A pandemia de depressão e suicídio causada pela covid-19

A pandemia de depressão e suicídio causada pela covid-19

Luan Diego Marques e Alisson Marques*

18 de setembro de 2020 | 08h15

Luan Diego Marques e Alisson Marques. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Com o surgimento da pandemia a população mundial foi afetada nos aspectos biológicos, psíquicos e sociais.  A infecção pela covid-19 gerou uma mudança abrupta a rotina de todos nós.

As divergências iniciais no campo científico e manejos governamentais dificultaram a adaptação da população as medidas propostas, além disso, o sentimento inicial de medo ao desconhecido proporcionou alterações importante na saúde mental de todos nós.

Os indivíduos que já lutavam contra a doença mental antes da covid-19 agora enfrentam desafios ainda maiores. Mesmo após a chegada da vacina e manejo dos quadros graves da doença no Brasil estima-se que  muitas cidades enfrentarão uma pandemia de saúde mental que provavelmente continuará por muitos anos.

Historicamente, os aumentos nas taxas de doenças mentais graves geralmente ocorreram após as crises nacionais. Uma resposta natural de sentimentos de ansiedade episódica, medo e desânimo podem ser esperados de maneira situacionais nesse contexto, sem que se configurarem doença.  Entretanto com o processo arrastado da pandemia tem-se gerado impactos adoecedores.

Uma onda das doenças emocionais será impulsionada por intensos sentimentos de ansiedade e desespero em um mundo que não é mais previsível e seguro devido às altas taxas de desemprego e problemas financeiros, juntamente com memórias traumáticas de pessoas que perderam a vida ou que estiveram muito tempo internadas.

O ser humano é um ser de relações e privá-los dessa vivência tem potencial desestruturante no que o constitui. A ansiedade possui como pano de fundo o medo e insegurança. A situação vivida na atual conjuntura é lidar com o desconhecido, imprevisível e incerto.

Com a ansiedade vemos surgir diversos sintomas como coração acelerado, falta de ar, medo, alteração do sono e pensamento ruminantes. Esse transtorno pode atuar como porta de entrada para quadros depressivos, uma vez que o indivíduo ao ver sua vida modificado se entristece, perder prazer com as coisas habituais, sente angústia, exaustão, irritabilidade, tédio e  perda de funcionalidade.

Observa-se também maior probabilidade de ocorrência de distúrbios do sono, abuso de substâncias psicoativas e ideação suicida, bem como agravamento de transtornos mentais preexistentes. A experiência de confinamento tende a trazer consequências e implicações para as relações interpessoais.

As alterações emocionais causadas pela pandemia pode tornar os indivíduos em adoecimento mais vulneráveis ao comportamento suicida.

Diversas pessoas que já estavam em processo de recuperação de episódios depressivos, tiveram regressão no tratamento.

Teremos ainda alguns meses ou anos para sociedade e comunidade científica avaliarem quais os reais impactos da atual pandemia na saúde mental no médio e longo prazo. Além de melhorar o modelo de atenção existente, precisamos repensar as abordagens principais atuais na atenção à saúde mental, a fim de abordar adequadamente os impactos da pandemia na saúde mental.

*Luan Diego Marques, psiquiatra, especialista em Terapia Interpessoal pelo Serviço de Assistência e Pesquisa em Violência e Estresse Pós Traumático (PROVE) ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Professor colaborador da Faculdade de Medicina / UnB

*Alisson Marques, médico formado pela Universidade Católica de Brasília; Residência Médica em Psiquiatria pelo Hospital São Vicente de Paulo – Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Médico do Núcleo de Saúde Mental do SAMU/ Secretaria de Saúde do Distrito Federal

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