A pequena ponte

A pequena ponte

Janice Vargas de Carvalho Linhares*

11 de novembro de 2020 | 07h30

Quando tropecei nesta fotomontagem nas redes sociais (criação de @briagoeller em parceria com @goodtrubble, link https://wtfamerica2017.com/), fiquei intrigada: já havia visto a emblemática cena da pequena Ruby sendo escoltada por agentes federais para que acessasse em segurança a escola “all white” na qual seus pais a matricularam seis anos após a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de proibir a segregação racial nas unidades de ensino (Brown vs Board), logo ali no dia 14 de novembro de 1960 (sim, inacreditavelmente bem pertinho desse pedaço de tempo em que vivemos). Mas agora, essa artística composição de imagens, inspirada na obra de Norman Rockell, fez-me ir além da visão; hoje, vendo a imagem dessa perspectiva, coloquei reparo.

Colocar reparo é mais do que ver; colocar reparo é enxergar com olhos de costureira, que repara aquele pesponto torto, fora do lugar, imperceptível à vista daqueles que desconhecem a ciência de unir tecidos e retalhos e ir costurando pacientemente os momentos aos destinos. E quando coloquei reparo quase toquei a cena: senti o seu pulsar inflamado, senti o hálito quente e mal cheiroso das bocas que vociferavam seus gritos raivosos em cima de Ruby. A saliva engrossada pelo ódio da discriminação, pelo olhar acostumado aos anos de uma irracional segregação pela cor da pele que criara a ilusória e destrutiva divisão de seres que possuem uma única e idêntica classificação: humanos.

Todos os dias, Ruby caminhava firmemente rumo à sala de aula, esvaziada pela ignorância de pais que retiraram maciçamente seus filhos da escola William Frantz, sediada no Estado de Louisiana (afinal, a ignorância nunca acrescenta, só subtrai).

Durante um ano, ela foi a solitária ouvinte das explicações de sua ousada Professora, Bárbara Henry, a única preceptora que se dispôs a descortinar o mundo do saber àquela menina que desafiava costumes tão obtusos, mesmo sem saber. A jovem educadora foi régua e compasso, transformou-se em instrumento efetivo na construção de uma sociedade que já não tolerava a expressão “iguais, porém separados”, pois a igualdade é flor que viceja somente nos campos da unidade, que deve ser colhida em veredas abertas, não entre muros e cercas.

A escolta dos agentes retratados na imagem foi necessária para resguardar a integridade daquela “perigosa” menininha de 06 anos, que com uma coragem inabalável acabaria pavimentando uma estrada para muitas outras crianças, meninos e meninas, sonharem ser o que quisessem, com total liberdade de escolherem os seus lugares.

Curiosamente, o sobrenome de Ruby – Bridge – significa “ponte”, na língua inglesa. E o nome da primeira mulher vice-presidente dos Estados Unidos, negra e filha de imigrantes, refletida na sombra de Ruby na ilustração, Kamala, provém do havaiano, e quer dizer “fruto doce”.

Mal sabia a brilhante Ruby que seria a ponte a conduzir gerações rumo à colheita de pomos saborosos.

*Janice Vargas de Carvalho Linhares, servidora pública federal

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