A penumbra dos iletrados

A penumbra dos iletrados

José Renato Nalini*

11 de setembro de 2020 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O descaso com que a educação foi tratada no Brasil nas últimas décadas tem consequências que a estupidez não consegue vislumbrar. O sucateamento de atividades competitivas no mercado é apenas um dos traços da falta de qualificação profissional. Mas a mácula insuperável é a perda generalizada de condições de enxergar a realidade. O iletrado talvez consiga escrever o nome. Soletra as frases e logo se desinteressa quando o texto se encontra além de sua reduzida capacidade de compreensão. Com isso, nunca terá a capacidade de fazer uma leitura coerente do que se passa no seu País.

Dir-se-á que para isso existem os jornais. O jornal físico é cada vez menos lido. Os fieis assinantes não escondem sua indignação quando se deparam com páginas e páginas dedicadas à promoção de automóveis. O veículo mais egoísta e poluidor da face da Terra, que os idosos que ainda gostam de ler as notícias em papel não comprarão. E cuja publicidade inútil ainda contribui para extrair ao ambiente as árvores que restam.

O foco hoje tem de ser nas redes sociais. Estas alcançam a todos e a juventude, principalmente, assimila as suas mensagens. A leitura dos blogs é sempre superior à do jornal tradicional, cujas tiragens são gradualmente reduzidas. É por isso que a repercussão de um texto neste blog é tão consistente e tangível.

Mas falta ao brasileiro o hábito da leitura. Consumíssemos mais livros e teríamos outra perspectiva do cenário global e de nossa posição na complexa quadra histórica.

É por isso que o nicho lúcido dos Estados Unidos leva tão a sério as eleições presidenciais. Os letrados ianques são abastecidos por uma produção livreira que alcança recordes de venda, assim que a obra é lançada. Não é por acaso que a expressão bestseller é americana.

Para se munirem de convicção alicerçada, dispõem, por exemplo, de livros como “A morte da verdade”, de Michiko Kakutani, “Como a Democracia chegou ao fim”, de David Runciman, o campeão “Os Engenheiros do Caos”, de Giuliano Da Empoli, “Rage” (Raiva) de Bob Woodward, “Disloyal: a memoir” (Desleal: uma memória), de Michael Cohen, “Compromised: Counterintelligence and the Threat of Donald J.Trump” (Comprometido: contra:inteligência e ameaça de Donald J.Trump), “The Useful Idiot How Donald Trump Killed the Republican Party with Racism and the Resto f Us with Coronavirus” (O Idiota útil: como Donald Trump matou o Partido Republicano com racismo e o resto de nós com coronavírus”, dentre outros títulos recentes.

Cada novo lançamento obtém venda inicial superior a cem mil exemplares! Ou seja: mais de trezentas mil pessoas conseguem tomar contato com a versão contida em cada livro.

A lista das publicações é muito superior à enunciação meramente ilustrativa do que existe num país em que a leitura é um costume tradicional, mantido após o advento das tecnologias da Quarta Revolução Industrial e em espantoso ritmo de crescimento.

Nos Estados Unidos a população dos nativos digitais predomina e ali, o uso da web é praticamente universal, pois chega a 98% da população jovem. 90% deles se servem diuturnamente das redes sociais. 77% têm smartphones, sem prejuízo de também possuírem um tablet – 38%. O livro eletrônico é um hábito para 24% dos moços.

Isso não significa deixem de ler livros em papel. Os índices dos americanos deveriam nos fazer corar de vergonha: 43% dos jovens afirmam ter lido um livro diariamente. Melhor ainda: os americanos com menos de 30 anos frequentam bibliotecas e acessam seus sites. A visita convencional ou virtual a uma biblioteca aumenta quando os jovens procuram nova ocupação ou enfrentam questões comuns à vida humana, como casamento, enfermidade, perda de um ser querido ou divórcio.

Outro hábito comum é o aluguel de livros, pois o desapego é outra tendência das novas gerações. Não curtem o costume de “colecionar” e de guardar exemplares que, uma vez lidos, nunca mais serão tocados.

Os jovens pais encontram na leitura as respostas para os assuntos da paternidade. Acreditam nas teorias pedagógicas, consultam os teóricos da psicologia infantil, temas da psicanálise e da psicoterapia. Outro costume arraigado é encontrar nas bibliotecas informações mais precisas sobre os hobbies em voga: formação de hortas, jardinagem, observação da fauna, proteção da natureza, sem falar na prática de esportes e no aprendizado de uso de instrumentos musicais.

Enfim, enquanto o americano tem por si uma quantidade imensa de luz, contida em livros para todos os gostos, o brasileiro em geral permanece numa penumbra espessa, que impede formar uma convicção e ter alguma certeza possível em relação aos graves desafios impostos à sociedade nesta era. Como sempre na contramão, o Brasil tenta colocar mais um obstáculo à leitura, onerando a edição de livros.

Acelera a rota rumo à escuridão completa, exatamente o inverso da claridade pela qual a educação formal e informal, em todos os níveis, não cessa de clamar.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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