A obrigatória transformação na gestão das ONGs para continuidade da certificação da socioaprendizagem

A obrigatória transformação na gestão das ONGs para continuidade da certificação da socioaprendizagem

Alessandro Saade*

20 de agosto de 2021 | 06h30

Alessandro Saade. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em 2004, quando o Espro completava 25 anos de atividade social, foi publicado um estudo, resultado de uma provocação do então Secretário Geral da ONU, o ganês Kofi Annan. Nele, o Pacto Global, em parceria com o Banco Mundial, discorreu sobre como integrar fatores sociais, ambientais e de governança no mercado de capitais.

Era o surgimento do termo ESG para o mundo. Mais ainda, uma resposta a uma provocação habilmente coordenada para colocar foco na diversidade da desigualdade mundial, já destacada pelos ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – que cobrem questões sociais e ambientais e possuem metas arrojadas para um novo ambiente mundial no ano de 2030.

Não estamos na velocidade que o mundo precisa, mas com certeza vencemos a inércia e estamos em movimento. Muitas empresas e governos começaram a prestar mais atenção ao fato de forma diferente e mais ativa.

Com todo o respeito, entendo que o chamado do ESG nada mais é que uma cobrança da aplicação de práticas de sustentabilidade que sempre nortearam as principais e mais sérias entidades filantrópicas do nosso país. Já nasceram ESG, só que ainda não existia o termo.

Também entendo que o esforço por dar visibilidade às ações ESG reforça a crença – que compartilho – de que algumas das políticas públicas precisam obrigatoriamente da presença da sociedade civil organizada para garantir maior assertividade no impacto da causa e eficiência no uso dos recursos disponíveis.

Vejamos o exemplo do Espro, no qual atuamos com a missão de inserir jovens em situação de vulnerabilidade no mundo do trabalho.

Entre outras atividades alinhadas à nossa missão, somos uma entidade certificadora da Lei da Aprendizagem que, desde o ano 2000, determina a obrigatoriedade das empresas em destinar uma parte dos seus postos de trabalho a jovens aprendizes. Optamos, contudo, por adicionar uma camada social à obrigação legal e atuamos com a socioaprendizagem, estendendo o impacto às famílias dos jovens e às comunidades onde vivem, por meio de programas gratuitos de capacitação, encontros de fortalecimento de vínculos familiares e oficinas de geração de renda, entre outras ações.

Desde a criação da lei, buscamos entender e responder com agilidade e eficiência às demandas dos nossos jovens e nos orgulhamos de entregar para a sociedade impactos e resultados acima da média nacional. Por exemplo, segundo a PNAD, pesquisa realizada continuamente pelo governo federal, 17% dos jovens brasileiros – entre 18 e 24 anos – estudam e trabalham, enquanto que entre os jovens que passam por nossa entidade este percentual é de 37%.

Também ficamos felizes com nossa taxa de conversão, de 66%, mostrando que 2 em cada 3 jovens dos nossos jovens continuam trabalhando ao final do programa de aprendizagem.

Infelizmente, entendo termos alcançado um patamar de gestão a que poucas entidades que compartilham a mesma causa puderam chegar. Os programas de socioaprendizagem, em sua maioria, estão sendo atendidos por pequenas ONGs espalhadas pelo Brasil, com muito compromisso e engajamento, mas com dificuldades de gestão. Como entidades sem fins lucrativos, a transparência é mandatória. Em um futuro muito próximo, as cobranças da sociedade pelas práticas ESG serão sistemáticas e todas as organizações devem se adaptar agora.

Nesse sentido, as ONGs devem transformar radicalmente sua cultura organizacional, buscando profissionalizar sua gestão, falando a mesma língua do mercado, contribuindo assim para garantir a perpetuação da sua atividade. Quanto mais eficiente e transparente a entidade for, mais facilmente poderá captar recursos e prestar contas da sua aplicação na causa.

Entendo que, na visão da sociedade, causas como fome e saúde são mais urgentes e, por isso, têm recebido mais doações e de forma mais rápida. É justo e necessário.

O desafio do nosso setor – e meu pessoal – é mostrar a todos que, se conseguirmos capacitar o jovem com competências técnicas e comportamentais, fornecendo as ferramentas que o transformarão em um cidadão ético, crítico e protagonista tanto em sua vida pessoal como na sua família e na sua comunidade, além da empresa onde trabalha, em duas gerações teremos reduzido drasticamente problemas relativos à fome e à saúde.

Assim como o Secretário Geral da ONU, deixo aqui a minha provocação: será que não estamos no momento crucial para acelerarmos programas de inclusão social por meio da capacitação e inserção no mundo do trabalho?

*Alessandro Saade é superintendente executivo da Associação de Ensino Social Profissionalizante (Espro)

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