A pandemia e a gastronomia!

A pandemia e a gastronomia!

Luiz Rodrigues Wambier*

25 de julho de 2020 | 08h00

Luiz Rodrigues Wambier. FOTO: DIVULGAÇÃO

E o isolamento prossegue, responsavelmente, apesar de muitos líderes comportarem-se como baratas tontas, mais desorientando do que organizando a sociedade para o enfrentamento da pandemia causada pelo coronavírus. 

Nosso casal amigo (sim, já somos amigos do casal) está no seu apartamento de classe média, tomando todos os cuidados sanitários possíveis e, claro, cuidando da filha e do filho, de seus compromissos escolares, de sua saúde física e emocional e, também, trabalhando bastante. 

Aliás, a respeito do trabalho, um e outro já estão plenamente convencidos de que a novidade a que foram compulsoriamente submetidos, o tal do homeoffice, é “uma boa”, nas palavras dele, com as quais ela concorda inteiramente.

O lamento comum é o mesmo de quem vê a coisa com responsabilidade, inclusive social: lamentam por aqueles que não podem, por razões de diferentes origens, fazer o mesmo. Em suas conversas, especialmente nos bons papos de sexta-feira à noite, sempre regadas a um bom vinho tinto português (é a preferência de ambos, já sabemos), os dois conversam sobre muitas situações difíceis. Falam, por exemplo, dos que não podem manter o isolamento em razão do tipo de trabalho a que se dedicam. Ela lembra do primo Dr. Luiz, médico intensivista que mora no interior e que está na “linha de frente dessa guerra maluca” (palavras dela). E ele lembra de muitos, como os motoristas de ônibus, os trabalhadores no setor de saúde e tantos outros. E lamentam muito essas dificuldades.

Também lembram dos negacionistas, aqueles que acham que a pandemia é uma invenção da imprensa ou de alguém com dose cavalar de má-fé, além de uma incrível capacidade de convencimento de muitos milhões de pessoas em todo o mundo. E lembram daqueles que, ainda que queiram se resguardar e proteger os seus, até porque não trabalham em atividades essenciais, não podem dizer não à também evidente necessidade de que a economia gire. 

Ele, depois da segunda taça do tal bom tinto, pergunta, como se pensasse em voz alta: “será que aqueles bacanas das carreatas pela abertura da economia estão também trabalhando?”. E ela, sem responder, indaga: “num balanço de valores, retomada da economia versus proteção da saúde da sociedade e do próprio sistema de saúde, qual deve prevalecer?”.

Mas, como haviam prometido um ao outro e também aos filhos que a tudo acompanham atentos, com os vivos olhinhos, de quem ainda é criança mas compreende a situação difícil pela qual passa a família, a cidade, o Estado, o País e o mundo, resolvem mudar de assunto, porque as reiteradas conversas sobre a pandemia e seus múltiplos efeitos estavam tomando a maior parte do espaço de convívio deles todos, gerando mais e mais ansiedade e uma espécie de intoxicação pelo excesso de informações. E, desde a última sexta-feira, tinham prometido um ao outro fazer desse encontro quase solene um momento de leveza, de descontração. 

Os dias, as semanas e os meses têm sido “puxados”, como ele gosta de dizer, e ambos resolveram conceder, um ao outro, assim como aos pirralhos, alguns momentos em que esses temas estivessem ausentes ou, se presentes, que o fosse apenas lateralmente. 

Claro, pensam eles, nossa situação é muito privilegiada. Muitos, e nem é necessário olhar para muito longe, sequer têm o que comer. Estes mesmos e muitos outros sofrem com os efeitos perversos da pandemia sobre a vida econômica. Empregos perdidos, empresas destroçadas, expectativas arrasadas, essa tem sido a cruel tônica em muitos setores. Lembraram de algumas iniciativas, de alguns amigos e colegas de trabalho, que desde o início da crise gerada pela pandemia têm procurado reunir doações de cestas básicas, entre outras, para engrossar a generosa fila dos que vivem sua vida mas se preocupam e envolvem efetivamente na dos outros, daqueles que, ainda que momentaneamente, necessitam de algum tipo de auxílio. Aliás, falaram também dos discursadores, que discutem os problemas com a eloquência de quem tem a solução para resolvê-los e vai fazer isso mesmo, mas que, no frigir dos ovos, só tagarelam, só polemizam, só ideologizam as questões, sem qualquer ação concreta, “sem tirar a região glútea da cadeira”, como costuma dizer um ácido amigo do casal. 

Mas, reflexões à parte, resolvem voltar para seu momento de descontração e falar das aventuras de ambos na cozinha. “Você lembra daquela pizza que você queimou?” diz ela, rindo muito. 

