A necessária tolerância zero

A necessária tolerância zero

Fernanda Zacharewicz*

01 de janeiro de 2021 | 07h00

Fernanda Zacharewicz. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Assisti ao vídeo da Alesp em que Fernando Cury passa a mão pelo corpo de Isa Penna quando ela ainda não havia feito o boletim de ocorrência por assédio sexual. A primeira pergunta que surgiu em minha mente foi: por que estou assistindo ao vídeo e a denúncia ainda não foi feita? A violência estava clara nas imagens.

No início do mês de dezembro, a revista Piauí publicou a matéria sobre o assédio de Marcius Melhem sobre Dani Calabresa. Após a denúncia da atriz, outras mulheres se pronunciaram. Em 2017, Su Tonani escreveu a um blog denunciando o assédio de José Mayer, outras vítimas surgiram após essa carta.

Para a condenação de Harvey Weinstein testemunharam mais de 80 mulheres. Em 2018, para a primeira condenação de João de Deus, foram feitas mais de 10 denúncias. Trinta e nove mulheres delataram Roger Abdelmassih.

Por que surgem outras vítimas depois da primeira denúncia? Será que estamos sempre diante de agressores em série? A violência contra a mulher é um crime que costuma ser praticado continuamente?

A viralização do vídeo da Alesp deu suporte à denúncia de Isa. O posicionamento ético de Dani Calabresa, a escrita de Su Tonani, o testemunho de Rose McGowan e Ashley Judd e de outras que ousaram ser as primeiras a denunciar possibilitaram que o comportamento abusivo antes tolerado, pudesse ser percebido como agressão pelas outras vítimas. Essas mulheres ousaram não tolerar qualquer grau de violência.

Segundo dados da OMS, 35% das mulheres já sofreu violência física e/ou sexual. No Brasil registrou-se 1.314 vítimas de feminicídio em 2019. Há que lembrar que a lei 11.340/06 é fruto da luta de Maria da Penha, paraplégica em decorrência de um tiro de seu marido. É ainda muito alto o limite do que nossa sociedade estabelece para a classificação da violência contra a mulher.

O que o movimento surgido a partir do vídeo da Alesp, a denúncia do comportamento de Marcius Melhem, de José Mayer e de tantos outros mostra é a necessidade de redução desse limite. Há alguns anos ouvíamos de Paulo Maluf “Estupra, mas não mata”. O sujeito que ocupa a Presidência de nosso país há pouco afirmou: “Não estupro porque você não merece”. Essas frases são violência. Matar é violência, estuprar é violência, ameaçar com a perda de emprego é violência, elogiar o tamanho da cintura é violência, tocar o corpo do outro sem consentimento é violência. Incitar que a mulher reate um relacionamento abusivo fazendo pouco caso da medida protetiva, como fez o juiz da Vara de Família de São Paulo, é violência sim.

Minha hipótese é que surgem mais e mais vítimas a cada vez que denunciamos pois vamos baixando o limite de nossa tolerância. Que possamos nos apoiar para que sigamos lutando até que a tolerância zero à violência contra a mulher seja uma realidade.

*Fernanda Zacharewicz é psicanalista, doutora em Psicologia Social pela PUC/SP e editora da Aller Editora

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