A perigosa manipulação da fé

A perigosa manipulação da fé

Menildo Jesus de Sousa Freitas*

04 de dezembro de 2020 | 07h50

Menildo Jesus de Sousa Freitas. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nos primórdios, tudo aquilo que o homem não conseguia explicar ou entender através do conhecimento e de sua racionalidade, era atirado à crença de que o fato ou fenômeno decorria de forças etéreas ou divindades. Estas que existiam acima do poder terreno dos homens, podiam ser boas ou más e agiam segundo suas vontades na promoção de atos e fatos que repercutiam de forma direta ou indireta na vida dos seres humanos, conforme a crença de cada um ou de agrupamentos. Ou seja, a aceitação de um fato ou ato descrito segundo o entendimento ou de acordo com a receptividade psicológica do mesmo por parte dos indivíduos ou grupos, derivava de certeza trazida de convicções.

As divindades sempre se fizeram presentes na história, assim, o homem criou dois estágios distintos acerca da composição dos fenômenos. De um lado o terreno, algo que hoje entende-se como profano, comum e sem características que o diferencie dos demais. De outro lado o sagrado, algo único, de características peculiares e invisível na maioria dos casos, pode e deve ser sentido, mas nunca visto ou tocado. Neste caso, podemos chegar a interpretação de que até objetos ou coisas podem ser reconhecidas como artefatos sagrados, que podem ser vistos e tocados, porém, o atributo sagrado não reside em suas formas, mas no poder dos mesmos em promover crenças, ou seja, provocar fenômeno que lhes atribui em razão da crença e do sentimento, a convicção e aceitação.

Não é fato novo, a história nos mostra a igreja, enquanto instituição, lutando pelo poder em países ao redor do mundo – poder político que, necessariamente, levava ao poder econômico. Mas do outro lado, o soberano ou detentor do poder político, se valia da igreja para alcançar objetivos que nem sempre visavam o interesse social. A própria inquisição, ou a denominada “santa inquisição” – espécie de sistema jurídico implantado pela igreja católica, sobre a qual se propunha combater a heresia, blasfêmia, bruxaria e costumes ditos inaceitáveis – serviu muito como “arma” política para calar e perseguir pessoas que se opusessem tanto a igreja como ao Estado.

Quando não serviam ao Estado, leia-se vontade do soberano, as igrejas eram modificadas, seja pela força das armas ou pelas normas impostas. Um exemplo disso, foi o que ocorreu na Inglaterra, quando as estruturas de uma igreja foram alteradas por ato do rei Henrique VIII, que teve como motivação o fato de o Papa à época, Clemente VI, negar a concessão de um divórcio por ele pleiteado. E dessa forma surgiu a igreja britânica ou anglicana.

Mas as modificações aplicadas as estruturas e concepção da igreja católica ocorreram também em outras regiões da Europa, levadas a efeito por parte de clérigos e pessoas contrárias a certas práticas e dogmas praticados até então. Neste contexto, surgiram as igrejas Luterana e a Calvinista. Uma das razões da indignação de Martinho Lutero, por exemplo, abateu-se contra a venda do perdão divino, as chamadas indulgências. As ações tiveram efeito, criando-se o que até hoje denominamos de Reforma Protestante.

Por muitos anos, os brasileiros que não se submetiam aos dogmas católicos, mas buscavam outras igrejas – dentre as várias não católicas –, eram denominados de protestantes. Nos ritos praticados dentro dessas igrejas, diferentemente da católica, busca-se divulgar as chamadas escrituras sagradas, a bíblia ou o evangelho, com a leitura direta por parte de seus membros. Resulta daí o que hoje denominamos de evangélicos.

Tanto sob a ótica católica, evangélica ou protestante, certo é que em todas prevalece até a atualidade, os princípios de um patriarcado obsoleto. Uma das consequências disso, é a luta das mulheres por participação ativa na sociedade e na própria igreja ao longo da história. Por muito tempo, as mulheres foram impedidas de ter acesso a seus direitos em razão da concepção ou equivocada interpretação religiosa das ditas sagradas escrituras, onde consta, por exemplo, que as mesmas devem submissão incondicional a seus maridos, e assim, portanto, aos homens.

No Brasil, assistimos hoje a uma polarização de pseudoideologias, uma vez que, em verdade o que se defende, como sempre, são interesses de grupos políticos movidos pelo sentimento único de poder, majoritariamente, o econômico. Mas também se sobressai – tendo em vista a formação do atual governo – a tentativa de imposição de dogmas religiosos por parte de grupos, que buscam o retrocesso, mesmo após anos de lutas e conquistas sociais, seja, através de manifestações, atos ordinatórios ou mediante políticas sociais.

A fé ou credulidade tem sido utilizada para impor a vontade de uns poucos – como nos mostra a história já citada – pela força ou via manipulação de pessoas que, geralmente, em momentos de dificuldades das mais variadas espécies ou situações adversas, buscam amparo onde entendem, naquele momento, ser a saída ou a única alternativa que lhes resta.

A atual constituição federal, impõe a todos um estado laico e também assegura a liberdade e a inviolabilidade de consciência e de crença. O livre exercício dos cultos religiosos é garantido, na forma da lei, bem como a proteção aos locais de suas ocorrências litúrgicas.

A fé e o direito à liberdade religiosa são assegurados a todos e assim deve ser, independentemente, de qual seja a linha religiosa ou até mesmo a sua inexistência. Assim, não é permitido que crenças ou princípios de alguns indivíduos ou grupos se sobreponham ou sejam impostos a toda a população, pois, do contrário o preceito constitucional citado anteriormente se mostrará violado. Este tipo de prática desrespeitosa e ditatória contra a independência religiosa deve ser rechaçada, principalmente, por parte do Estado, que tem o dever de garantir o cumprimento da lei de forma clara e abrangente. O uso ou a imposição da fé ou de uma religião específica por parte do Estado, nos leva a exemplos tristes no mundo, como o que ocorre no Irã e em outros países do Oriente Médio. Isso só para citar alguns. Muitas vezes, em lugares onde atitudes como essa prevalecem, partes de escritos religiosos ou mais precisamente, as interpretações convenientes das mesmas são utilizadas para manter, impor e justificar atos e ideias de quem está no poder.

*Menildo Jesus de Sousa Freitas, contador, professor da Faculdade Milton Campos, mestre em ciências contábeis, membro da Academia Mineira de Ciências Contábeis e perito contador do Ministério Público da União

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