A necessária superação de Monteiro Lobato na literatura infantil

A necessária superação de Monteiro Lobato na literatura infantil

Paula Andreatti Margues*

18 de abril de 2021 | 07h00

Paula Andreatti Margues. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Em tempos de discussão sobre a cultura do cancelamento, ressurge o debate acerca do racismo na obra de Monteiro Lobato. O tema já é discutido há algum tempo e demonstra o quanto o Brasil ainda enfrenta sérias dificuldades ao lidar com os assuntos étnico-raciais. De um lado do debate, considera-se que a obra de Monteiro Lobato é racista, do outro lado argumenta-se que se trata de um retrato da época em que os livros foram escritos. Ora, os dois argumentos são verídicos. Os escritos apresentam conteúdo racista por serem fruto de uma sociedade recém-saída da escravidão, e o último argumento não exime o autor da sua intencionalidade ideológica racista na representação do(a) negro(a) em seus livros.

É inegável o pioneirismo de Lobato ao trazer o caráter cômico para a literatura infantil brasileira, antes restrita aos livros escolares voltados ao ensino da leitura, traduzidos ou adaptados de livros clássicos europeus, unicamente de caráter pedagógico, didatizante. Monteiro Lobato cria uma literatura infantil nacional, insere o humor no conteúdo para as crianças, traz representações sob a ótica infantil, proporciona o surgimento do leitor infantil, resgatando-o de uma posição passiva e recuperando o questionamento ávido das crianças.

O que está em jogo não é a qualidade dos seus escritos, muito pelo contrário: sua assertividade e carisma ao escrever para as crianças, leva-nos a pensar no quanto sua obra, impecável do ponto de vista literário, foi eficaz na formação do imaginário social de uma geração pós-escravocrata. Assim como é inegável o vanguardismo do autor na literatura infantil, também é inegável sua origem, história e formação.

Monteiro Lobato, nascido no fim da escravidão (1882), importante nome da elite paulista cafeicultora, neto do Visconde de Tremembé e membro da sociedade eugenista de sua época, tinha intencionalidade ideológica e política ao retratar as pessoas negras como inferiores e em posições sociais de servidão. Na defesa de Lobato, surgem argumentos de que o autor, de fato foi racista até a década de 30, mas que depois disso, mudou sua escrita, atribuindo características valorosas da cultura africana aos personagens Tio Barnabé, Tia Anastácia e o rinoceronte Quindim. Entretanto tal argumento mostra-se insuficiente da defesa do autor, considerando que tais personagens continuaram em posições subalternas e que, para as crianças, a compreensão dessas características de forma implícita, não ocorre com facilidade. Não se trata de negar a capacidade interpretativa das crianças, mas de compreender que a aprendizagem da criança acontece através da ludicidade, dos elementos simbólicos e das referências estéticas, por exemplo.

A dificuldade de identificar o racismo na obra de Monteiro Lobato não poderia estar relacionada a certo saudosismo de nossas infâncias? Este é um assunto delicado pois está no campo das nossas memórias afetivas de quando éramos criança. Outra dificuldade é revisitar as grandes obras, os grandes autores, os “clássicos”, e nos depararmos com seus entraves, possivelmente não vistos por nós anteriormente, mas que agora ganham foco diante das reflexões da sociedade atual. Em um país que recentemente começou a enxergar os problemas do cotidiano advindos do período escravocrata, é importante entender a construção social racista dos personagens negros na obra de Lobato, bem como a função ideológica das obras literárias, e portanto, dos livros infantis.

Cancelaríamos então a literatura infantil lobatiana? Respondo com outro questionamento: por que se ignoram as vozes negras nesse debate e não se valoriza os argumentos das pessoas que estão na centralidade dessa questão? Por que a opinião de leitores negros e leitoras negras não é considerada? Não são poucas as pessoas negras que relatam desconfortos e sofrimentos vivenciados na infância, quando suas professoras contavam as histórias de Lobato. Na defesa do autor, encontra-se argumentos de que ele retratou o sofrimento das pessoas negras escravizadas, como na obra “Negrinha”, por exemplo. Será que alguma menina, negra ou branca, gostaria de ser essa protagonista na peça teatral de fim de ano da escola? É um desserviço continuar apresentando às crianças narrativas que colocam negros e negras unicamente como personagens sofridos. Colocar as pessoas negras a todo tempo diante dessas histórias de dores de seus povos, é contribuir para que a ferida nunca cicatrize. Ao se ver sempre representado na situação de escravidão, o movimento negro reivindica o protagonismo. Mais de um século após a abolição da escravatura no Brasil, potencializar a identidade e cultura negra não é nenhum favor, é reparação de dívida histórica.

Ofertar ou não ofertar Monteiro Lobato para as crianças? Ora, conseguiremos garantir que toda leitura seja devidamente contextualizada, problematizada? Professoras(es), famílias e adultos, de forma geral, estão preparados(as) para tal problematização e diálogo com as crianças sobre o tema? Se Lobato retrata a realidade racista da sua época, devemos nos questionar se faz sentido continuar lendo e apresentando o retrato daquela época para as nossas crianças, sem nenhuma problematização, como comumente acontece na leitura da obra. Tudo se transforma. A época é outra. Como sujeitos de outra época, da nossa época, é fundamental pensarmos nas infâncias de agora e compreender as demandas literárias das crianças de nosso tempo. Não queremos mais que crianças negras, maior parte das crianças brasileiras, continuem a sentir profundo constrangimento ao se depararem sempre com sua representação ligada à escravidão. Não queremos mais que crianças brancas se sintam superiores às crianças negras.

A jornalista Adriana Couto afirma que teve contato com a sua negritude através do racismo na escola. Ela aponta que devemos conectarmos as crianças com a negritude a partir da potência da cultura negra, e não a partir da tragédia do período escravocrata. Como pontua o rapper Emicida: a cultura negra enquanto potência deve chegar à criança antes do racismo, antes da opressão. Nesse sentido, faz-se necessário agora, como sujeitos do nosso tempo, olhar novos importantes nomes da literatura infantil contemporânea, que trazem em suas obras a urgência da representação e valorização das culturas negras como potência.

Como sujeitos da nossa época, afirmamos a necessidade de apresentarmos às crianças as obras de autores como: Kiusam de Oliveira, Sônia Rosa, Oswaldo Faustino, Waldete Tristão, André Neves, Madu Costa, Rogério Andrade Barbosa, entre outros autores de literatura infantil antirracista e decolonizada. Disponibilizar as obras lobatianas para as crianças, ou trabalhar pedagogicamente através delas, é reafirmar o histórico de sofrimento de alguns povos, é mexer na ferida que ainda não cicatrizou por completo. A educação inclusiva, que valoriza a diversidade, objetiva o contrário: tendo em vista uma prática pedagógica antirracista e decolonial, deve-se proporcionar histórias, narrativas, contos e referências para que crianças, brancas e negras, se deparem com a negritude enquanto potência.

*Paula Andreatti Margues, professora do curso de Pedagogia da Universidade São Judas

Tudo o que sabemos sobre:

Artigomonteiro lobatoRacismo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.