A ‘parentela’ do deputado Hugo Motta na mira do MPF

Ministério Público Federal da Paraíba aponta para organização criminosa formada por integrantes da família do ex-presidente da CPI da Petrobras e um dos principais aliados do deputado cassado Eduardo Cunha

Fabio Serapião, de Brasília e Julia Affonso

18 de setembro de 2016 | 21h25

Patos é o terceiro maior município da Paraíba, fora da região metropolitana da capital João Pessoa, e possui um orçamento anual de cerca de R$ 200 milhões. Com pouco mais de 100 mil habitantes, a Rainha do Sertão, como é conhecida, está há mais de 40 anos sob o domínio político da família Motta e de seus aliados. O grupo de poder, cujo principal representante hoje é o deputado federal Hugo Motta (PMDB), ex-presidente da CPI da Petrobras e um dos principais aliados do deputado cassado Eduardo Cunha, encaminhava-se para mais um vitória nas urnas, nas próximas eleições municipais, não fosse duas operações de combate a desvio de dinheiro público patrocinadas pelo Ministério Público Federal – a Desumanidade e a Veiculação.

Além de apontar a malversação do dinheiro público, as investigações expuseram como o antigo coronelismo nordestino deu espaço às chamadas “parentelas” que dominam o poder público. O cientista político e professor da Universidade Federal da Paraíba, José Henrique Artigas de Godoy, explica que após o declínio do coronelismo, a partir da Era Vargas, houve uma manutenção de formas de domínio político por meio de associações de famílias, que não precisam ter vínculo genético, mas que são coligadas por alianças de afinidades. Esse conjunto de famílias se mantêm no poder em troca de favores e lealdade e estruturam-se como grupo político.  Atualmente, esse grupo recebem o nome de parentelas.

“Os principais políticos da Paraíba se organizam em torno de parentelas: temos os Cunha Lima, os Lucena, a família Vital do Rêgo e os Motta. É um conjunto de parentelas que se distribuem pelo estado e dominam boa parte do aparato público estatal”, explica Artigas Godoy. Segundo ele, quando a política passa ser feita conforme o interesse da família, prepondera o uso privado da coisa pública e gera uma degeneração administrativa e a corrupção nos órgãos públicos. Parece ter sido isso que MPF descobriu com suas investigações.

Enquanto a Desumanidade mapeou fraudes nas licitações e na construção de Unidades Básicas de Saúde (UBS), a Veiculação investiga desvios praticados na locação de veículos. Estão na mira contratações nas cidades de Patos, Emas e São José das Espinharas, todas localizadas no Vale das Espinharas, entrada do sertão da Paraíba, e comandadas por políticos ligados à família Motta. Nos dois casos, aponta o MPF, os valores desviados beneficiaram agentes públicos, entre eles, a mãe, a avó, o padrasto e o cunhado de Hugo Motta.

Embora não tenha sido citado nas primeiras fases dessas investigações, por possuir foro privilegiado, o próprio deputado federal entrou na mira dos investigadores após um empresário envolvido nos desvios nas orbas das UBSs apresentar uma proposta de acordo de colaboração premiada na qual aponta que 20% dos valores arrecadados nos desvios investigados  eram destinados a ele. As emendas parlamentares que custearam as obras da UBSs foram destinadas por Motta. Por sua vez, no caso investigado pela Veiculação,  a empresa contratada, segundo o MPF de forma fraudulenta, para locação de veículos tem como sócio o proprietário de outra empresa já contratada pelo deputado com verbas do seu gabinete.

Deputado mais novo da Câmara Federal, o peemedebista de 27 anos é terceira geração de políticos da família Motta. Seu avô, Edivaldo Motta, foi o patriarca da família e responsável por iniciar o domínio político da família na região de Patos. Edivaldo elegeu-se deputado estadual em 1967 e permaneceu na assembleia legislativa paraibana por cinco mandatos. De lá, Edivaldo seguiu para a Câmara dos Deputados após ser eleito deputado federal em 1987. Entretanto, a carreira política do avô de Hugo Motta foi interrompida precocemente, em 1992, após uma parada cardíaca sofrida durante uma prova de Vaquejada – modalidade típica da região nordeste.

A tragédia na família empurrou a avó de Hugo para a política. Ainda em 1992, Francisca Motta elegeu-se vice-prefeita de Patos. Dois anos depois, renunciou ao cargo e disputou uma vaga na mesma Assembleia Legislativa em que o marido havia sido deputado. Foi eleita com 16.800 votos e reeleita outras quatro vezes até que, em 2012, ganhou a disputa pela prefeiturade Patos, sucedendo seu então genro e pai de Hugo Motta, Nabor Wanderley da Nóbrega Filho.

Chica Motta, como é conhecida a avó de Hugo, foi levada coercitivamente para depor pela operação Veiculação. Segundo o MPF, ao lado dos prefeitos Renê Caroca, de São José das Espinharas, e José Willian Segundo Madruga, de Emas, Chica Mota capitaneava “o núcleo público da empreitada criminosa” que fraudou licitações para locação de veículos nas prefeituras. Outra integrante desse núcleo, segundo os investigadores, é a mãe do deputado, Illana Motta, que foi presa preventivamente.

Os outros dois prefeitos investigados e presos pelo MPF também são integrantes da parentela dos Motta. Segundo Madruga, prefeito de Emas, é ex-marido da Olívia Motta, irmã de Hugo, e investigado tanto na Desumanidade como na Veiculação. No caso dos desvios em obras de UBSs, o MPF aponta que Segundo Madruga, à época marido de Olívia, era o destinatário final dos recursos públicos desviados. Por sua vez, Rene Caroca, prefeito de São José das Espinharas, é o atual marido da mãe de Hugo Motta, a ex-chefe de gabinete de Patos, Illana Motta. Os dois foram presos na Veiculação.

Embora as investigações do MPF tenham complicado a vida da parentela dos Motta, foi a decisão do juiz José Milton Barros de Araújo, da 28ª Zona Eleitoral da Paraíba, que pode dar o principal golpe nas pretensões políticas do grupo. Em decisão no dia 9 de setembro, o juiz impugnou a candidatura de Nabor Wanderley, pai de Hugo Motta, à Prefeitura de Patos. Caso não consiga reverter a decisão, será a primeira vez em quatro décadas que os Motta e seus aliados não estarão no poder no sertão da Paraíba.

O advogado Solon Benevides, que representa os integrantes da família Motta, afirmou ao Estado que os fatos não podem ser objeto de análise pública porque estão sob sigilo. Segundo ele, a prefeita Chica Motta mandou abrir uma sindicância para apurar as possíveis irregularidades. “No curso da instrução vamos provar que as acusações não tem procedência”, afirmou Benevides. O Estado não consegui contato com a defesa de Rene Caroca e José Willian Segundo Madruga. (Colaborou Fabio Fabrini)

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