A normalização do anormal

A normalização do anormal

Rodrigo Augusto Prando*

27 de agosto de 2020 | 10h30

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

Desde os primórdios da Sociologia há uma fundamental preocupação com a normalidade social, com temas ligados à ordem social, a harmonia funcional das instituições. Assim, o já famigerado termo “novo normal” reclama atenção especial, pois há implicações sociais e políticas em seu uso e desdobramentos. Vejamos.

Lá por meados de março, com a certeza da chegada da pandemia no país, houve, inicialmente, afirmações das autoridades e especialistas que os mais afetados seriam “idosos”, “grupos de risco” e “portadores de comorbidades”. Estes eram, assim, nomenclaturas abstratas, frias, distantes de nossas realidades. Já, neste momento, a atitude do Presidente Jair Bolsonaro foi de menoscabo pela doença, alicerçada sobre negacionismos diversos e postura anticientífica. Aliado a isso houve a manutenção de um estilo de ação política que, noutros escritos, chamei de presidencialismo de confrontação. Bolsonaro e o bolsonarismo têm em seu DNA o apreço pelo confronto às instituições (Congresso Nacional e STF, preferencialmente), aos atores políticos, aos jornalistas, cientistas, inimigos reais ou imaginários, internos ou externos. Havia uma dúvida se, no enfrentamento da pandemia, o presidente iria recuar e assumir a condição de líder e a liturgia do cargo ou dobraria a aposta nos seus arroubos verbais e ações de ataques múltiplos e semanais. Dobrou a aposta. E, se no início, a morte era abstrata, passou a ser concreta, próxima, cotidiana, ceifando vidas de colegas, amigos, entes queridos.

Houve reação e balões de ensaio acerca de um possível impeachment foram lançados, mas não chegaram a subir muito. O apoio de cerca de 30% da base bolsonarista, os trabalhos legislativos realizados à distância, a impossibilidade de manifestações de rua por conta do distanciamento social e uma crise econômica se apresentando não deram força nem a Rodrigo Maia, Presidente da Câmara, e nem aos partidos de oposição ao presidente, à esquerda ou no centro democrático, a prosseguirem com um projeto de impedimento presidencial. Com isso, de negação em negação, de confronto em confronto, de piada em piada, Bolsonaro foi se fortalecendo. Despreocupado com suas falas ou ações e aproximando-se do Centrão (aquele mesmo da tão atacada “velha política”) garantiu, por enquanto, os votos que barrariam um impeachment. Consolidou-se como um presidente que mais atrapalhou do que coordenou e ajudou estados e municípios, que perdeu dois ministros da saúde durante a pandemia e seu ministro mais estrelado, Sérgio Moro, mas nada disso abalou sua base de apoio que se manteve coesa e resiliente.

Foi, apenas, em meados de 2020, que Bolsonaro resolveu seguir um caminho de moderação. E o fato marcante para tal escolha foi a prisão de Fabrício Queiroz, amigo dos Bolsonaro. Além disso, as investigações em curso no STF mirando atos antidemocráticos, redes de financiamento e propagação de fake news e de intervenção política na Polícia Federam contribuíram para Bolsonaro se recolher, moderando discursos e ações de ataque à democracia brasileira e suas instituições. Some-se ao cenário descrito o fato do presidente ter contraído a Covid-19 e, por isso, sua moderação e distanciamento de polêmicas foi notada pela imprensa e pelos analistas. Até analogias foram feita chamando de “Bolsonarinho paz e amor”, em alusão ao ex-presidente Lula. Muitos – com razão – questionavam se, por parte do presidente, não haveria, apenas,  um recuo tático, pois, no fundo, a estratégia do presidencialismo de confrontação se manteria inalterada.

