A morte não desiste

A morte não desiste

José Renato Nalini*

09 de outubro de 2020 | 05h30

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

A humanidade celebra feitos fabulosos, como as tecnologias da comunicação e da informação, a magia da Inteligência Artificial, o desafio dos algoritmos e tantas outras conquistas disponíveis, resultado da profunda e disruptiva mutação trazida pela Quarta Revolução Industrial.

A longevidade é outra façanha celebrada para mostrar que o ser racional avança veloz rumo à perfectibilidade, pois é o senhor da ciência.

Como explicar, então, que em pleno 2020, enfrente uma pandemia que já levou ao menos um milhão de vítimas e semeia pânico em todo o planeta?

O vírus é algo malicioso. Não passa de uma “porção de ácido nucleico cercada de más notícias”, como a ele se referiu o Prêmio Nobel Peter Medawar. São menores e muito mais simples do que as bactérias e, por incrível que pareça, não estão vivos. Quando isolados, não causam mal. Quando conseguem hospedeiro apropriado, transformam-se em entidades vivas e fatais. São abundantes na natureza: mais de cinco mil já foram identificados. Causam gripe, resfriado, varíola, raiva, febre amarela, Ebola, pólio, aids e … Covid19.

Como é que eles atuam? Sequestram material genético de uma célula e se multiplicam. Como loucos e fanáticos, não sossegam enquanto não atingem mais células e continuam a se reproduzir até o infinito. Parece incrível que, sem vida e tão simples, causem tanto estrago. O vírus do HIV possui dez genes ou até menos. A bactéria menos complexa exige muitos milhares. Vírus são microscópicos, invisíveis até que se inventou o microscópio eletrônico em 1943.

Essa substância praticamente invisível matou no século 20 mais de 300 milhões de humanos, sob a forma de varíola. Surgem, matam e podem ficar aparentemente desaparecidos por décadas. Em 1916, europeus e americanos foram atacados pela encefalite letárgica. As pessoas caíam no sono e só acordavam se despertadas por outras. Sem isso, ficavam a dormir até à morte. Dizia-se lembrarem vulcões extintos. Em dez anos, tirou mais de cinco milhões do mundo dos vivos.

O caso mais conhecido e objeto de estudos e de literatura é o da chamada gripe suína ou gripe espanhola. Enquanto a Primeira Guerra Mundial matou 21 milhões em quatro anos, a gripe espanhola atingiu o mesmo número de óbitos em quatro meses. Tanto que 80% dos soldados americanos não morreu em batalha, mas dessa gripe.

O Rio de Janeiro perdeu milhares de almas. Até hoje, questiona-se a causa da morte do Presidente Rodrigues Alves, muitos atribuindo sua partida à gripe espanhola.

O perigo é que ela aparecia como gripe normal, mas aos poucos o vírus passava por mutação e as pessoas morriam quais moscas após aspersão de inseticida. Nos Estados Unidos morreram 548.452 pessoas, na Inglaterra 220 mil, com cifras parecidas na França e na Alemanha. Nunca se saberá quantos milhões ela vitimou. Fala-se em 20, 50 ou até 100 milhões.

Algo que intrigou os estudiosos à época foi a preferência por vítimas entre vinte e trinta anos. Idosos e crianças foram poupados. A Covid19 parece ter optado pelos idosos na primeira fase. Depois disso, foi aceitando qualquer pessoa, não apenas as descuidadas, mas – paradoxalmente – até aquelas zelosas na observância dos protocolos: evitar aglomeração, higienizar constantemente as mãos e usar máscaras.

Fala-se em vacina, mas ela não é panaceia. Novos vírus podem estar à espreita. Nosso descaso em relação ao ambiente é um convite a que novas pestes assolem a humanidade. As viagens aéreas ajudam a disseminar os males, simultaneamente à abertura dos horizontes para um turismo desenfreado.

A descoberta de vacinas é saudável, mas pode também evidenciar a competição e a busca frenética pelo lucro. Não mudaram muito as táticas de testagem com voluntários, que correm evidente risco ao se oferecerem como cobaias. Por ocasião da febre amarela, ficou célebre o experimento com prisioneiros no cárcere militar da ilha Deer, no Porto de Boston. Os infratores concordaram sob a promessa de que ganhariam a liberdade. Foram testes muito agressivos. Parte do pulmão infectado dos mortos era injetado nos voluntários. Aerossóis contaminados eram aspergidos em seu rosto, principalmente no nariz e na boca. Descargas extraídas de enfermos e falecidos eram lançados à garganta das cobaias. Também tinham de permanecer de boca aberta, enquanto o paciente tossia em seus rostos.

Se a Humanidade tivesse juízo, deixaria de fabricar instrumentos letais. Em vez de armamento, melhor faria se cuidasse do saneamento público e multiplicasse o investimento na área da saúde, principalmente a preventiva, que está conectada à responsabilidade ético-ambiental.

Mas quem disse que a humanidade costuma se portar com sensatez? Enquanto isso, a morte agradece e não desiste de sua empreitada inevitável.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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