A receita para se fraudar carnes, registrada por uma testemunha da Carne Fraca

A receita para se fraudar carnes, registrada por uma testemunha da Carne Fraca

Uma ex-funcionária do frigorífico Peccin, alvo das investigações da PF de corrupção e fraudes envolvendo fiscais do Ministério da Agricultura, entregou aos investigadores gravações de conversa em que recebeu instruções de superiores sobre o processo de manipulação irregular dos alimentos

Luiz Vassallo, Ricardo Brandt e Julia Affonso

03 de abril de 2017 | 05h43

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Uma ex-funcionária do frigorífico Peccin registrou, em cartório, gravações de conversas que teve com um superior a respeito de como funcionários da empresa eram instruídos a adulterar carnes. A médica veterinária de nome Vanessa e outras duas colegas que trabalharam para a empresa foram ouvidas em fevereiro de 2015 pela equipe da Polícia Federal, em Curitiba, responsável pela Operação Carne Fraca.

A operação, deflagrada no dia 17 de março, revelou um esquema de corrupção nas superintendências regionais do Ministério da Agricultura, nos Estados de Minas Gerais, Goiás e Paraná, que envolvia fiscais federais e empresários dos maiores frigoríficos do País. De acordo com a PF, os agentes públicos investigados recebiam propinas para emitir certificados sanitários a carnes estragadas e adulteradas.

A ex-funcionária do Peccin afirmou à PF ter sido demitida após relatar ao fiscal federal Daniel  Gouvêa Teixeira – considerado a gênese da Carne Fraca, por ter denunciado o esquema, em 2015 – as irregularidades cometidas no frigorífico. Ela alegou ter recebido ameaças da dona do Peccin, Nair Peccin, um dos alvos da operação, para que não delatasse os esquemas de propina e a adulteração da carne produzida pela empresa.

Enquanto trabalhou no frigorífico, a médica veterinária gravou conversas com superiores que a instruíam sobre procedimentos de adulteração de carnes.

Um mês após ser demitida, em julho de 2014, a médica veterinária registrou os arquivos de áudio e as respectivas transcrições, no 7º Tabelião de Curitiba.

Um dos arquivos recebeu o nome de “como fraudar.docx”. No documento, uma voz masculina de um funcionário não identificado é registrada em instruindo sobre como adulterar produtos feitos de carne.
MEIO COMO FRAUDAR

“Ó, salsicha superfrango eu fiz aqui uma quantidade bem baixinha “né da produção, mas é, eu coloco lá eu tô com 1 Kg (um quilo) de carne suína eu coloco é que existe dentro do meu estoque entendeu? É, porque assim, porque é o que eu compro pra fazer é, por exemplo na minha salsicha também não adiciono entendeu? Na realidade. Mas é pro meu, pra fabricação eu utilizo pra fazer por exemplo afiambrado e apresuntado. Na minha toscana eu utilizo esta carne. Aí eu não aponto a fabricação de toscana e falo ó fiz salsicha superfrango, fiz salsicha Peccin entendeu?”, afirma o suposto funcionário, registrado nas gravações.

A Operação Carne Fraca começou com base no depoimento de Daniel Gouvêa Teixeira, fiscal que foi afastado do cargo após pedir a suspensão das atividades do frigorífico Peccin, do Paraná.

Enquanto trabalhou na empresa, a médica veterinária chegou a gravar conversas nas quais o dono, Idair Peccin, disse que “daria um jeito” em Daniel Teixeira, em acordo com a superior do fiscal, Maria do Rocio.

Em um documento de áudio intitulado como “maria.mp3”, que também foi gravado, registrado em cartório, e entregue à PF pela ex-funcionária do frigorífico, uma mulher não identificada diz que “o doutor Daniel mandou parar o carregamento”. Em resposta, um funcionário explica que é para “deixar ele fazer o que ele quiser”. “A doutora Maria do Rocio está assumindo o cargo hoje de novo, ele não volta”.

De acordo com a decisão do juiz federal Marcos Rosegrei da Silva, da 14ª. Vara Federal, de Curitiba, “o fiscal Daniel teria incomodado muito os donos da empresa, e, por solicitação do sr. Peccin feita a Maria do Rocio Nascimento, foi elaborada portaria de destituição do referido fiscal exatamente no mesmo dia em que fiscalizou a empresa e detectou as irregularidades, o que causou nos funcionários a impressão de que ela teria sido paga para tanto”.
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2 COMO FRAUDAR

3 COMO FRAUDAR

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COM A PALAVRA, O FRIGORÍFICO PECCIN

A PECCIN AGRO INDUSTRIAL LTDA. vem a público comunicar, em razão da operação Carne Fraca, da Polícia Federal, realizada ontem, dia 17 de março, sua grande surpresa, consternação e forte repúdio as falsas alegações que culminaram com a prisão preventiva de seus diretores, esclarecendo o seguinte:
1. A PECCIN AGRO INDUSTRIAL LTDA. tem amplo interesse em contribuir com as investigações, em busca da verdade, estando inteiramente à disposição das autoridades policiais para prestar quaisquer esclarecimentos que se façam necessários;
2. A PECCIN AGRO INDUSTRIAL LTDA. declara que estão confiantes de que os órgãos competentes saberão discernir a efetiva veracidade dos fatos que ora se alegam, ainda, conclama pela paciência e serenidade da sociedade para o esclarecimento dos fatos verdadeiros;
3. Por isso a PECCIN AGRO INDUSTRIAL LTDA. lamenta a divulgação precipitada de inverdades sobre o seu sistema de produção, sendo que as informações repassadas ao grande público foram no afã de justificar os motivos da operação “Carne Fraca”, modificando os fatos e comprometendo a verdade.
4. Por fim a PECCIN AGRO INDUSTRIAL LTDA., esclarece que que não tem qualquer vínculo comercial ou societário com a Peccin S/A, indústria gaúcha de doces e chocolates.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE MARIA DO ROCIO

“Gustavo Sartor, advogado de Maria do Rocio Nascimento, informou que em razão do sigilo do Inquérito Policial não irá se manifestar.”

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