A oposição é uma ostra?

A oposição é uma ostra?

Angel Machado*

16 de fevereiro de 2021 | 04h05

Angel Machado. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

A liberdade é o travesseiro que não dá bom sono aos que se inquietam com as utopias.

“A verdade te libertará, mas primeiro, ela vai te enfurecer” – a frase da jornalista e ativista norte-americana Gloria Steinem é pertinente. Não é a hora de incentivar a loucura, a ironia serve para compreender a ingratidão da oposição brasileira. O que ela pensou ser um dia, esqueceu no dia seguinte. Os combatentes do país justo, democrático, “paz e amor” confirmam, paradoxalmente, a sua apetência para mimetizarem as ostras.

Já imaginou a oposição apoiar os candidatos de Bolsonaro? Parece inverosímil, irrealista, impossível, mas aconteceu na eleição dos presidentes da Câmara e do Senado. Esperamos agora que a oposição não acredite em mitos urbanos e que defenda a existência de uma terra plana.

Os candidatos que se apressem. Depois de 2018 qualquer um pode vencer eleições no Brasil. Da verdade política sabemos que tudo é relativo – perderemos sempre se mantivermos os braços cruzados. Com esse cenário, a tolerância será uma âncora, e escrever é elevar o tamanho da nossa indignação; recusemos, por isso, alimentar mais elefantes brancos. Estaremos aparentemente viciados em maus políticos e vivendo uma democracia forjada?

A imprensa tem feito o seu papel, mesmo sob ameaça de censura e de coerção, porque objetivamente não está a normalizar o deboche e a má educação do presidente. É evidente o seu desequilíbrio político nas ações de proteção à saúde pública, à vida, às causas coletivas e das minorias. Trata-se de uma figura obcecada, narcisista, preocupada com o seu umbigo e com o seu clã. A imprensa cumpre a sua missão: informa, diz, esclarece, desnuda a manipulação. E tudo o que ainda não foi dito será interpretado como a razão que não se hipoteca perante as ameaças.

Com a quase ausência de opinião pública, o nosso “destino” continua nas mãos de quem já se revelou incapaz e está comprometido com muitos interesses. Parece não existir mais a Justiça dos fundadores da nação. Socorro, Brasil! Enquanto os corruptíveis dormem pensando, “como é bom ser político no Brasil,” o brasileiro incorruptível, com o gosto do café na boca, trabalha informalmente, ganha apenas para sobreviver, limita-se a ouvir a história dos outros e a comparar a sua, e sabe que é difícil acreditar em dias melhores.

O Brasil profundo, onde não chega a saúde, o saneamento básico, a educação e a dignidade continua a ser uma terra estigmatizada pelos que fazem da sua riqueza, a pobreza dos mais frágeis.  Viver à margem da sociedade e dos mais elementares direitos não é uma escolha.

O desenvolvimento amplo de uma sociedade não deve estar apenas nos grandes centros.

A economia é mais do que um jogo de regras, ela pressupõe opções políticas que estão para além de uma economia de mercado e que devia assegurar os serviços estratégicos do país para garantir a equidade e a justiça aos brasileiros de menos recursos.

Que ninguém se exclua por falta de esclarecimento nesta barbárie social e política. É hora de repensar o que queremos para o futuro. A dignidade não é negociável, vive-se com ela até o fim, mas as ostras não.

*Angel Machado é jornalista e escritora

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