A natureza é o protótipo mais completo do que é a vida

A natureza é o protótipo mais completo do que é a vida

Mário Lucio Machado*

14 de julho de 2020 | 14h00

Mário Lucio Machado. Foto: Divulgação

Se queremos longevidade e plenitude, precisamos aprender com os sistemas vivos. Inadvertidamente, ao longo do tempo, fomos negligenciando esses sistemas e passamos a operar numa lógica de máquinas, vivendo e trabalhando “mecanicamente”, onde a principal missão era maximizar o tempo, alcançar o máximo, no menor tempo possível e com o menor custo, acumular cada vez mais, de forma que no futuro pudéssemos viver uma espécie de paraíso do capitalismo na terra.

A natureza tem princípios de auto regulação que provocam desequilíbrios ocasionais no curto prazo para viabilizar os reais equilíbrios no longo prazo.

As quatro estações do ano são um exemplo deste processo de regulação. Cada ser humano precisa lembrar que suas escolhas trazem consequências. 

A crise da Covid-19 está relacionada a escolhas que são feitas através do tempo, por governos e empresas. O modelo de sociedade, construído ao longo da história, tem dado causa aos problemas que a humanidade atual enfrenta.

O momento é de retomada. O que vamos retomar?

Estamos iniciando um período que será marcado por mudanças, ajustes e adaptações.

Mudanças serão  mandatórias, mas fazer tais movimentos com a mesma lógica de pensamento que originaram sucessivas crises equivale ao vazio, que certamente se transformarão em novas tempestades.

Só não sabemos quando e nem com que impacto!

Mas uma coisa é certa: as relações líderes-liderados sofrerão fortes mudanças. Os últimos meses têm sido disruptivos para todas as empresas, em todos os continentes, e elas precisarão de novos objetivos, estratégias, estruturas, tecnologias, competências.

Para os que ocupam espaços de liderança novas competências e habilidades serão fundamentais para fazermos a travessia, resumidas aqui em sete alavancas:

Liderança Empática, depois de vários meses trabalhando em home office, as pessoas não são mais as mesmas. A prática da empatia será fundamental. Os líderes precisarão se colocar no lugar dos seus liderados para compreenderem “suas dores”, o que mudou na forma como agora eles veem, pensam e sentem a empresa, suas funções, responsabilidades, desafios. Os líderes que insistirem no modelo “manda quem pode e obedece quem tem juízo e contas para pagar”, cedo ou tarde descobrirão que seu tempo passou e que a noite, para eles, poderá ser mais escura do que imaginaram.

Gestão dialógica, o processo de gestão de pessoas precisará ser ressignificado. Não podendo mais exercer controle rígido sobre cada liderado, restará aos líderes o diálogo e a construção de confiança mútua para sustentar a efetividade na gestão de equipes. As taxas de mudanças, assim como a evolução atual, criam uma atmosfera irreconhecível para antigas torres de controle. A única maneira de clarear e ver o futuro é com troca, com o diálogo, múltiplas perspectivas que precisam se juntar a uma mesa que busca claridade, foco e compreensão. Resultados de negócio, metas, frentes prioritárias dos times, orçamentos e planos táticos precisam ser genuinamente compartilhados e desenvolvidos para aumentar suas probabilidades de sucesso.

Feedback socrático, o clássico processo que os gestores utilizavam para dar retorno ã precisará ser revisto. Na medida em que os gestores tenderão a não terem os fatos e sim informações, dados eventualmente desconectados do contexto, eles precisarão dar feedback numa perspectiva de escuta ativa, ou seja, a partir de perguntas abertas e influenciadas buscar entender as percepções dos liderados, suas compreensões, gaps ou necessidades e fazer com que seja o liderado a ter clareza do que ele precisa evoluir, fazer diferente.

Autoconsciência situacional, para serem capazes de se comunicarem com alta efetividade e aptos para construírem relações de confiança mútua com seus liderados, os líderes precisarão aprofundar o exercício do autoconhecimento, de reconhecerem o quanto foram impactados por tudo que vem acontecendo no mundo e nas empresas, enfim, assumirem suas fragilidades. Para fazer isto os gestores precisarão desenvolver a capacidade de interagirem de tal forma a dar causa às atitudes e comportamentos que eles querem das suas equipes. Não é complexo, mas não é trivial.

Determinação, as situações sempre têm dois lados, por exemplo: centralidade no cliente de um lado e rentabilidade. Como resolver o dilema? Decidir é essencial e tende a ficar mais difícil em tempos voláteis; há que se ter discernimento, mas coragem é a palavra norteadora aqui

Esperança e Otimismo, sempre foi dito que liderança é o ato de criar realidades desejadas por você e por outros; outros que irão colaborar para alcançá-las e moldá-las à própria imagem. Também é dito que liderança é o ato de dar e criar contexto sobre os desafios. Em tempos de crise, tempos de retrações, tempos de paralisações, o líder precisa ser capaz de apresentar uma nova realidade para seu time, uma perspectiva nova, desejada, próspera. O líder precisa se tornar no farol de uma nova esperança, de um novo futuro, principalmente em momentos de retrações severas como o de agora. Mas a esperança precisa ser consistente, precisa ser amarrada na realidade compartilhada, precisa ser convidativa – não pode ser uma pintura acabada. E, principalmente, precisa ser fonte de energia e intento para seu time.

Adaptabilidade proativa, tudo que foi feito antes do Corona vírus estará em cheque: objetivos, estratégia, estrutura, gente…será um tempo de muita pressão.Os líderes precisarão atuar como os equilibristas na corda bamba, atravessando um abismo: visão focada, presença total, sensibilidade para captar todas as variáveis, utilizando firmemente o propósito e os princípios para fazer os ajustes e se equilibrar, avançando cuidadosamente, mas sem perder, jamais, a confiança, a esperança e o otimismo. Para esse novo tempo, o líder que se equipar com as crenças, habilidades e competências requeridas, será capaz de fazer a travessia conectada com um real propósito, a travessia de e com seu time e da e com sua organização. Que agora seja o começo de um novo futuro, um novo liderar, e novas organizações possíveis!

*Mário Lucio Machado, fundador e presidente da Wisnet Consulting

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