A nova geração de Chicago

A nova geração de Chicago

Olivia Carneiro*

31 de julho de 2020 | 07h15

Olivia Carneiro. Foto: Divulgação

Sempre me perguntam se me considero liberal no sentido brasileiro ou americano. Ora, se o liberalismo de Chicago é americano, como seria o liberalismo de Chicago brasileiro? Para evitar uma aula de história econômica, geralmente vou direto ao ponto: o que é “liberalismo brasileiro”? O “liberal na economia, conservador nos costumes”? É impossível ser liberal e conservador ao mesmo tempo, a economia está diretamente relacionada aos costumes, não há como separar essas duas coisas. E, ainda que houvesse, o liberalismo econômico não é a mera redução de impostos e gastos nos gabinetes. O próprio Paulo Guedes chama de folclórico esse “liberalismo”, afinal a escola de Chicago também é reconhecida pelos economistas “nobéis” do desenvolvimento humano.

A minha especialização foi em políticas públicas (pasmem – não é ciência política, e sim uma área da economia), e foi com os grandes nomes da economia política que me tornei liberal. Na verdade, Chicago ensina que “teoria não tem ideologia”, um modelo econômico é apenas um retrato para identificar problemas. A ideologia, a moral e a responsabilidade estão nas mãos de quem faz uso dessas teorias. Nas políticas públicas, nos ensinam que o “one fits all” simplesmente não existe, cada política deve ser desenhada e milimetricamente ajustada para a realidade que será aplicada. No liberalismo, isso tem diversas implicações frequentemente ignoradas no Brasil.

A ideia de liberdade – comercial, social, econômica – só tem efeito se aplicada em um contexto de igualdade. Não podemos ignorar que a Renda Mínima Universal (criada por Friedman, hoje bandeira do ex-senador Eduardo Suplicy) originou o Bolsa Família. Stigler, que criticava o salário mínimo pelas ineficiências econômicas, concebeu a ideia de imposto de renda negativo (de novo, Bolsa Família). Estes são exemplos de ideias liberais que visam a eficiência de um mercado livre, mas condicionado a um mínimo de igualdade. No limite, o liberal de Chicago endereça primeiro a desigualdade, pois não há liberdade em uma sociedade desigual.

Bom, seria uma enorme desonestidade intelectual não reconhecer que os liberais erraram muito ao longo da história. Desde a independência dos EUA que garantia “igualdade entre todos os homens”, mas que na constituição permitia a escravidão. Até os liberais europeus que apoiavam o fim da escravidão, mas estimulavam a corrida imperial e, mais tarde, o neocolonialismo. O “progresso liberal” do passado foi sim às custas de muita injustiça e estimulou muita desigualdade.

No Brasil, os liberais-folclóricos usam (provavelmente sem saber) o véu da ignorância de Rawls para negar a existência do problema. Mundo afora, a discussão liberal está avançando para um consenso de que não há como promover a liberdade, sem considerar a discriminação. Até a revista The Economist (tradicional voz do liberalismo inglês) vêm estimulando essas reflexões no contexto da mobilização antirracismo.

Não queremos passar o pano para reacionários que distorcem o propósito do liberalismo. É claro que todas as vidas importam, mas se ignorarmos o legado da hierarquia racial, estaremos perpetuando o oposto da liberdade, que é a opressão. Além de ser uma questão de justiça, essa é também uma questão de mercado – embora eu ache lamentável precisar trazer esse argumento para a agenda.

Luigi Zingales, o liberal do momento, argumenta que ineficiências do mercado devem ser corrigidas pela sociedade civil e pelos acionistas. Empresas que praticam danos ao meio ambiente, que não possuem um corpo de funcionários representativo e que fomentam qualquer tipo de desigualdade devem ser alvo dos que têm poder aquisitivo. Os consumidores que puderem, boicotem essas empresas. Acionistas,

desfaçam-se desses papéis. Não é o governo que deve regular o mercado, somos nós. Antes de exigir que o Estado represente nossos interesses, nós devemos representá-los.

Zingales argumenta (com o Oliver Hart) que se os acionistas e consumidores (com poder de escolha) fizerem a parte deles, o mercado se ajusta para minimizar injustiças e, assim, não precisamos do Estado para corrigir essas falhas. Eu pessoalmente não apostaria todas as minhas fichas nessa solução, mas enxergo nela um liberalismo honesto de Chicago. Seria impossível a aplicação da solução de Zingales em uma sociedade que nega a desigualdade, o racismo e a destruição do meio-ambiente. Se acionistas focados no lucro seguirem investindo cegamente nessas empresas, as falhas do mercado são agravadas, e o Estado precisará intervir.

A sutileza, que o liberal-folclórico do Brasil não enxerga, é que para o mercado funcionar livre do Estado, a elite econômica precisa se responsabilizar pelo problema, a desigualdade. A negação e o conservadorismo, na realidade, atrapalham o liberalismo. Em outras palavras, o folclore do “todas as vidas importam” se opõe ao liberalismo, pois ao ignorar a desigualdade racial, transfere para o Estado responsabilidade de corrigir o sistema – como faria um comunista.

*Olivia Carneiro, economista e especialista em políticas públicas com mestrado pela Universidade de Chicago.

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