de julho de 2012. À época, o petista já havia deixado o governo Lula. Atualmente, ele negocia acordo de delação premiada.

A Delfim são atribuídos 10% de supostas propinas de R$ 15 milhões pagas pelo consórcio responsável pela construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. O restante teria sido rachado entre o PMDB e o PT.

Com a líder do Consórcio Norte Energia – que ganhou o contrato de Belo Monte -, a Eletronorte, Delfim se comunicou em 52 chamadas telefônicas. Entre as empresas investigadas, foi a que mais fez e recebeu chamadas do ‘Professor’.

O ex-ministro também ligou duas vezes e recebeu três chamadas da Mendes Júnior, que tinha participação de 1,25% do consórcio Norte Energia.

Segundo o delator da Andrade Gutierrez Flavio Barra, pagamentos eram feitos para a empresa LS Consultoria, do sobrinho de Delfim, Luiz Appolonio Neto, por meio de contratos fictícios. Delfim ligou duas vezes e recebeu uma chamada da empresa. Já com o sobrinho, comunicação frequente: Ligou 35 vezes e atendeu 72 chamadas.

O sobrinho, apontado como operador de Delfim, manteve contatos com Camargo Correa, Odebrecht, OAS, Serveng, Andrade, Galvão Engenharia, Contern e OAS.

Outros alvos da Lava Jato, como Delcídio do Amaral, o ex-executivo da OAS Mateus Coutinho, Milton Schahin e José Carlos Bumlai também falaram com Luiz Appolonio Neto.

Delcídio teria participado de reunião com o sobrinho de Delfim, o ex-ministro e Bumlai para tratar do contrato de Belo Monte, segundo relatou o pecuarista, em depoimento à Lava Jato, em 2015.

O delator da Odebrecht Antonio Carlos Daiha Blando também fez ligações a Appolonio. Ele afirmou, em colaboração, ter feito parte de reunião com o sobrinho de Delfim. Appolonio, no entanto, disse não conhecê-lo, apesar das  chamadas. Em seu celular, também foram encontradas trocas de mensagem com o delator.

“As provas indicam que o ex-ministro recebeu 10% do percentual pago pelas construtoras a título de vantagens indevidas, enquanto o restante da propina foi dividido entre o PMDB e o PT, no patamar de 45% para cada partido”, informa a Procuradoria da República.

O nome da operação é uma referência a uma das empresas de consultoria de Delfim, a ‘Buona Fortuna’.

Segundo os investigadores, já foram rastreados pagamentos em valores superiores a R$ 4 milhões de um total estimado em R$ 15 milhões, pelas empresas Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Odebrecht, OAS e J. Malucelli, todas integrantes do Consórcio Construtor de Belo Monte, em favor de pessoas jurídicas relacionadas a Delfim Netto, por meio de contratos fictícios de consultoria.

No caso da Odebrecht os pagamentos foram registrados no sistema de controle de propinas da empresa (“Drousys”), com o codinome “Professor”.

COM A PALAVRA, OS ADVOGADOS FERNANDO ARANEO, RICARDO TOSTO E JORGE NEMR, QUE DEFENDEM DELFIM NETTO

“O professor Delfim Netto não ocupa cargo público desde 2006 e não cometeu nenhum ato ilícito em qualquer tempo. Os valores que recebeu foram honorários por consultoria prestada.”

COM A PALAVRA, LUIZ APPOLONIO NETO

A defesa de Luiz Appolonio Neto, representada pelo advogado Fernando Araneo, sócio do Leite, Tosto e Barros Advogados, “refuta veementemente as acusações e esclarece que sua vida profissional sempre foi pautada pela legalidade”.

COM A PALAVRA, O MDB

NOTA – MDB LAVA JATO

O MDB não recebeu propina nem recursos desviados no Consórcio Norte Energia. Lamenta que uma pessoa da importância do ex-deputado Delfim NetTo esteja indevidamente citado no processo. Assim, como em outras investigações, o MDB acredita que a verdade aparecerá no final.

COM A PALAVRA, O PT

NOTA DO PT LAVA JATO ATACA O PT NO ANO ELEITORAL

As acusações dos procuradores da Lava Jato ao PT, na investigação sobre a usina de Belo Monte, não têm o menor fundamento. Na medida em que se aproximam as eleições, eles tentam criminalizar o partido, usando a palavra de delatores que buscam benefícios penais e financeiros.

Brasília, 9 de março de 2018.

Assessoria de Imprensa do Partido dos Trabalhadores

COM A PALAVRA, ODEBRECHT

“A Odebrecht está colaborando com a Justiça no Brasil e nos países em que atua. Já reconheceu os seus erros, pediu desculpas públicas, assinou um Acordo de Leniência com as autoridades do Brasil, Estados Unidos, Suíça, República Dominicana, Equador, Panamá e Guatemala, e está comprometida a combater e não tolerar a corrupção em quaisquer de suas formas.”

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