A politização e vitimização do corpo presidencial

A politização e vitimização do corpo presidencial

Rodrigo Augusto Prando*

16 de julho de 2021 | 14h25

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

O Presidente Jair Bolsonaro foi transferido para São Paulo e internado para realizar exames acerca de uma obstrução intestinal. Há dias, notava-se seu incômodo com os incessantes soluços e, também, de sua aparência física evidenciando um certo abatimento. Cabe, antes de tudo, desejar melhora a Bolsonaro, sua pronta recuperação. Uma fronteira ética, de valores, deve ser colocada por cada um para que não comemore nem doença e nem a morte de ninguém, independente, sobretudo, de qual posição se ocupa do espectro político. Dito isso, vamos aos fatos.

Bolsonaro está acuado, com medo mesmo. Medo de ter seu projeto de reeleição em xeque e das consequências civis e criminais de muitas de suas ações. As pesquisas que, não faz muito, mostravam Bolsonaro no segundo turno vencendo todos seus adversários, hoje, são completamente diferentes. Em eventual segundo turno, em 2022, perde para praticamente todos os seus adversários e, inclusive, com chances concretas de não chegar ao segundo turno com uma possibilidade, por exemplo, de vitória de Lula no primeiro turno. As pesquisas, como sabemos, são fotografias de momentos, captam o humor num dado período, e o processo eleitoral, num todo, é como um filme, ou seja, há um longo roteiro até outubro de 2022. Todavia, o cenário pandêmico, com mais de meio milhão de mortos; o ataque e o desprezo em relação às vacinas; atrasos na imunização, conjugação de negacionismo, teorias da conspiração, pós-verdades e fake news; inflação; aumento do custo de vida (alimentos, energia elétrica, combustíveis), tudo isso, no conjunto, corrói a aprovação presidencial. Além disso, fato importante, a CPI no Senado traz à tona depoimentos e documentos que vão, paulatinamente, complicando ainda mais o Governo. Os fortes indícios de corrupção no bojo do Ministério da Saúde em relação à compra da vacina Covaxin dinamitam um dos alicerces de sustentação do discurso eleitoral e político de Bolsonaro: o combate à corrupção (o outro alicerce, o liberalismo de Paulo Guedes, já nem pode ser considerado mais).

Bolsonaro e os bolsonaristas inauguraram, desde o primeiro dia de mandato, o presidencialismo de confrontação. Mantiveram as relações com as instituições e com a sociedade tensionadas o tempo todo. Tal fato implica ou num esgarçamento do tecido democrático ou na sua ruptura. Até o momento, os demais Poderes (Legislativo e Judiciário), ainda que combalidos, estão exercendo suas atribuições constitucionais de freios e contrapesos em relação aos desejos do Poder Executivo. Em 2018, no cenário eleitoral, houve um quadro em que a eleição de Bolsonaro se deu num momento de crise das esquerdas (PT e Lula à frente), força do discurso de combate à corrupção, notoriedade da Operação Lava Jato e de Sérgio Moro, enorme capacidade do bolsonarismo de entender e usar as redes sociais e, não menos importante, a facada que quase tirou a vida do então candidato Bolsonaro. Um erro creditar sua vitória à facada, as pesquisas já mostravam, bem antes, sua potencial conquista. No entanto, a facada lhe permitiu se ausentar do debate público e político-eleitoral. Sabidamente, Bolsonaro tem uma retórica fraquíssima, seu domínio do discurso político é primário e isso só ganharia dimensão e importância na discussão com seus adversários e com jornalistas. Desta forma, distante dos debates e dos questionamentos da mídia, surfando nos ambientes das redes sociais, com imagens, memes, frases provocativas e vídeos curtos e editados, tudo muito superficial,  Bolsonaro chegou à vitória e atropelou seus adversários. Obviamente, o triste episódio da facada – que merece, sempre, repúdio – foi explorado politicamente. Fotos, vídeos e depoimentos inundaram as redes sociais e a mídia no geral, seno que seu tempo espontâneo na televisão superou o de seus adversários. A facada que poderia ter lhe custado a vida foi aquilo que Maquiavel chamava de fortuna (a sorte, o acaso) e, naquele momento, ele teve virtù para bem utilizar a situação ao seu favor: colocou-se na condição de vítima e de forma binária e simplista conseguiu atribuir o ataque à esquerda, ao “militante do PSOL”.