Ela sabe muito da arte de cozinhar. Ele, nada. Se tentar fritar um ovo, confessa, queima a frigideira e estraga o pobre do ovo. Coisas da vida, diz ele, pois nunca teve a necessidade de aprender a cozinhar. 

Mas, agora, nessa incrível fase de isolamento, difícil para muitos, dura para todos, o trabalho na cozinha foi dividido. Claro que na infância, o exemplo do pai, dizendo que os trabalhos domésticos deveriam ser divididos entre ambos, pai e mãe, foi fundamental para que ele aprendesse a lavar louça (no capricho, como dizem alguns), limpar o chão e, enfim, fazer aquilo que é necessário para manter o ambiente doméstico em boas condições.

Acontece que cozinhar, em sentido estrito, não era com ele. Até mesmo a tradicional tapioca sofre em suas desastradas mãos. Ou falta ou sobra, isto é, ou a tapioca fica tão fina que desmancha ao ser dobrada, ou fica grossa e dura, feito pão velho. 

Mas a necessidade é a mãe da criatividade, e nosso amigo resolveu, certo dia, presentear a esposa e filhos com algumas de suas novas habilidades, adquiridas em canais do youtube e em movimentos absolutamente inesperados, empíricos, se é que esse vocábulo serve para descrever aventuras culinárias.

Decidiu preparar uma costela suína. A recomendação de tempero lhe pareceu meio boba: sal, pimenta e especiarias. Que raio de especiarias escolherei? (se perguntava nosso amigo). E, então, resolveu ir além das receitas e improvisou a sua própria fórmula mágica para deixar aquela carne suculenta e, quem sabe, ouvir alguns elogios.

Sal, o do Himalaia, que todos dizem ser menos danoso para o organismo do que o refinado, branquinho, que a gente se acostumou a usar. “Mandou ver” em generosa dose de pimenta, daquelas trazidas de uma das últimas viagens (antes da pandemia) e caprichou no alho moído. Cebola cortada em pequenos pedaços e uns raminhos de alecrim fresco, que havia comprado no armazém que tem delivery de produtos. Um azeite de oliva especial, trazido de Portugal, lá de Fátima, fez aquilo que os entendidos chamam de “cama”, onde nosso querido amigo deitou a costela.

Forno a 250 graus e pimba! Lá foi a costela, generosamente regada, de pouco em pouco tempo, com boas doses daquele já referido azeite de oliva para não secar, ele leu em algum lugar. 

Além disso, caprichou no limão e botou até um pouco de sumo da laranja. Num pacotinho, desses que são vendidos pendurados em gôndolas dos supermercados, ele encontrou alho frito. E colocou também. E ele não contou para ninguém, mas colocou um pouco de cachaça mineira e, pasmem, uma dose de vinho do Porto. 

E não é que ficou boa mesmo? A galera comeu com prazer. Os elogios foram muitos, embora até hoje ele desconfie que foram apenas cortesia, generosidade, coisa de gente do bem que vê o esforço imenso do sujeito e fica com pena de dizer que estava um lixo. Mas ele mesmo, comilão que é, gostou, e gostou muito. 

Mas as aventuras gastronômicas têm sido muitas e muito diversificadas. Experiências são trocadas, desde o início da pandemia, com dois amigos queridos, o Osmar e o Otto, ambos cozinheiros de fazer inveja. O Osmar manda fotos e descreve com riqueza de detalhes suas proezas gastronômicas. Churrasco, para ele, é coisa pouca, embora o faça com maestria. Uma de suas especialidades é comida japonesa. Otto, a seu lado, tem predileção por comida francesa, que conhece e prepara como poucos. 

No apartamento, confinados em razão da pandemia, ele sabe que ela é cozinheira de mão cheia, como diziam os antigos. Faz pratos sofisticados, com muito gosto, com temperos incríveis e faz a festa de todos, marido e filhos. Certo dia ela deixou de lado sua belíssima especialidade, o bacalhau ao Brás, acompanhado de um arroz que ele qualifica como “mortal”, de tão saboroso que é, e se dedicou a fazer outro dos vários risotos com os quais costuma inebriar a todos. Camarão. 

Essa foi a ideia, imediatamente aprovada por todos. Parece simples, mas há muita arte envolvida, desde a escolha do camarão, que deve ser fresco, até o preparo do caldo, que pode ser de legumes ou das próprias cascas do camarão. E ela é prestimosa (palavra em desuso, infelizmente, pensa ela) e tudo que faz é impregnado de muita dose de cuidado, atenção e carinho.

O roteiro é complexo, começa com uma cebola, muito bem picada, que é refogada com azeite e manteiga. A próxima fase contempla o próprio arroz, que também será refogado até ficar seco, momento, em que receberá o sumo de dois limões sicilianos, uma boa dose de vinho branco e, dá-lhe mexer, até esse líquido todo evaporar. Nesse momento entra em ação o supracitado caldo, que é depositado na panela em conchas, para que o arroz não fique pegajoso. E vai caldo, até que se atinja o misterioso ponto. Para finalizar, raspas dos dois limões sicilianos também já referidos e queijo. Ah, o queijo. Deve ser bem ralado e recomenda-se grana padano. 

