A ordem dos dados altera a democracia

Luís Kimaid e Vitor Oliveira*

15 de outubro de 2018 | 15h24

Na democracia, somos todos convidados a participar da vida pública, mas por que será que nos sentimos desconectados dos representantes? Será que compreendemos o potencial dos meios de participação política?

Contudo, diferentemente dos cidadãos atenienses na antiguidade, temos pouco tempo no mundo moderno para nos dedicar à Política. É neste cenário em que a tecnologia passa a ser fundamental para o exercício da cidadania.

Os mecanismos do governo representativo, necessário em sociedades continentais e heterogêneas, visam a garantia dos direitos e da liberdade, uma vez que nossa vida privada suprime o tempo ocioso originalmente pensado como necessário para a vida pública.

Assim, dedicamos parcela importante do dinheiro público a representantes escolhidos em eleições, criando um problema: como assegurar que os escolhidos para mandatos públicos continuem responsivos aos interesses e valores de seus constituintes?

Há vários mecanismos institucionais a serem explorados para melhorar a relação entre representantes e representados, mas a comunicação e a massificação do acesso à internet certamente têm papel protagonista neste desafio, ao facilitar o acesso à informação, potencializar a transparência nos negócios públicos e descentralizar a produção de conteúdo.

A mera disponibilidade destas informações, contudo, não é suficiente. Os dados existem, mas são desorganizados e como um livro fora de ordem, pouco servem para melhorar nossa democracia. Portanto, é preciso organizar as informações de forma dinâmica e inteligível ao cidadão comum, potencializando a contestação e a participação política.

É neste contexto que a Bússola Eleitoral – uma iniciativa independente da sociedade civil – se propõe ao desafio de organizar os dados de todas as candidaturas ao legislativo no Brasil.

São mais de 26 mil candidaturas, distribuídas em listas partidárias e de coligações confusas, que dificultam o exercício da cidadania e forçam o eleitor a pegar atalhos informacionais, em vez de avaliar profundamente suas opções. No estado de São Paulo, por exemplo, o eleitor precisaria de mais de dois meses para conhecer todas as candidaturas individuais.

Assim, a Bússola propõe ao candidato e ao eleitor entender os seus valores através de um breve questionário desenvolvido em parceria com o Ibope, disponibilizando um mapa visual e dinâmico em que é possível o eleitor descobrir mais sobre as candidaturas, sem qualquer tipo de interferência externa ou viés ideológico. A consequência da Bússola Eleitoral é termos um voto informado e mais consciente, dentro das preferências estabelecidas por eleitores e candidaturas, aumentando a percepção do cidadão sobre o seu poder e papel social.

Este, contudo, é apenas o início, pois a transformação política decorrente de plataformas digitais tem o potencial de ser sistêmica, aumentando as possibilidades de interação entre mandatos e cidadãs, ressignificando a ideia de participação política e de governo representativo através da construção de um fórum digital.

*Luís Kimaid, cientista político e fundador da Bússola Eleitoral
*Vitor Oliveira, cientista político

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