A plasticidade do crime na pandemia

A plasticidade do crime na pandemia

Flavio Goldberg e Valmor Racorti*

15 de fevereiro de 2021 | 06h15

Flavio Goldberg e Valmor Racorti. FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

O aumento da violência familiar, feminicídio, uma agressividade surda palpável no “stress” da população, a corrupção com o dinheiro público, uso de drogas, enfim uma escalada sensível do espírito do tempo, provocado pelo distanciamento social, confinamento, a solidão imposta, o fechamento de escolas, o desemprego, enfim, somos hoje uma grande aldeia na interação virtual.

Ora se observarmos fenômenos coletivos desta proporção, no passado guerras, revoluções, epidemias, constatamos a competência do crime enquanto fator causa e efeito da realidade social, em buscar formas e conteúdos de adaptação capazes de responder com eficácia as transformações do país.

Alias alguma forma de cumplicidade ou pelo menos tolerância simpática entre grupos ideológicos antigovernamentais e quadrilhas prosperam nestes períodos de instabilidade, paranoia, ruptura dos laços de civilização, principalmente, daqueles que dependem princípio da autoridade, da disciplina, da ordem, enfim do consenso social republicano e democrata.

A mera descrição da megalópoles que é São Paulo, fabricante, dinâmica reduzida ao despovoamento, silêncio tumular, ruas vazias explica o crime sorrateiro buscando sofisticação e volatilidade não só no assalto às moradias vazias, o “crack” num mercado alucinado mas também nos cofres públicos sujeitos à ataques, tecnologicamente arquitetados frente à estrutura jurídica demandando formas diferenciadas de atuação.

E urge, desde já, estudar os potenciais desdobramentos destas contingências para avaliar tendências, prevenir ocupação dos espaços físicos e simbólicos do poder já pós-pandemia.

Esta é uma tarefa que cabe à todas organizações policiais responsáveis pelo dever do policiamento num cenário filmico de terror.

E será, inclusive na colaboração científica de todos os aparelhos de segurança que a Constituição estabelece que poderemos evitar o caos medieval da população indefesa, entregue ao medo do sinistro fantasma do Crime ocupando os papéis que cabem aos órgãos de defesa da paz e da vida do cidadão.

Finalmente da mesma forma que o vírus não respeitou as fronteiras de cidades, países, continentes, o crime é cada vez mais planetário.

Se no século passado o “tráfico internacional de escravas brancas” mobilizou a reação universal hoje vamos pensar em estratégias de sistemas de segurança que levam a “nuvem” das redes e internet, contrabando de drogas e outras modalidades que a imaginação bandida possa conceber para travar essa guerra discreta, silenciosa que arruína a civilização.

*Flavio Goldberg, advogado e mestre em Direito

*Tenente-coronel Valmor Racorti, comandante do Batalhão de Operações Especiais de São Paulo

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