A readequação do setor de sucatas de ferro e aço na pandemia

A readequação do setor de sucatas de ferro e aço na pandemia

Clineu Nunes Alvarenga e Rafael Risso de Barros*

06 de dezembro de 2020 | 05h00

Clineu Nunes Alvarenga e Rafael Risso de Barros. FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

A Covid-19 teve impacto direto em todos os setores da economia neste ano. As atividades dos processadores e comercializadores de sucatas de ferro e aço, insumo usado na fabricação de aço pelas usinas siderúrgicas, também foram bruscamente afetadas e somente começaram a apresentar sinais de recuperação no segundo semestre. Mas, ainda há problemas em função das dificuldades enfrentadas e que ainda perduram, fazendo com que o mercado continue a sofrer as consequências ocasionadas pela pandemia.

Desde março, quando foi constatado o alastramento do novo coronavírus no Brasil e a paralisação quase total da economia, a cadeia de sucatas de ferro e aço teve forte retração. Com a iminência da disseminação do contágio, foram instituídas medidas governamentais no combate à Covid, que proibiram a operação de vários setores considerados “não essenciais”. Os pequenos depósitos de sucatas, estabelecidos nas metrópoles e em outros Estados, tiveram que baixar as portas e deixar de receber o insumo de milhares de catadores (os chamados “carroceiros”).

Mesmo com essa parada e a quantidade reduzida da coleta da chamada sucata de obsolescência, aquela que é descartada e recolhida pelos catadores, como geladeiras, eletrodomésticos, partes de carros velhos, entre outros materiais postos em desuso, o setor de reciclagem ainda se manteve trabalhando. Além de as empresas de sucatas de ferro e aço terem se voltado ainda mais ao mercado externo como alternativa para negociar volumes excedentes de sucatas ferrosas, com recorde de vendas externas no primeiro semestre, o setor, durante todo o período da crise mais aguda, manteve as compras de materiais recicláveis de catadores autônomos/cooperados e ainda empenhou esforços junto aos governantes com a finalidade mostrar a essencialidade socioeconômico e ambiental da cadeia de reciclagem ao país.

A paralisação de qualquer etapa do ciclo da reciclagem, tal como a coleta seletiva e o trabalho do catador na segregação de materiais descartados pela sociedade, pode ocasionar graves consequências e levar a propagação de doenças como a própria Covid-19, dengue, chikungunya, zika e febre amarela, já que, quanto mais longo o período de exposição dos materiais recicláveis, maiores serão os riscos de disseminação e transmissão de doenças.

O Instituto Nacional das Empresas de Sucata de Ferro e Aço (Inesfa), entidade que representa mais de 5,6 mil empresas em todo o país, a maioria pequenas e médias, das quais cerca de mil são processadoras, buscou até mesmo apoio internacional, por meio do Bureau of International Recycling (BIR), para que, a exemplo da maior parte do mundo, ficasse evidente em nosso país a essencialidade da reciclagem e do setor de sucatas de ferro e aço. O BIR representa cerca de 30 mil recicladores em mais de 70 países em todo o mundo, incluindo 36 associações nacionais.

A partir de agosto e setembro, o reaquecimento da economia puxado pela produção industrial, notadamente a construção civil, fez também com que a cadeia de sucatas de ferro e aço voltasse a respirar. Os cerca de 1,5 milhão de pessoas que dependem da coleta, processamento e comercialização de sucatas de ferro e aço, dos quais mais de 800 mil catadores, já conseguem vislumbrar, neste final de ano, um cenário mais favorável em 2021, com a tendência de normalização do consumo por parte das usinas siderúrgicas.

Os milhares de catadores em todo o país vêm sendo beneficiados pela melhora da economia e da indústria em geral. Após o período de extrema dificuldade no segundo trimestre, auge da pandemia, quando uma parte recebeu o auxílio emergencial do governo, os catadores de sucatas estão conseguindo preços melhores pelo material coletado e, com isso, garantindo a subsistência. Além disso, no setor houve alguns casos isolados de trabalhadores com a Covid-19, diante das rígidas medidas de precaução e prevenção adotadas pelas empresas sucateiras.

Com o aumento de consumo no mercado interno de sucatas ferrosas pelas usinas siderúrgicas, as perspectivas são de que as vendas no Brasil voltem a patamares pré-pandemia e os preços tenham uma boa recuperação para os carroceiros, pequenos depósitos e empresas do setor de sucatas. Neste final de ano, as empresas processadoras e comercializadoras de sucatas estão trabalhando normalmente e abastecendo plenamente as usinas siderúrgicas.

O mercado nacional volta, portanto, a ter participação acima de 90% na demanda pela sucata ferrosa, como sempre ocorreu tradicionalmente nos últimos anos. O consumo das usinas neste ano deverá alcançar, nos cálculos do Inesfa, cerca de 8 milhões de toneladas, próximo ao verificado em 2019. O número ainda está distante do pico de 2013, com 11,171 milhões de toneladas, mas já reflete importante melhoria do mercado brasileiro.

A crise mais uma vez vem comprovar ao país a importância do livre mercado e de alternativas em momentos de retração da produção e consumo doméstico, como ocorreu neste ano e em outros períodos, em 2017 e 2018. As exportações, que agora tendem a cair com o maior consumo interno, em certos momentos são opção extremamente necessárias, que permitiram às empresas de sucatas manter empregos e o estímulo na coleta, especialmente de catadores. Com isso, o setor sairá ainda mais fortalecido desta delicada situação em 2020.

*Clineu Nunes Alvarenga é presidente do Instituto Nacional das Empresas de Sucata de Ferro e Aço (Inesfa)

*Rafael Risso de Barros é presidente do Sindicato das Empresas de Sucata de Ferro e Aço (Sindinesfa)

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