A presença do desaparecido

A presença do desaparecido

Eduardo Prestes Massena*

06 de abril de 2021 | 05h00

Eduardo Prestes Massena. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Desde bem pequenos eu e minhas irmãs fomos apresentados ao nosso avô Massena, ele aparecia nas histórias contadas pelo meu pai ao lembrar de sua infância em Cascadura, subúrbio do Rio de Janeiro. Vovô surgia como uma figura severa e também como um grande inventor, fazia de tudo: cama, brinquedos, pintava cartões de natal, construía casa, convertia motor de gasolina para diesel, ou seja, era um faz tudo. Crescemos ouvindo essas histórias e muitas outras que escapavam da memória do meu pai de forma tão carinhosa quando ainda morávamos em Maputo, capital de Moçambique entre os anos de 1979/1987. Cumpríamos por lá nosso exílio, meus pais sabiam que se retornassem ao Brasil seriam presos e expostos a todo tipo de violência. Talvez esse distanciamento forçado, tanto do Brasil como também dos nossos familiares tenha alimentado essa prática de revolver a memória como estratégia de sobrevivência.

Por termos nascido no exterior e sermos filhos de pais brasileiros, nossa brasilidade se deu pela força dessas memórias, pelos relatos sobre o que não conhecíamos, por uma brasilidade abstrata, por uma ausência de Brasil. Como entender que era preciso amar um país que não nos permitia retornar? Como o orgulho de ser brasileiro podia conviver com os relatos de tortura e assassinato ocasionados pelos agentes do Estado?

Ao puxar os fios que constituíam a história do vovô Massena, meu pai esbarrava em outros nós, percorria sinuosamente caminhos que evitavam nossos questionamentos sobre a ausência daquele avô e o que havia ocorrido com ele. Trazia outros nomes, narrava viagens clandestinas, contava sobre outros destinos e assim fugia da pergunta principal: onde estava João Massena?

Massena foi um nordestino nascido em Pernambuco e que ainda adolescente chegou ao Rio de Janeiro com o objetivo de “ganhar a vida”. Trabalhou na indústria têxtil desde muito jovem e logo se envolveu com movimento sindical. Sua trajetória política o fez vereador em 1946 pelo estado da Guanabara e deputado em 1962 pelo Rio de Janeiro. No ano de 1964 após o golpe militar, teve seu mandato cassado e passou a sofrer perseguição política. Foi preso no ano de 1971 e posto em liberdade em 1973 com a saúde comprometida devido as sessões de tortura que sofrera. No ano de 1974, aos 54 anos de idade, Massena foi a um encontro em São Paulo e jamais retornou.

Ao desaparecer com o corpo do meu avô, o Estado brasileiro sob o comando dos militares negou a sua morte e alimentou uma expectativa cujo objetivo seria a continuidade de um estado de tortura psicológica permanente para a família. A perversidade no crime de desaparecimento está na sua infinitude. Sabe-se, pelos relatórios da Comissão Nacional da Verdade que Massena foi sequestrado, torturado e assassinado pelos agentes do Estado brasileiro que atuaram na Operação Radar cuja finalidade era localizar e desarticular a infraestrutura do jornal Voz Operária em meados da década de 1970.

Hoje compreendo que as histórias sobre vovô Massena contadas pelo meu pai em nossa infância eram um contraponto à ausência imposta pelo regime militar. Se o Estado negou o corpo a família, era preciso torna-lo presente tanto para a nossa geração quanto para as que viriam. A estratégia de resgatar essa memória é também a busca por uma relação de afeto com o passado, presente e futuro.

Nas últimas semanas, com a aproximação do aniversário do golpe de 1964, ecos de vozes autoritárias ensaiaram uma possível comemoração. Queriam celebrar a antidemocracia, os corpos torturados e o silencio causado pela censura? Como se não bastassem as mortes diárias causadas pela maior crise sanitária de nosso país. Parece que o descaso permanente dessa gente com a morte é a marca que une passado e presente numa política de ódio e indiferença.

Hoje mais do que nunca Massena vive em nossos sonhos e atitudes diárias, o Estado assassino comandado por militares desapareceu com o seu corpo, mas jamais sumirá com a história e a trajetória de tantos homens e mulheres que arriscaram suas vidas na luta por democracia, justiça e liberdade. São essas vidas que deveriam marcar a memória do dia 31 de março.

*Eduardo Prestes Massena, professor do ensino básico, músico e compositor. Mestre em Educação e doutorando em Educação pela UniRio

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