A pandemia e a urgente primazia do bem comum 

A pandemia e a urgente primazia do bem comum 

Jelson Oliveira*

19 de agosto de 2020 | 08h30

Jelson Oliveira. FOTO: DIVULGAÇÃO

Uma das bases de todo e qualquer pacto ou contrato social é o fato de que a sociedade humana está baseada em um acordo de associação, ou seja, em uma opção voluntária, na qual cada indivíduo deve abrir mão de seu próprio interesse em vista do bem comum. Na prática, trocamos um pouco do prazer individual por uma porção de segurança, que é a conquista mais importante da vida social. É como se vivêssemos num constante cabo de guerra entre o que queremos e o que devemos fazer. Encontrar o equilíbrio entre esses dois opostos, cuja tensão nunca arrefece, é o desafio de todo dia.

Obviamente, nenhuma sociedade poderia ser construída apenas sobre o desejo, os interesses e os gostos individuais. A equação é simples: se fazemos só o que é bom para nós, perdemos a parcela daquilo que é bom para todos (ou seja, inclusive para nós) e que só pode ser construído na medida em que os indivíduos sejam capazes de acreditar e investir nos pactos sociais. Por isso, poderíamos reconhecer a maturidade de um indivíduo pela sua capacidade de viver em comunidade segundo esse princípio, que deve ser voluntário, nascido de um reconhecimento da utilidade social das normas e leis, criadas para orientar a vida em sociedade. Obedecer a tais normas é, quase sempre, realizar a permuta entre aqueles opostos: o que eu quero e o que eu devo. Isso não significa que devamos obedecer cegamente a tudo o que nos é imposto, mas que o melhor jeito de alterar normas injustas é lutar, democraticamente, em favor de normas melhores – sempre sob o critério do bem comum.

Agora que é tempo de pandemia, essa tensão aumenta consideravelmente, porque estamos, como nunca, convidados (e, em certa medida e em alguns casos, obrigados) a cumprir determinadas regras que exigem a renúncia dos interesses privados, em nome do bem comum. Somos obrigados ao isolamento, ao fechamento dos negócios, ao uso de máscaras, não podemos andar pelas ruas como bem entendermos, não podemos ir em família ao supermercado, não podemos comemorar nosso aniversário com os amigos e nem fazer exercício na academia por decisão própria. Diante desses impedimentos, muitos indivíduos revoltam-se, ou porque não acreditam na gravidade da doença, porque se sentem protegidos dela ou simplesmente porque não estão dispostos à necessária permuta.

São esses os indivíduos mais perigosos para a sociedade: quanto mais eles resistem a cumprir as normas sanitárias, a compreendê-las e a praticá-las, quanto mais negam a gravidade dos fatos e põem o interesse próprio acima do interesse da comunidade, mais eles colocam em risco a cláusula pétrea sobre a qual a vida social está erguida. O resultado é a calamidade, a desorganização e o caos, cujos prejuízos atingem a todos (inclusive esse indivíduo que se reconhece como intocável ou acima da norma que ele descumpre, quase sempre com a espuma da ignorância lhe babujando no canto da boca).

Aprendemos com o filósofo genebrino Jean-Jacques Rousseau que as normas traduzem não apenas um interdito, mas algo que representa plenamente os interesses mesmos do indivíduo, ou seja, quando obedeço as normas sociais, não estou simplesmente obedecendo a alguma força exterior a mim mesmo, mas obedeço àquilo que já está inscrito no meu coração, a um desejo interno de viver de forma pacífica na sociedade. Para Rousseau, quem sofre para cumprir as normas que têm em vista a proteção de todos, é porque está muito pervertido, ou seja, distanciou-se consideravelmente de sua própria essência, a qual não era outra coisa senão o cuidado, a benevolência e o amor para com os demais – sentimentos que estão entre os mais importantes para que a sociedade siga harmônica e cumpra com seus objetivos de pacificar e promover a vida e a dignidade de todos os seus membros.

Agora que as atitudes individuais são tão necessárias e que cada um de nós é convidado a tomar todas as providências para não espalhar a Covid-19, é imprescindível retomarmos tais fundamentos éticos e políticos, para que nossa liberdade não seja contraposta ao bem comum, mas, ao contrário, que seja um dos seus fundamentos. Afinal, a vida de todos (inclusive a minha e a sua) depende do esforço, da privação e do desprendimento de cada um de nós. O egoísmo precisa, sempre de novo, dar vez ao altruísmo. Para o bem de todos. Para o bem comum.

*Jelson Oliveira é filósofo, professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR)

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