A normalização da tragédia na Educação

A normalização da tragédia na Educação

Cris Monteiro*

21 de outubro de 2020 | 14h50

Cris Monteiro. FOTO: DIVULGAÇÃO

Outro dia assisti a um filme que, como vários do período da 2ª guerra mundial, mostra os horrores do holocausto. Nem é um grande filme, mas me faz sempre lembrar como os alemães se alienavam diante da tragédia que acometia aquela sociedade. No filme, o jovem Hans é aliciado pelo partido de Hitler que, na época, já trazia as crianças para dentro de sua engrenagem. O gentil Hans teve toda sua educação patrocinada pelo nazismo, com as bençãos de seus orgulhosos pais. Ele se torna um brilhante arquiteto, oficial da SS, a elite dos exércitos nazistas, e acaba encarregado de construir uma nova câmara de gás em Auschwitz, melhorando a eficiência dos fornos.  Vários filmes, além da grande Hanna Arendt, quando escreveu sobre a banalidade do mal, nos fazem refletir sobre a normalização das tragédias e de como podemos passear diante delas sem realmente querer enxergá-las.

Afinal, Hans tinha um futuro maravilhoso como oficial da SS e seus pais eram orgulhosos de seu filho. Eles se sentiam devedores do Fuhrer – estavam todos ocupados em celebrar suas conquistas pessoais. Assim o nazismo dominou a Alemanha. Muitos talvez achem a comparação exagerada. Mas resolvi tomar o risco. Nós, brasileiros, estamos diante de uma brutal tragédia e ocupados que estamos com nossas vidas pessoais, não vemos os atos que estão levando milhares de crianças e jovens a terem seu futuro seriamente comprometidos: a tragédia da má qualidade da educação brasileira. Sem educação, o futuro é, sim, a barbárie.

O país não faz feio ao alocar parte importante de seu PIB para a Educação – muito mais, inclusive, que vários países da Organização de Cooperação de Desenvolvimento Econômico (OCDE). Entretanto, temos um dos piores resultados do teste PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) que mede o conhecimento dos jovens de países membros do OCDE. Para se ter uma ideia, no nosso ensino médio, entre 10 alunos, menos de 4 (3,7) alcançam níveis de aprendizado adequado em Língua Portuguesa. E em Matemática não chegam a 2 os bons alunos de cada grupo de 10.

Um levantamento sobre a infraestrutura escolar, feito pelo IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil) e pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) mostra que, no estado mais rico, São Paulo, 99% das unidades escolares não possuem enfermaria, consultório médico ou ambulatório para atendimento dos estudantes; 82% das escolas estaduais não têm mais de dois sanitários para os alunos. Costumo dizer que as escolas mais parecem presídios e não são nada atraentes para as crianças e jovens brasileiros. Ainda de acordo com o levantamento, 11% das escolas estaduais não têm pátio, 13% não têm espaços esportivos e 79% não possuem vestiários. No caso dos banheiros, em 48% das unidades escolares eles não são adaptados para atender pessoas com algum tipo de deficiência.

Os alunos reclamam: faltam quadras, bibliotecas, laboratório de ciências, computadores.

O Plano Nacional de Educação mostrou, neste ano, que o Brasil ainda soma 11 milhões de analfabetos, pessoas com mais de 15 anos que não são capazes de ler ou escrever um bilhetinho. Crianças sem creches são 1,5 milhões. Com a pandemia, fechamos ainda mais os olhos para a educação. Seguimos, alienados, vendo a tragédia passar sob nossos olhos complacentes.

Ainda temos resistências históricas às soluções ditas fora da caixa para o problema da educação brasileira. Na falta das creches ainda colocamos como a primeira solução a construção, pelo poder público, de unidades. É bom lembrar que obras públicas levam tempo e são fontes de corrupção. Por que não pensar em mais associações com o setor privado? Por que resistir em trazermos alternativas que beneficiem os milhares de brasileiros que têm seu futuro comprometido por conta da falta de educação de qualidade? Por que não mantemos as escolas públicas, mas com gestões privadas? Se vai trazer ganhos para quem mais precisa, não devemos oferecer resistências, mas encontrar mecanismos que permitam os projetos dessa natureza funcionar.  A educação é garantida a todas as crianças e jovens pela nossa Constituição, mas não estamos cumprindo a lei magna.

Diante desse mal, que é a ausência do Estado em fornecer o direito básico à educação, a sociedade brasileira se porta como que amortecida, ocupada com outras coisas. E não podemos culpar ninguém: a responsabilidade é nossa. O olhar para a história nos faz questionar como, durante a segunda guerra mundial, tantos indivíduos se deixaram levar pelo discurso do Fuhrer até o mal ser banalizado. Os alemães já não se davam conta do que estava acontecendo bem embaixo de seus narizes. Atualmente olhamos para esse pedaço da história com a grande dor: faltamos com nossa capacidade de perceber e acabar com o mal. Eu temo que nós, brasileiros, em 50 ou 60 anos vamos olhar para nosso passado e sentir que faltamos com nossas responsabilidades de cidadãos e permitimos que tantos outros brasileiros ficassem desassistidos e perderam o direito de um o futuro iluminado e com liberdade de escolhas. Sem educação, o que resta é a barbárie. A tragédia já está banalizada: precisamos tomar o caminho da resolução para reduzir as perdas.

*Cris Monteiro, ex-diretora do banco JPMorgan e ativista pela Educação em São Paulo

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