A prisão de Fabrício Queiroz

A prisão de Fabrício Queiroz

Rodrigo Augusto Prando*

18 de junho de 2020 | 16h19

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

A recorrente questão: “Onde está o Queiroz” teve, hoje, sua resposta. Fabrício Queiroz foi preso, em Atibaia, na casa de seu advogado que, também, se apresenta como advogado do presidente Jair Bolsonaro. O governo Bolsonaro aparenta ser um emaranho de fios eletrizados e desencapados, sendo que, em algum momento, quando estes fios encostarem uns nos outros, o curto-circuito parece ser evidente. Queiroz, portanto, é um desses fios que, há muito, traz preocupação ao clã Bolsonaro.

O personagem em tela é investigado por suposta participação no esquema de “rachadinha” no gabinete de Flávio Bolsonaro, ainda no Rio de Janeiro. Hoje, Flávio é senador da República. A tal prática consistia em contratar assessores e, depois, recolher parte dos salários que voltavam para a conta do político. Além disso, há inúmeros depósitos suspeitos na conta de Flávio e, não menos importante, um cheque de Queiroz que foi depositado na conta da esposa do presidente da República. Se Queiroz era funcionário de Flávio, a filha de Queiroz era funcionária de Jair Bolsonaro. É ou não um conjunto de fios eletrizados?

Essa investigação em curso, com a prisão de Queiroz, bem como suas implicações no núcleo do poder da república, são, sociologicamente, reveladores da cultura brasileira, especialmente, da cultura política. Vejamos, portanto, como, na origem de tudo isso, encontra-se a enorme dificuldade de separação entre interesses privados e interesses público, entre as ações afetivas e as ações racionais, entre o espaço da casa e o da rua, entre relações pessoais (familiares) e impessoais (institucionais). Tudo, conjugado, forma um dos dilemas da sociedade brasileira, como bem podemos observar na essencial obra do antropólogo Roberto DaMatta, seja em “A casa & a rua” ou em “Carnavais, malandros e heróis”. Em linhas bastantes gerais – por questão de brevidade – há uma distinção entre os elementos atinentes à casa, à família, cujo teor afetivo é evidente e a rua, o espaço público e as instituições, na qual a racionalidade e impessoalidade deveriam prevalecer. Um assessor político, por exemplo, deveria ser contratado por suas qualidades profissionais, capacidade de gestão, conhecimento técnico e da burocracia estatal, assim como traços intelectuais de liderança e senso ético apurado. Mas, naquilo que se pode depreender da evolução política dos Bolsonaro, há o pai, patriarca, no bojo da política, a ex-esposa, os filhos e isso nada teria de problema, já que todos foram eleitos e, por isso, teriam atribuições institucionais próprias e em distintos níveis da Federação e nos poderes Executivo e Legislativo. O problema – um grande problema – é quando os interesses pessoais e familiares se apoderam dos cargos e funções públicas, rompendo a salutar barreira republicana que existe entre os interesses privados e públicos. Asseverou na década de 1930, Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, que o “Estado não é uma ampliação do círculo familiar”.

Dado seu histórico, hoje, por certo, quem reagirá a prisão de Queiroz, assentado na força da emoção, será Jair, o pai, e não Jair Bolsonaro, o presidente da República. Segundo noticiado, Bolsonaro convocou ministros e seus principais auxiliares para explicar o envolvimento do advogado Frederick Wassef, que representa o senador Flávio e o próprio residente, no sumiço e no aparecimento de Queiroz em sua residência. Por certo, avaliam qual o impacto da prisão no centro do poder político brasileiro. A crise da pandemia fica para a semana que vem…

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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