A ralé moderna e a ideologia da dominação

A ralé moderna e a ideologia da dominação

Flávio Nogueira*

14 de maio de 2020 | 09h00

Flávio Nogueira. FOTO: ASSESSORIA DE IMPRENSA/DIV.

Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo: Antissemitismo, Imperialismo, Totalitarismo, identifica um grupo social surgido no interregno das duas guerras mundiais: “a ralé moderna”. A escritora trata do assunto no âmbito do totalitarismo nazifascista e stalinista da primeira metade do século XX, situando esse estamento como sustentáculo daqueles regimes. Contudo, a ralé moderna não pode hoje ser esteio de governo totalitário algum, pois o capitalismo atual não contempla mais nenhum regime totalitário, mormente no Brasil, país desconhecedor de qualquer totalitarismo na sua história, apesar de ter abrigado mais de uma ditadura. É que o totalitarismo, diferente de outras formas de opressão, destrói tradições sociais, legais e políticas, transformando as classes em massas; substitui o sistema partidário por um movimento massificador, unipartidário e estabelece uma política externa que visa ao domínio mundial – o que nunca ocorreu em nossa nação. Não é que o totalitarismo tenha-se encerrado, entretanto os acontecimentos atuais não espelham os riscos a que se refere Arendt.

Para a filósofa, a nova ralé é formada por “déclassés” de todas as camadas sociais, no sentido de que seus membros se caracterizam como pessoas de consciência rebaixada, sejam ricos, pobres ou da classe média. Não importa se possuem nível superior completo ou são analfabetos, o que lhes permeia é a ignorância e estupidez nos pensamentos e atitudes. A manutenção do rebaixamento do nível de consciência das pessoas é uma forma de dominação ideológica que desenvolve, na ralé moderna, uma opinião falsa acerca das relações sociais e políticas. Deduz-se que essa ralé é fruto de uma premeditada dominação.

São pessoas supérfluas, muitas vezes pequenos comerciantes, trabalhadores informais que se iludem com propaganda manipuladora, ou uma parcela da classe média crente de que, um dia, poderá ser elite. Entretanto ela não é povo, o que a faz parecer povo é que este também está em todas as camadas sociais, todavia, em oposição à ralé, o povo propõe a resolução dos conflitos por meios pacíficos e busca preservar o direito das pessoas. Por isso é um erro igualar povo a ralé, na concepção da autora. Logo parece povo, mas não é.

A ralé moderna ergue movimentos com padrões morais enraizados na sociedade, tais quais a defesa da família, da ética religiosa e do militarismo, embora, na prática, os contradigam com os reais padrões, valores e princípios democráticos, religiosos, patrióticos e deixe-se atrair pela violência. Ora, quem se comporta com agressividade é tiranizado pelos instintos. É dessa maneira que a nova ralé se apresenta, instaurando-se na banalização da violência. São autoridades que espancam meliantes e são aplaudidas pelo rebotalho social, ávido de transferir seu recalque para as vítimas das autoridades, porque quem pertence a essa ralé se ressente de problemas mal resolvidos e está pronto a despejá-los sobre alguém que, ao sofrer, dilui neles a carga psicológica reprimida. Espancam marginais sob o aplauso de uma camada que diz: “se todos fizessem isso, acabaria a violência no Brasil”. É o valhacouto de onde surgem os líderes fascistas.

No dia-a-dia, tenta ser o padrão da ordem, e atribui a um mítico líder uma autoridade acima da lei. Não importa que desrespeite a Constituição, desde que combata a corrupção, que a polícia desrespeite direitos, desde que use de autoridade, nem lhe interessa que o agente da justiça imponha a exceção. Crê em tudo que seu líder diga, mesmo que contrarie a ciência, a História e a Geografia. Dela se vale o mau governante para dominar a nação, impondo a ignorância da correta dimensão da coisa pública. Para tanto, tenta passar a impressão de que a maioria apoia seu governo, quando apenas a ralé o apoia politicamente. Como a ralé é minoria, esse imaginário é vendido como verdade a seduzir os incautos.

Oxalá uma nova era dissolva os fenômenos sociais comprometedores da civilização e do verdadeiro caráter de humanidade, porquanto, mesmo que o mundo retorne, um dia, à ilusão totalitária, há em cada um de nós um liberal que procura persuadir-nos com o bom senso.

* Flávio Nogueira é médico e deputado federal pelo PDT do Piauí

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