A ordem é replantar

A ordem é replantar

José Renato Nalini*

29 de novembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

É incrível que a vida continue e a população não seja tomada de indignação pelo que se faz com a Floresta Amazônica. O jornalista Marcelo Coelho fez um cálculo e constatou que cada brasileiro contribuiu com quatro árvores destruídas naquilo que á foi a maior floresta tropical do planeta. Para ele, foi fácil fazer a conta do passivo ambiental. 13.235 quilômetros quadrados foram destruídos, de acordo com o Inpe – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Se a cada hectare da cobertura vegetal amazônica devem corresponder seiscentas árvores, cada quilômetro quadrado hospeda sessenta mil.

Foram oitocentos milhões de árvores cortadas, ou 3,75 por habitante. E não é só. A cada hectare devastado, um outro é degradado para abrir estradas. O fogo se propaga e atinge áreas que não estavam no cálculo dos dendroclastas. O estrago é muito maior, portanto.

Os cientistas afirmam que, além do corte, outras árvores são impactadas e morrem. Aí é que se chega ao fantástico número de um bilhão de árvores mortas só em 2021. Ou oitenta e quatro milhões por dia, cento e dezesseis mil por hora, duas mil por minuto, trinta e duas por segundo. Marcelo Leite observa que enquanto se lê o seu artigo, mais sete mil e quinhentas árvores terão deixado de existir.

Isso é crime. Cometido a céu aberto, às claras, acompanhado de deboche, ironia e mentiras deslavadas. Só durante a nefasta gestão do ministro contra o meio ambiente, o Brasil perdeu território superior ao da Bélgica, no maltratado espaço amazônico. Onde o atual ministro acredita existir miséria, porque “floresta é sinônimo de pobreza”.

O que há é indigência mental na falta de consciência de quem é pago pelo povo para fazer valer o artigo 225 da Constituição Cidadã, considerado o mais belo dispositivo fundante produzido no século 20. Só que no Brasil a norma existe para retórica, para disfarçar a volúpia com que se dissipa o patrimônio público, pensa-se em Fundo Eleitoral, Fundo Partidário, em viagens nababescas, tudo pago pelo maltratado povinho. Aquele mesmo que passa fome, que não tem educação de qualidade, que não tem saúde, não tem emprego e não tem qualquer perspectiva de vida digna.

O mundo civilizado lamenta, mas ainda é tíbio ao impor restrições às exportações brasileiras. Em lugar de nos valermos do nosso tesouro natural, que foi presente da Providência ou da natureza, nós o destruímos. Exatamente na fase em que o Brasil mais precisa de investimento.

Qual o estrangeiro que virá investir no Brasil? A corrupção continua livre, leve e solta. O STF, que deveria dar o exemplo, encontra tempo para viajar, fazer conferências, prestigiar eventos, mas não faz valer a Constituição Cidadã. Esqueceu-se de que ela acolheu o princípio da vedação do retrocesso. Foi por isso que uma lei de 2012, que não usa uma vez sequer a expressão “Código Florestal”, fez ruir por terra a defesa do verde que existia desde 1934.

É lamentável que o Parlamento, cuja atuação “para lamentar” continua a desfazer a estrutura protetiva dos recursos naturais, se proponha a aprovar leis que tornem o garimpo “essencial para a vida”. Para a vida de quem, cara pálida: dos que morreram em Mariana e Brumadinho?

Há mais de quinhentos projetos para explorar minério nas terras yanomami e é por isso que essa etnia continua na rota da extinção.

Outros países também contribuem para a emissão de gases venenosos que causam o efeito estufa e vão gerar a extinção da vida no planeta Terra. Mas ali, isso se deve a investimentos que dão emprego e qualidade de vida – enquanto houver – para os seus nacionais. Aqui, a emissão é destituída de qualquer objetivo, senão acabar com aquilo que o homem não fez, não sabe fazer, mas é capaz de eliminar.

É de pasmar que a Academia, a Universidade, o empresariado, a mídia espontânea, os educadores, não reajam a esse crime hediondo. As vítimas não somos apenas nós. São nossos netos e bisnetos. Aqueles que não terão condições mínimas de sobreviver numa terra arrasada, calcinada, desértica e morta.

Haverá tribunal para julgar os principais responsáveis por essa tragédia? Ou seremos todos inocentes, assistindo inertes, impávidos, passivamente, a esse extermínio do amanhã?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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