A panela deve ser tampada para que com o próprio calor o cozimento prossiga, e depois mesa. E divirtam-se, pensa ela, toda orgulhosa de mais esse belo feito gastronômico. 

Certa dúvida houve quanto ao que beber como acompanhamento dessa delícia de prato. Ela argumentou a favor do vinho branco, em razão da presença do camarão. Mas, – ele lamentou a falha -, nosso amigo havia esquecido de comprar uma garrafa de vinho branco. Então, o velho e bom tinto português foi a escolha. E ela gostou. 

Coluna de receitas? Não, apenas um despretensioso relato das aventuras gastronômicas neste período de isolamento, daquele nosso casal de amigos, de classe média.

E ele faz churrasco. Gaba-se um pouco, traço comum a todo piloto de churrasqueira, mas, segundo consta, os tais assados são mesmo merecedores de alguns elogios.

Segundo ele gosta de contar para ela, o segredo, o grande segredo, está na escolha da carne. Se for de boa qualidade, o sucesso da empreitada já tem cinquenta por cento de chance de dar certo. Ele tem escolhido uma cujo marca, se não me falha a memória, é Estância. Picanha, segundo ele, dessa marca, é fantástica, se bem feita, claro.

Dia desses ele se aventurou, apesar do aperto daquele pequeno espaço na sacada do apartamento, que o corretor de imóveis costuma chamar de “espaço gourmet”. 

Comprou a tal Estância, armou-se de sal grosso, grelha, um bom carvão e um pouco de lenha apropriada para esse tipo de espaço, vestiu um vistoso avental, e começou logo cedo a tão esperada (por ele, mais do que pelos outros) empreitada. 

Nosso amigo contou alguns segredos do sucesso. A carne deve ser salgada e deixada por uns poucos minutos ali, naquela tábua que ganhou de um amigo lá do escritório. 

Um gole de cachaça e logo a picanha é solenemente levada à grelha, para que seja selada (foi irresistível e ele lembrou do tempo dos filatelistas e se perguntou: será que ainda existem?). 

Passados uns minutos a peça de carne é virada, com muito cuidado e com o auxílio de uma boa pinça, porque aquele garfão de churrasqueiro, ouviu ele de algum entendido, cutuca e estraga a carne. Na dúvida, pensou ele, vou de pinça. Mais um pouco de tempo, mais um golinho da “marvada” e ele retira a picanha da grelha, com o mesmo apetrecho e com muito cuidado, para que, vejam só, a carne descanse naquela tábua de que falei antes. 

E, de um modo absolutamente empírico, nosso homem médio da classe média calcula que a carne já descansou bastante e a corta em fatias, grossas, generosas, como o povo gosta, com uma boa faca, mas nem tão afiada assim. Salga novamente e leva as fatias ao fogo, por muito pouco tempo, para que conservem o estado de suculência e sejam servidas assim, mal passadas. 

As crianças comem o fruto da façanha do pai acompanhada de suco natural de frutas. 

E aí surge pequena discrepância de gosto (ou será de estilo?) entre ele e ela. Ela trata de buscar no freezer algumas garrafinhas de cerveja que havia colocado lá pouco antes do início da aventura e ele prefere, como sempre o faz, um conhecido: o tinto português. 

Um brinde à vida, à saúde de todos, à possibilidade de, apesar de todas as dificuldades geradas pela pandemia estarem juntos, felizes e comemorando a vida. As lembranças dos que se foram, dos doentes, dos desvalidos, dos que tiveram e terão sequelas, daqueles que sequer têm a possibilidade de fazer (embora desejassem) o isolamento social, perpassam a mente dos dois e também das crianças. E fazem simples, mas profunda oração, pedindo a Deus por todos esses. E seguem a vida!

E se põem a conversar sobre o passado, sobre as viagens que fizeram, sobre os momentos em que reclamavam “de barriga cheia”, pois o voo em direção a uma bela praia do Nordeste brasileiro estava atrasado. E como resmungavam, ambos lembram, com situações banais, passageiras, que poderiam ter sido encaradas com alguma dose de leveza. 

E fazem planos. Como não sabem nada sobre o futuro, que agora, mais do que nunca, lhes parece absolutamente imprevisível, sonham acordados, como imaginam que deva sonhar um bebê. 

*Luiz Rodrigues Wambier é doutor em Direito pela PUC-SP. Professor no programa de mestrado e doutorado em Direito do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP). Sócio do Wambier, Yamasaki, Bevervanço e Lobo Advogados.

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