Eis que, no último final de semana, Bolsonaro foi questionado por um jornalista acerca de depósitos de 89 mil reais na conta de sua esposa, Michelle Bolsonaro, feitos por Fabrício Queiroz. O Presidente, abandonando a “paz e o amor”, respondeu que desejaria encher a boca do jornalista de porrada. Ato contínuo, num evento sobre os recuperados do coronavírus, Bolsonaro fez a seguinte afirmação: “Eu era um jovem aspirante do Exército, tinha 23 anos, sempre fui atleta […] o pessoal da imprensa vai pro deboche, mas quando pega num bundão de vocês, a chance de sobreviver é bem menor”. Bolsonaro é Bolsonaro e seu comportamento, todos sabíamos, desde sua trajetória parlamentar e durante a eleição, foi assim: ataques, memes, lacração, fake news e pós-verdades. A narrativa bolsonarista, quer queiramos ou não, mostra-se, até aqui, vitoriosa. Os adversários não conseguem se contrapor a ele, as pesquisas indicam melhoria de seu índice de aprovação e queda substancial de sua desaprovação e o auxílio emergencial pago aos brasileiros mais vulneráveis deu ao presidente o apreço por gastar e, consequentemente, escantear as teses liberais de Paulo Guedes.

Aqui, a leitora e o leitor, poderia questionar: como a narrativa de Bolsonaro é vitoriosa com uma pandemia que matou mais de 100 mil brasileiros? Como seu discurso de ataque constante à democracia ganha espaço? E o porquê de abundantes fake news e pós-verdades que passam a massacrar os fatos, a verdade e a ciência? Creio que, na condição de uma hipótese, possamos trazer à tona as ideias contidas no livro “Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news”, de Mattew D’Ancona. Para D’Ancona, a sociedade vai, paulatinamente, se acostumando à situação de pós-verdades e fake news, pois em suas palavras:

“[…] as mentiras, as manipulações e as falsidades políticas enfaticamente não são o mesmo que a pós-verdade. A novidade não é a desonestidade dos políticos, mas a resposta do público a isso. A indignação dá lugar à indiferença e, por fim, à convivência. A mentira é considerada regra, e não exceção, mesmo em democracias […]”

O ambiente, saturado de fake news e pós-verdades, impacta a vida do cidadão, já que: “A mera exaustão pode tirar até mesmo o cidadão alerta de seu compromisso com a verdade. Mas o que toma seu lugar? Na Rússia de Putin, de acordo com Pomerantsev, é a resignação cognitiva, uma retirada de uma corrida aparentemente invencível. O que importa não é a ponderação racional, mas a convicção arraigada. De acordo com Alexander Dugin, cientista político e polemista (apelidado de o “Rasputin de Putin”): “a verdade é uma questão de crença. […] Essa coisa de fatos não existe”.

Seguindo com minha hipótese – que, obviamente, pode ser contestada – a sociedade brasileira foi se acostumando com o estilo de Bolsonaro, com seu presidencialismo de confrontação, e isso fez com que, durante a pandemia, mesmo com esses números alarmantes de doentes e mortos, fossemos nos anestesiando, num torpor cognitivo. Aliás, o Brasil há tempos ostenta um número absurdo de assassinatos e de mortos no trânsito, chegando, em alguns anos, a cerca de 100 mil vidas perdidas. Triste admitir, mas o brasileiro chega a flertar com a violência e com a morte, quer ele queira ou não. Assim, fomos, ao longo do tempo, normalizando o anormal. A violência altíssima em nosso país é vista como normal; o discurso e o comportamento de Bolsonaro e dos bolsonaristas foram aceitos pela sociedade e pelas instituições e normalizados, enfim, a conjuntura da pandemia só agudizou uma estrutura de uma sociedade desigual e violenta sistêmica. Querendo ou sem querer, Bolsonaro “preparou” ainda mais a opinião pública ao absurdo. O absurdo já não impacta ou indigna como deveria, social ou politicamente.

Nosso “novo normal”, na pandemia, foi a normalização do anormal. E isso é obra coletiva, responsabilidade de todos nós, não apenas da classe política. Nossa cultura cívica está aquém de nossas potencialidades enquanto país. Uma pena.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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