Retomando os dias que correm, antes da internação do presidente, assisti um vídeo do filósofo Paulo Ghiraldelli no qual chamou a atenção que, durante a pandemia, Bolsonaro foi às ruas, saiu das redes sociais e levou seu corpo para as ruas. Correu riscos, especialmente, pelas aglomerações e por não utilizar máscaras. Colocou o seu corpo e suas ações em evidência e quis dar o recado: não tenho medo, sou forte, não fico doente e se adoeço não passa de uma “gripezinha”. Acontece que, dialeticamente, ao agir assim Bolsonaro chamou, também, seus adversários para as ruas, milhares de outros corpos foram ocupar espaços que eram quase que exclusivos dos apoiadores do presidente. Com a vacinação aumentando, as manifestações tendem a se avolumar, inclusive, com movimentos que, antes, davam apoio ao bolsonarismo. Médicos e psicanalistas asseveram que  as falas e ações de Bolsonaro, sempre agressivas, são, também, elementos que trazem consequências para a saúde, física e mental do presidente. Pouco provável que consiga viver em paz e calmo num nível de alerta e ataques cotidianos.

As últimas fotos de Bolsonaro, na cama de hospital, com sonda nasogástrica, fios sobre o peito desnudo e rosto indicando cansaço, dor e preocupação, foram divulgadas e ganharam as redes sociais. Rememorou-se a facada, a tentativa da “esquerda” de matar Bolsonaro, já que o quadro de obstrução teria relação direta com o evento de 2018. Novamente, Bolsonaro politiza e vitimiza o corpo, agora, presidencial. Sem saber, ainda, o resultado de tal estratégia, creio, inicialmente, que é muito cedo para lançar mão deste expediente. No turbilhão de denúncias e desgastes, Bolsonaro aproveitará esta breve fase para realinhar suas ideias e vontades e, quem sabe, ter um respiro por alguns dias. Como não poderia deixar de ser, as piadas e memes não deixaram de buscar a ridicularização de Bolsonaro, da mesma forma que sempre fez com seus adversários. Muitos, todavia, desejam ao presidente a pronta recuperação e que possa gozar da saúde que milhares de brasileiros não puderam ter. Outros tantos esforçam-se para ter empatia com a situação de enfermidade de Bolsonaro e tentam esquecer o presidente, numa live, imitando, aos risos, alguém sufocando por conta do coronavírus.

À guisa de conclusão, cabe reforçar o desejo de que o presidente se recupere. No mais, há que se manter atenção às estratégias e táticas bolsonaristas. Na impossibilidade de encarar o debate político franco e aberto, bem como os jornalistas e suas perguntas, Bolsonaro vai se refugiar onde se sente seguro: nas redes sociais e no cercadinho do Alvorada. Não defenderá, na eleição seu legado, até porque não há o que defender e, provavelmente, não apresentará um projeto de governo consistente. Terá, isso sim, a politização e vitimização de seu corpo, mas só em imagens e vídeos. Levando-se em conta a regularidade dos fenômenos sociais e políticos, a escalada de ataques do bolsonarismo terá um brevíssimo recuo e, logo mais, avançará até 2022. Caberá aos eleitores, democraticamente, com apoio das instituições, avaliar o conjunto da obra até as eleições vindouras.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador. Graduado em Ciências Sociais,  mestre e doutor em Sociologia. Analista do canal Ligando os Pontos

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoJair Bolsonaro

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.