À PF, Abilio se diz injustiçado e nega ter ocultado irregularidades

À PF, Abilio se diz injustiçado e nega ter ocultado irregularidades

Empresário indiciado na Operação Trapaça depôs no inquérito da Polícia Federal por mais de 3 horas nesta terça-feira, 27

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

28 Novembro 2018 | 12h09

Abilio Diniz. Foto: Amanda Perobelli/Estadão

O empresário Abilio Diniz afirmou à Polícia Federal, em Curitiba, nesta terça-feira, 27, que ‘jamais teve como objetivo ou intenção ocultar fatos’ sobre a detecção de resíduo tóxico em carne de frango por autoridades da China (Dioxina). Abilio foi indiciado em 15 de outubro no âmbito da Operação Trapaça, braço da Carne Fraca, por estelionato, organização criminosa, crime contra saúde pública e falsidade ideológica.

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“Gostaria de ressaltar que durante toda sua vida pública sempre procurou atuar com transparência, e dentro da legalidade; que diz nunca ter tolerado condutas ilegais ou imorais; que possui 82 anos de vida e que se sente injustiçado por ter sido envolvido nesse processo decorrente da operação”, afirmou Abilio.

No relatório de indiciamento, da PF, o delegado Mauricio Moscardi Grillo, que ouviu o empresário nesta terça, afirmou que a análise de conversas por e-mails e também pelo aplicativo Whatsapp revelou ‘a prática das condutas delitivas não se restringia ao círculo das equipes técnica e gerencial das fábricas da BRF’. O delegado apontou omissão de Abilio no caso da detecção da Dioxina. O empresário foi presidente do conselho de administração do grupo BRF entre 9 de abril de 2013 e abril de 2018.

No depoimento, Abilio afirmou que ‘jamais teve como objetivo ou intenção ocultar os fatos que envolviam a questão da dioxina’. O empresário citou o ex-diretor-presidente Global do Grupo BRF Pedro Faria.

“Ao retornar de sua viagem, na época dos fatos, o declarante diz ter se reunido com Pedro Faria e sugerido que o mesmo confeccionasse uma carta para a então ministra Kátia Abreu relatando cronologicamente todas as medidas tomadas pelo grupo BRF no sentido de resolver a questão que envolvia a contaminação com dioxina, alertando para o perigo do vazamento no âmbito do Mapa (Ministério da Agricultura)”, relatou.

“Informou que o conselho de administração aprovou a decisão de não mais utilizar a farinha animal nas rações, embora essa decisão tenha representado um elevado custo adicional para cia; que perguntado ao declarante se era natural que o grupo BRF exercesse algum tipo de ingerência pautando os comportamentos da então ministra da Agricultura, disse que nunca esse tipo de comportamento chegou ao conselho de administração.”

Durante o depoimento, a PF perguntou a Abilio se ele tinha ciência de que a ‘presença de dioxina em índices superior ao permitido na legislação poderia ser considerado um grave risco a saúde pública’. O empresário declarou que ‘soube sobre essa questão de maneira mais direta apenas quando surgiu a contaminação com dioxina nos carregamentos detectados pelas autoridades chinesas’.

“Informou que durante todo o seu período a frente do conselho de administração do grupo BRF sempre teve uma preocupação com a questão a saúde pública, tendo inclusive, sugerido nas reuniões do conselho, providências no sentido de reduzir o sódio nos produtos processados”, disse.

“Até a deflagração da Operação Carne Franca e, depois, Trapaça, o conselho de administração da empresa nunca supôs haver irregularidades sistêmicas conforme demonstradas, até porque jamais foram informados anteriormente pela diretoria do grupo e pelos diversos órgãos de assessoramento do conselho (comitês) sobre as irregularidades detectadas.”

Abilio relatou à PF que ‘logo após a deflagração da Operação Carne Fraca, o conselho de administração criou dois comitês específicos e independentes para investigar os fatos elencados naquela operação’. Segundo o empresário, ‘uns dos comitês estaria responsável por avaliar aquela crise e o outro para investigação’.

“Diz ainda que a empresa contratou dois escritórios de advocacia (um brasileiro e um americano) para que realizassem um processo de investigação independente, desvinculado inclusive do conselho de administração; que o declarante diz que o conselho determinou a contratação de melhorias no sentido de aprimorar o sistema de rastreabilidade dos produtos e a qualidade como um todo”, afirmou Abilio.

“Neste ponto sugeriu que fosse copiado o que havia de melhor no mundo; que após a Operação Trapaça, todas as providencias já estabelecidas no âmbito da Operação Carne Fraca, foram renovadas no sentido de solucionar os problemas detectados; que o declarante também solicitou por meio de decisão do conselho de administração que fossem afastados todos os envolvidos de alguma forma na operação.”

À Polícia Federal, o empresário disse ainda que não sabia que o setor corporativo do grupo BRF – diretores, vice-presidentes e presidente – participava ‘de condutas consideradas criminosas’. Abilio declarou que ‘se soubesse de algo nesse sentido teria tomado todas as providências legais pertinentes’.

“Perguntado ao declarante se durante o período que atuou como conselheiro do Grupo, poderia informar se teve conhecimento de algum outro tipo de crime ocorrido no âmbito da empresa, como pagamento de propina a fiscais do Mapa, disse que nunca teve conhecimento desses fatos até o surgimento da Operação Trapaça”, informa o depoimento.

“Perguntado ao declarante se teve conhecimento ou autorizou doações eleitorais (por dentro ou por fora) na campanha eleitoral ocorrida no ano de 2014, em troca do grupo BRF ser beneficiado, de alguma maneira, por algum grupo político ou por algum agente político, disse que o conselho aprovou doações oficiais referentes a campanha eleitorais do ano de 2014; porém essas doações foram realizadas totalmente desvinculadas de quaisquer benefícios que, por ventura, poderiam surgir para o grupo BRF.”