A pandemia e os pacientes reumáticos

A pandemia e os pacientes reumáticos

Ricardo Machado Xavier*

30 de novembro de 2020 | 13h40

Ricardo Machado Xavier. FOTO: DIVULGAÇÃO

Ao longo da pandemia, a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) vem realizando uma série de ações para orientar os 15 milhões de pacientes de doenças reumáticas no Brasil durante este momento desafiador. Como parte desse grupo faz uso de medicamentos imunossupressores ou imunobiológicos, muitos portadores dessas enfermidades podem ter  potencialmente maior predisposição para apresentar a Covid-19 e precisam se prevenir.

Além de conduzir campanha educativa em seu portal e redes sociais, por meio de vídeos e banners, para esclarecer as dúvidas dos pacientes, a SBR também lançou um alerta à população para não ter receio de procurar ajuda médica quando do surgimento de um problema de saúde, tendo em vista que a demora nesta busca pode contribuir para o aumento de piora do quadro geral de saúde. O paciente também não deve interromper, por conta própria, o tratamento já prescrito, ou iniciar outra medicação, sem orientação  médica.

É importante lembrar que por doenças reumáticas entende-se um grupo de mais de 120 enfermidades que afetam o sistema músculo esquelético do corpo humano.  Este conjunto de patologias representa uma das principais causas de afastamento do trabalho. Boa parte delas começa a se manifestar por volta dos 35 a 40 anos.  O  diagnóstico precoce é fundamental para o início do tratamento adequado.

Paralelamente às iniciativas junto ao público, a SBR vem dando seu apoio a estudos que investigam a relação entre Covid-19 e pacientes reumáticos sob diferentes ângulos, cumprindo assim sua missão de promover a atualização científica, ensino e pesquisa. Durante o 37º Congresso Brasileiro de Reumatologia, que terminou no último dia 22,  pesquisas mostraram o impacto da crise sanitária no atendimento médico e investigaram o possível e contraditório efeito protetor da hidroxicloroquina contra a infecção do SARS-CoV-2 em pessoas com doenças reumáticas imunomediadas que fazem uso contínuo do medicamento.

A  pesquisa ConVida avaliou os reflexos da pandemia sobre o atendimento médico dos pacientes com doenças reumáticas. Os pesquisadores entrevistaram de forma virtual, em junho passado, 1.793 pessoas, quando coletaram dados sociodemográficos, a doença reumática do entrevistado, acesso aos serviços de saúde e relato pessoal sobre os sintomas da covid-19.

O estudo revelou que, por medo da pandemia, 32% dos pacientes com doenças reumáticas não buscaram ajuda médica mesmo 29% tendo apresentado piora dos sintomas.  Do total de entrevistados, 17% pararam de tomar pelo menos um medicamento, dos quais 35% por conta própria. O motivo alegado para a suspensão está relacionado ao medo e risco de desfecho desfavorável.

Este estudo mostrou relevante impacto da pandemia Covid-19 na atenção à saúde de pacientes reumáticos no Brasil, principalmente em relação às incertezas. Do total de entrevistados, 88% são mulheres. Do universo pesquisado, 3% relataram que contraíram a Covid-19.

Apesar dos percalços, 68% dos pacientes tiveram suporte médico, sendo 30% por telefone, 24% por consulta presencial e 14% pelas redes sociais. Os dados sugerem que a atividade da doença não foi prejudicada pela pandemia: 63% dos pacientes disseram que os sintomas não se alteraram e 8% que melhoraram.

Já o estudo Mário Pinotti I demonstrou que a hidroxicloroquina não teve nenhum efeito protetor contra a infecção provocada pelo a infecção pelo SARS-CoV-2, mesmo em pacientes reumáticos que usam o medicamento há muitos anos. O trabalho englobou 20 centros universitários brasileiros de nove estados e do Distrito Federal.

O estudo envolveu 9.589 pessoas de 97 cidades brasileiras, dos quais 5.166 (53,9%) pacientes com doenças reumáticas que faziam uso de hidroxicloroquina e 4.423 (46,1%) de contactantes. A fase de entrevistas foi realizada entre 29 de março a  17 de maio de 2020.  Dos participantes, 169 pacientes reumáticos que fazem uso  crônico de hidroxicloriquina tiveram covid-19, o equivalente a 4,03% do universo pesquisado. Entre os contactantes, a proporção de infectados foi de 3,25%, o que representou 124 pessoas

O projeto recebeu este nome em homenagem a Mario Pinotti, médico sanitarista e estudioso da cloroquina para o tratamento da malária, uso original da substância. Os antimaláricos, como a hidroxicloroquina, são administradas, de forma regular, em pacientes com lúpus, artrite reumatoide, dermatomiosite e Síndrome de Sjogren.

Esses estudos ajudam a elucidar algumas questões envolvendo os pacientes reumáticos e a Covid-19. Chamamos a atenção ao estudo ConVida porque demonstra como o temor da contaminação pelo coronavírus levou as pessoas a se distanciarem de seus médicos. E, num momento como o atual, este movimento deveria ocorrer de forma contrária, porque só cuidando da saúde é que os pacientes sairão da pandemia mais fortalecidos.  E não esquecer de usar máscara, lavar as mãos com frequência e praticar a distância de 1,5 metro a 2 metros do seu interlocutor e, em caso de dúvida, falar com seu médico.

*Ricardo Machado Xavier, professor Titular da Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia

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