A pandemia da covid-19 e a mobilidade urbana

A pandemia da covid-19 e a mobilidade urbana

Valeska Peres Pinto*

06 de abril de 2020 | 11h30

Valeska Peres Pinto. FOTO: CAROLINA JARDINE

Muitas são as manifestações e análises em períodos de crise, como aquele em que vivemos. Os sanitaristas e epidemiologistas estão trabalhando em diversos níveis, desde o conhecimento da dinâmica desta epidemia como as estratégias de combate, envolvendo muitos procedimentos – desde o isolamento social até a quarentena.

Mas aqui não pretendo tratar deste aspecto do problema. Meu olhar se volta para um fenômeno que assumiu proporções crescente em nossa sociedade – a mobilidade urbana – e seus impactos na disseminação da epidemia.

Até o presente momento estamos trabalhando com hipóteses cujos resultados só serão avaliados posteriormente. A redução drástica dos deslocamentos de pessoas já é realidade nas grandes cidades brasileiras. O setor de transporte público já opera com baixa demanda, as viagens intermunicipais e interestaduais já estão reduzidas e as aéreas limitadas ao mínimo para não impedir os deslocamentos necessários de pessoas envolvidas no processo de enfrentamento da crise e para o transporte de insumos necessários.

Quando falamos que os resultados destas medidas de exceção só surgirão depois, se deve ao fato de que todas elas estão sendo aplicadas em realidades muito distintas. As variáveis são muitas – perfil demográfico, renda das famílias, serviços de saúde, acesso a insumos e outros. No que refere à mobilidade urbana, temos um quadro de assimetria e de desigualdade social que observamos em outras dimensões da sociedade – renda, habitação, saneamento, coleta de lixo. A mobilidade urbana cresce com a renda das pessoas – ou seja, uma renda maior possibilita um maior índice de mobilidade – relação entre número de viagens por dia. Os deslocamentos das pessoas de baixa renda estão diretamente associados ao trabalho que, quando formalizado, garante a elas o acesso ao Vale Transporte. Os trabalhadores informais carecem deste apoio e a crise econômica que já vivemos desde 2015, já colocou milhares de pessoas fora de empregos formais. O crescimento do número de moradores de rua, também vem ocorrendo devido aos custos elevados do transporte no orçamento da família e da instabilidade da renda daqueles que trabalham sem vínculo formal de emprego.

Também vale destacar a importância da presença da mulher que se constitui na parcela majoritária dos usuários do transporte público na maior parte das cidades brasileiras. As mulheres respondem por uma parcela importante da renda das famílias, dos cuidados das crianças e dos idosos. Embora as diferenças salariais entre gêneros ainda sejam significativas, a formalização do trabalho doméstico e das cuidadoras de idosos, trouxe muitas delas para o transporte público principalmente pelo acesso ao Vale Transporte.

Os segmentos da população de baixa renda já vivem em regime de isolamento, quando nos referimos à mobilidade urbana. As viagens de lazer nos finais de semana requerem um esforço suplementar que pode significar a falta de recursos no final do mês. Iniciativas de tarifa zero nos domingos têm sido exitosos, pois permitem às famílias deslocarem-se para visitar parentes, parques e outros atrativos de que são carentes a maior parte dos bairros populares.

Se é verdade que a maioria da população já vive restrições de mobilidade devido ao fator renda, o que se agrava neste momento em que todos são chamados a ficar em casa? Neste momento, outra dimensão da falta de mobilidade urbana se impõe. Esta dimensão diz respeito aos impactos da mobilidade urbana como insumo da economia urbana.

Segmentos de alta e média renda que não vivem em regime de necessidade, ou seja, possuem reservas financeiras de emergência ou podem recuar para as suas casas e continuar trabalhando à distância (home office); o isolamento social pode ser enfrentado com relativo conforto. Muitos até lembrarão deste período de forma positiva, visto que estão economizando tempo gasto nos congestionamentos de trânsito e dispondo de mais tempo para o convívio com a família, diretamente ou através dos canais da internet.

Esta situação contrasta totalmente com a situação das parcelas de baixa renda, principalmente nas grandes cidades e regiões metropolitanas. Além da perda de salários ou outros ganhos, a grande maioria desta população carece de infraestrutura urbana para a qual recuar. Tais condições já são conhecidas, são tratadas em estudos acadêmicos e pautas de luta das organizações sociais e comunitárias. Colocá-las em destaque pode ser importante para o futuro.

Porém no imediato, são necessárias medidas que evitem a chegada da epidemia neste segmento social, associando-se a elas medidas que visem garantir meios de sobrevivência para comunidades – distribuição de água, distribuição de alimento, disponibilização de locais para teste e isolamento de pessoas com sintomas reduzidos, acesso a um renda básica e disponibilização de recursos hospitalares para os casos graves. Manter o funcionamento básico do transporte público que é a coluna vertebral da mobilidade urbana é necessário tanto como levar insumos e apoios a parcelas significativas da nossa sociedade para os quais a mobilidade urbana ainda é um item caro e de difícil acesso. Ou seja, devemos estar abertos não só à hipótese de recrudescimento das medidas de isolamento ao longo da epidemia como começar a reduzir as restrições de forma gradual para que o remédio não tenha efeitos piores do que a enfermidade.

*Valeska Peres Pinto integra o Conselho Consultivo da Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA)

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