A política como passe livre para violação da conduta moral

A política como passe livre para violação da conduta moral

Sergio Coelho*

20 de novembro de 2019 | 06h15

Sergio Coelho. FOTO: LULA APARÍCIO

“Política” é, certamente, uma das palavras com o maior número de definições já criada pelo homem. De Aristóteles a Max Weber, o conceito tem variado e evoluído ao longo dos séculos. Uma das definições mais aceitas para o termo é a de que a política é, antes de tudo, a arte da convivência em comunidade, que substitui a força e o autoritarismo pela negociação, em busca do consenso e da paz. Fora dos bancos da academia e dos livros especializados, porém, a profissionalização da atividade e o mau uso do poder pelos integrantes da classe política vêm, ao longo das últimas décadas, alterando sensivelmente a concepção geral sobre o conceito de política.

No inconsciente coletivo do século 21, a dedicação comunitária desinteressada parece algo tão improvável quanto um avião voar de costas e, nesse contexto, a pretensão política passou a ser motivo de desconfiança e suspeita. Simplesmente não se compreende e nem se espera mais que alguém se dedique à sua comunidade sem algum objetivo inconfessável. De fato, não é novidade associar a política à mentira, à falsidade, à corrupção e à falta de escrúpulos, mas parece que, nos últimos tempos, essas práticas se legitimaram no contexto da atividade política.

Para o homem comum, moldado pelas suas próprias experiências e observações, o ambiente político se tornou sinônimo de terra de ninguém. O local sem lei onde a moral não importa e tudo é permitido em nome de algum interesse, normalmente ligado à conquista ou à manutenção do poder pelo voto.

A política, enfim, tem sido a justificativa suprema e definitiva para as ações e intenções mais desonestas e imorais que se possa imaginar.

Indicativo inequívoco desse fato é que se, em qualquer ambiente, alguém inicia uma frase com a palavra mágica “politicamente” ou com a expressão “do ponto de vista político”, é intuitivo esperar que na sequência venha alguma afirmação que só pode ser justificada pelo alargamento dos conceitos de ética, e pela negação de qualquer limite moral, ambos implicitamente aceitos e autorizados quando se trata de uma questão “política”.

No dia a dia não só das casas legislativas e órgãos do Poder Executivo, mas também das empresas, das associações de classe e até dos condomínios de apartamentos, pode-se ouvir que “politicamente” é necessário adotar condutas que contradizem tudo o que pregamos; “politicamente” é preciso omitir um fato de interesse geral; “politicamente” é natural manifestar opiniões com as quais não concordamos; “politicamente” é necessário fazer alianças sem nenhuma identidade de pensamento, dentre inúmeras outras imoralidades do mesmo gênero e estilo.

Chegamos, nesse contexto, a cunhar a inacreditável expressão “politicamente correto”, uma artimanha explícita para impor a toda a sociedade a linha de pensamento ou de conduta dominante. Algo, evidentemente, impossível de sustentar fora do vale-tudo reinante no ambiente político.

É como se a política fosse um passe livre para ser usado, sem nenhum incômodo ou vergonha, quando é necessário justificar qualquer violação da conduta moral esperada em um ambiente social, empresarial ou comunitário.

Essa visão da política, tão deturpada quanto entranhada nas nossas almas, é o vírus mais potente e devastador existente contra o desenvolvimento de uma sociedade próspera, fraterna e capaz de tratar com dignidade os seus cidadãos.

Para reverter esse quadro, é necessário compreender que cada sociedade tem a política que constrói, e os responsáveis por fazer com que ela se realize de forma saudável e se torne instrumento de desenvolvimento e estabilidade social não são apenas os políticos profissionais, mas cada um de nós, todos os dias e em todas as situações.

*Sergio Coelho, advogado e diretor da Escola Superior de Advocacia da OAB/RJ

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