A pandemia da vergonha

A pandemia da vergonha

Coronel Eliane Nikoluk*

04 de junho de 2020 | 04h00

Coronel Eliane Nikoluk. FOTO: DIVULGAÇÃO

Há meses, somos bombardeados por um assunto que, por obviedade, se tornou recorrente – a covid-19. Trata-se da maior crise sanitária deste século, sem precedentes e misericórdia, que extrapola fronteiras e produz, dia a dia, milhares de cadáveres e de doentes graves. No Brasil, como em outros lugares do mundo, a pandemia desafia a Ciência, os profissionais da Saúde e a Gestão Pública como nunca se viu na história recente do País, o que justifica a preocupação e a intensidade na busca de soluções e, também, de informação.

É indiscutível a busca por prevenção, pelo jeito certo de usar máscara, por álcool em gel, orientação qualificada, empatia, solidariedade, sol, alimento, dignidade, por liberdade. Há busca por respeito e por segurança – quase um sinônimo para esperança, tão necessária em tempos de instabilidade e de discursos de ódio que realimentam o caos e engajam e patrocinam a erosão das instituições e do poder representativo!

Consciente ou não, a maioria de nós anseia por racionalidade e por orientação que parta de líderes comprometidos quanto às providências adotadas face à problemática. Precisamos de lideranças que nos indiquem caminhos e soluções capazes de credenciar o País a enfrentar o coronavírus por meio de uma gramática de intenções em prol do povo. Penso que, somente assim, testemunhemos menos sofrimento, dor, amadorismo e oportunismo no combate à covid.

Neste momento, precisamos de lideranças que coloquem o interesse público acima de interesses político e pessoal. Lideranças que ofereçam confiança justamente por não lançarem mão de vaidades e que priorizam estratégias e técnicas para o gerenciamento de crises. Necessitamos da segurança sobre o que fazer, como nos comportarmos e como colaborarmos para, ironicamente, nos mantermos vivos.

Necessitamos da garantia de que nossas famílias não serão privadas de sustento, de medicamento e, em caso de necessidade, de tratamento digno. Precisamos do penhor de que o emprego conquistado com tanto trabalho não se torne um doce lembrança da tal “normalidade” que não volta mais!

Não menos importante: almejamos a garantia de que nossa empresa, nosso comércio e nosso escritório não sejam fadados à falência por falta de perspectivas. Precisamos que os sonhos não sejam fechados por tempo indeterminado, da mesma maneira que necessitamos de condições para honrarmos com nossos compromissos e não desampararmos aqueles que dependem de nós. E, principalmente: precisamos ter a segurança de um futuro melhor – ou, ao menos, para não exigir tanto: precisamos de um futuro.

Em meio a esse cenário tão crítico, repleto de incertezas, de crise econômica, instabilidade política e até mesmo de negação; enquanto pessoas perdem sufocadas a vida, seus empregos e a decência, se discute (pasmem) a concessão de aumento salarial para categorias já indiscutivelmente prestigiadas no cenário nacional. Como isso pode ser sequer cogitado neste momento? Em que gaveta deixamos a vergonha, a noção de moralidade e o senso de Justiça?

Pior ainda é quando vem à luz denúncias de itens emergenciais comprados pelo poder público para o enfrentamento do coronavírus com suspeitas de superfaturamento. Valores fraudados ou produtos e serviços adquiridos e contratados de empresas suspeitas se tornaram, ultimamente, em cacoete cultural – uma espécie de política de estado divorciada da moralidade, da legalidade, da ética e da transparência.

Corrupção mata! Mata muito mais, inclusive, do que homicida; que assaltante de banco ou traficante! Corrupção mata a Educação, a Saúde, a Infraestrutura, o Desenvolvimento Econômico, o Meio Ambiente, a vida, a distinção e a expectativa de milhões de brasileiros!

Até quando vamos tolerar ou “fazer vista grossa” a atos pouco republicanos, aos saques aos cofres públicos? E, não importa o tamanho, a forma e a ideologia que operam os desvios, ou a localização geográfica e a calamidade que está sendo utilizada como pano de fundo para o crime.

Insegurança, lideranças irresponsáveis e contrafações são máculas que, em tempos de crises ou fora deles, não podem, nem devem ser toleradas! Como bem defende meu colega de corporação, senador Major Olímpio (PSL), “vergonha, vergonha, vergonha” – uma vergonha na cara que, no Brasil, especificamente para a classe política, faz tanta falta, hoje, quanto a uma vacina ou a cura para a covid-19.

*Coronel Eliane Nikoluk, doutora e mestre em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública; especialista em Gestão pela Qualidade e NBR ISO 9001 – Normalização Técnica; em Sistemas de Gestão de Qualidade; em Preparação de Auditores da Qualidade; e em Gestão de Emergências; graduada em Gestão Pública

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