A pandemia expõe nossa maior fragilidade

A pandemia expõe nossa maior fragilidade

Jeanfrank Teodoro Dantas Sartori*

25 de dezembro de 2020 | 08h30

Jeanfrank Teodoro Dantas Sartori. FOTO: DIVULGAÇÃO

Estamos acostumados a nos vangloriarmos das capacidades cognitivas que nos são únicas, ao menos neste planeta, mas não é somente essa característica que nos coloca em destaque na biodiversidade e há, ao menos, uma má notícia: temos também uma grande fragilidade, agora ainda mais exposta pela atual pandemia da Covid-19.

Primeiramente, é necessário considerar o fator populacional. Desde 2011, somos mais de sete bilhões de Homo sapiens, a segunda espécie mais abundante do planeta no critério de biomassa total (somamos mais de 350 milhões de toneladas), atrás apenas do gado (Bos taurus, 450 milhões de toneladas) quando desconsideradas as bactérias (cerca de 1 trilhão de toneladas) que normalmente não são subdivididas pelos critérios de espécie. E estamos espalhados em todos os continentes, enquanto as demais espécies costumam ter uma presença mais regional ou continental.

Além disso, dispomos de recursos de mobilidade sem equivalentes no mundo natural. Se não temos asas como as aves, nem a capacidade de respiração aquática e de nado dos animais marinhos como as baleias, que se deslocam por milhares de quilômetros, contamos com aviões, navios, submarinos, helicópteros, trens, carros, ônibus etc. Com velocidade e acessibilidade cada vez maiores, um indivíduo pode circular entre vários continentes em poucos dias, por vezes poucas horas.

Precisamos, ainda, levar em consideração a grande concentração das cidades. Outras espécies também produzem colônias, no sentido zoológico do termo (grupo de organismos que vive e interage de maneira fisicamente próxima), em especial os insetos sociais, como as formigas e as abelhas. Todavia, a infraestrutura que criamos – do transporte de alimentos à refrigeração, do saneamento básico aos hospitais – nos proporcionou cidades como Tóquio que, com sua região metropolitana, possui quase 40 milhões de habitantes. Para uma referência mais clara, somando-se a população das dez maiores metrópoles do mundo, tem-se um resultado que é maior do que todos os habitantes do Brasil (5.° país mais populoso do mundo), com seus quase 6 mil municípios.

Mas o que todos esses aspectos – e poderíamos listar muitos outros, como por exemplo a degradação que causamos ao meio-ambiente – têm de relevante? Em poucas palavras, eles nos fazem o hospedeiro perfeito para qualquer patógeno, seja em capacidade de transmissão ou em volume potencial de infectados. Se tem algo que o processo elucidado pela Teoria da Evolução nos demonstra claramente, é que a natureza sabe muito bem aproveitar essas oportunidades.

A consequência disso pode ser uma crise da sociedade global e um retorno, em pleno terceiro milênio, àlguma semelhança dos tempos feudais? Talvez sim, no sentido de uma progressiva fuga dos grandes centros urbanos para as pequenas cidades ou até mesmo para as áreas rurais, em busca de um distanciamento da ameaça sanitária. Curiosa e ironicamente, se a Peste Negra do século XIV, pela falta de mão de obra e piora das condições de vida dos sobreviventes, foi um dos fatores que levaram o feudalismo à sua crise, hoje podem ser opostos os efeitos das pandemias na humanidade.

E, com o uso das tecnologias no trabalho em home office e na educação a distância, há evidências de que os primeiros passos já foram dados, pois se o escritório e a instituição de ensino agora funcionam em casa, a distância geográfica deixou de ser relevante em parcela significativa dos casos e, portanto, não demorará a surgir o natural questionamento sobre a necessidade de se enfrentar aglomerações, barulho, poluição, trânsito, longos deslocamentos e outros prejuízos da vida nas grades cidades.

É possível, ainda, que o trânsito de pessoas seja, ao menos em parte, substituído pelo de bens e nisso a indústria 4.0 e suas tecnologias, especialmente os veículos autônomos, os drones e a internet das coisas (uso intenso da rede por dispositivos eletrônicos sem participação humana) podem exercer um papel central. Já percebemos uma modesta amostra nas compras on-line, que apresentaram um grande crescimento durante a atual crise sanitária e atingiram setores que ainda resistiam ao mercado digital. Caminha-se para o que possa ser um maior e mais permanente isolamento físico, mas com interação digital e global, talvez até implicando – em última instância – em uma parcial recuperação de um papel mais central do núcleo familiar na vida das pessoas, ainda que reformulado em muitos de seus aspectos.

Apesar da incerteza quanto à consumação desses cenários no futuro, há notícias a serem comemoradas no presente. A atual pandemia mostrou, ao menos em algum grau, certa celeridade no desenvolvimento de opções de vacinas. Obviamente não foi tão rápido quanto todos gostaríamos – ainda mais em uma sociedade cada vez mais acostumada ao imediatismo –, mas certamente foi expressivamente rápido nos padrões científicos: cerca de 11 meses, antes era raríssimo ocorrer em menos de cinco anos.

Por outro lado, há limites no quanto esse prazo poderia ser encurtado ainda mais no futuro, principalmente se novas doenças migrarem para nós em intervalos progressivamente mais curtos como é, infelizmente, um prognóstico bastante provável. Além disso, a predominância de uma abordagem mais concorrencial e menos cooperativa, na qual laboratórios permaneceram em uma disputa comercial por um pedido de bilhões de doses – inclusive com denúncias de espionagem e invasões de hackers – ao invés de um esforço conjunto pela sobrevivência da espécie, pode ser um obstáculo importante a ser superado no futuro, especialmente nesse processo de desenvolvimento de vacinas e medicamentos em contextos de urgência.

*Jeanfrank T. D. Sartori, doutorando, é mestre em Gestão da Informação pela UFPR, especialista em Business Intelligence pela Universidade Positivo e bacharel em Administração pela UFPR. Atua como consultor nas áreas de TI e análise de dados

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