A palavra e o discurso político buscando o centro

A palavra e o discurso político buscando o centro

Rodrigo Augusto Prando*

23 de setembro de 2019 | 08h00

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

A política, já asseveraram alhures, é o espaço de resolução dos conflitos, das divergências, pelo uso do diálogo, da argumentação, do convencimento. Espaço objetivando governar e organizar a vida em sociedade. Observamos, há tempos, que o discurso político, seja no período eleitoral ou mesmo já no desenrolar dos governos, assenta-se numa virulência, em posições, muitas vezes, extremadas e, com isso, os adversários, não raro, são transformados em inimigos.

Cabe, aqui, rememorar, por exemplo, a transição feita por Fernando Henrique Cardoso para Lula. À época, FHC abriu as portas do Palácio do Planalto e recebeu, antes mesmo da posse de Lula, uma equipe do PT objetivando informar os novos governantes da real situação do Estado, dos projetos em andamento, enfim, uma passagem de bastão das mais republicanas que se tem notícia nestas plagas. Ato contínuo, tão logo assumem o poder, os petistas – exímios criadores de narrativas – lançam o epíteto com o qual querem marcar a gestão tucana: “herança maldita”. Lula e os petistas, então, eram dotados de todas as virtudes políticas e todos os acertos, ficando, assim, os vícios e erros na conta de FHC e do PSDB. Deu certo. Até mesmo os candidatos tucanos esconderam FHC e seus feitos governamentais. Quase duas décadas depois, em 2018, os petistas, com Haddad a frente, encontraram com Bolsonaro e este não economizou no enfrentamento dos “inimigos” petistas. O discurso do “nós” contra “eles” que os petistas usaram contra seus adversários – convertidos, vale sempre lembrar, em inimigos – foi perfeito para o perfil de Bolsonaro e dos bolsonaristas. Petistas, a esquerda e praticamente todos os democratas mais ao centro político foram varridos, nas ruas ou nas redes sociais, pela força bolsonarista.

Passada a eleição, o Governo Bolsonaro sentiu-se confortável para continuar com a lógica de enfrentamento. Assim, tem sido, até aqui, um governo que desencadeia ações sempre elegendo inimigos: a mídia, a “velha política”, o Centrão, o STF, Ongs, estudantes, universidades, França, Alemanha, ONU, entre outros. A opção estratégica e tática parece ser conduzida para uma conduta que procura manter o diálogo suspenso e o enfrentamento cotidiano, mantendo, desta forma, os atores políticos, as instituições e a própria sociedade tensionados. Há, contudo, algumas manifestações, institucionais, no debate político e na mídia, que procuram sair de um discurso extremado e, portanto, trazer os atores para um diálogo mais ao centro da política brasileira. Enfatize-se, todavia, que trazer a discussão mais ao centro não significa que se abandone suas visões de mundo e ideologias, sejam à esquerda, à direita ou ao centro. O que desejam – e isso me parece correto – é apresentar a possibilidade de discordar, de debater, de discutir, mas com civilidade e no uso de uma argumentação mais racional e menos apaixonada.

Patrick Charaudeau em seu livro, Discurso político, afirma, sobre a importância da palavra na política, o seguinte:

“O governo da palavra não é tudo na política, mas a política não pode agir sem a palavra: a palavra intervém no espaço de discussão para que sejam definidos o ideal dos fins e os meios da ação política; a palavra intervém no espaço de ação para que sejam organizadas e coordenadas a distribuição das tarefas e a promulgação das leis, regras e decisões de todas as ordens; a palavra intervém no espaço da persuasão para que a instância política possa convencer a instância cidadã dos fundamentos de seu programa e das decisões que ela toma ao gerir conflitos de opinião em seu proveito”.

Depreende-se, então, que a palavra, quando moderada, não extremada, joga papel importante nos espaços da discussão, da ação e da persuasão. Uma das iniciativas que reputo como importante tem sido o Projeto Fura Bolha, promovido pela FFHC (http://plataformademocratica.org/FuraBolha.aspx). O Fura Bolha pretende promover o diálogo entre pessoas conhecidas na sociedade brasileira por pensarem diferente. Já dialogaram, numa primeira conversa, Marcelo Freixo e Janaína Paschoal; e, num segundo encontro, Kim Kataguiri e Sâmia Bonfim – no caso, representantes da esquerda e da direita do espectro político nacional. Dialogar, com discordâncias, debater até de forma mais calorosa, não pode assumir a dimensão de briga, de ofensas e desrespeito. Ganha a democracia com a prática dialógica, ganha a sociedade brasileira, ganhamos todos.

A política, a democracia e a ética republicana necessitam cuidados constantes. O exercício da cidadania, do respeito à igualdade e ao livre pensamento não é, apenas, temas teóricos ou da arena política institucional ou partidária. O bom e respeitoso diálogo, ainda que com discordâncias explícitas, deve ser exercitado em casa, na escola, na universidade e no ambiente do trabalho. Nossa cultura política é, infelizmente, ainda bastante ligada às visões de mundo autoritárias. Cabe, por fim, retomar a já famigerada afirmação que, equivocadamente, é atribuída a Voltaire, mas que, na realidade, é de sua biógrafa e acaba por resumir a noção de respeito à liberdade de expressão: “eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado em Ciências Sociais – Bacharel e Licenciado -, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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