A morte de George Floyd e a banalidade do mal

A morte de George Floyd e a banalidade do mal

Maria Inês Vasconcelos*

06 de junho de 2020 | 06h00

FOTO: JUSTIN IANE/EFE

A questão racial nos Estados Unidos (EUA) acentuou o surgimento de movimentos antirracistas pelo país. A barbárie cometida contra George Floyd, na cidade de Minneapolis em 25 de maio, fez o mundo todo ficar estarrecido. Até que ponto vai a maldade humana? Até quando os movimentos de exclusão como antissemitismo, o nazismo, o racismo e todas essas pragas estarão ainda vivas dentro do homem, escondidos, em estado de latência?

Entre querer matar e o ato de matar há um abismo. A pulsão de matar é um processo. Um método de reviramento, particularmente complexo, imbricando dinâmicas coletivas e individuais de natureza política, social e psicológica, disse o historiador Jacques Semelin, ao explicar os massacres de natureza étnica.

Seja por qualquer ângulo que se examine o assassinato de George Floyd, não se encontra uma resposta. Não há por quê.

Essa violência gratuita se assemelha muito com o episódio narrado por Primo Levi sobre a brutalidade dos soldados nazistas em Auschwitz. Com sede, ele pegou um caramelo de gelo para derreter em sua boca, no entanto, um soldado brutamontes arrancou o gelo ainda em suas mãos e o empurrou. Ao perguntar o motivo de tanta hostilidade, Primo Levi recebeu uma resposta provocante: “hier Ist kein warum” (aqui, não existe porque).

Perdoar tais atos de violência seria reconhecer um triunfo póstumo ao assassino. Seria como admitir a vitória do mal e passar um paninho na vidraça suja da crueldade humana.

“Poder e violência são opostos; onde um domina absolutamente, o outro está ausente”, disse Hannah Arendt. Após assistir o julgamento de Adolf Eichmann, responsável pela deportação de centenas de milhares de judeus para campos de concentração durante a 2ª Guerra Mundial, Arendt concluiu que o oficial era, na verdade, uma pessoa qualquer, um mero executor de ordens do nazismo, que fazia o que fazia, sem antes qualquer tipo de prévio de análise moral de seus atos. Era algo quase automático. Fazia o que mandavam e pronto.

Eichmann, nada mais foi que um reflexo do homem moldado pelo próprio regime político, dando sustentação para as tragédias cometidas no século passado. Mas não há mais lugar para Eichmann no mundo.

O crime recentemente ocorrido nos EUA é muito ou tão mais grave do que o cometido pelo próprio Eichmann. Naquela época Eichmann era fruto de uma alienação e de uma crivagem de exclusão de raça.

O que aconteceu nos Estados Unidos, entretanto, foi algo muito diferente, afinal vivemos outros tempos. Tempos de liberdade e de igualdade, onde o prestígio da dignidade da pessoa humana prevalece. Não temos conhecimento de que há lobotomia ou alienação por motivos de raça dentro da polícia americana. Não foram dadas ordens para matar. A decisão foi unilateral, o que deixa em evidência que há muita sujeira nos sótãos de algumas mentes, como a do soldado Derek Chauvin, responsável pela morte de Floyd.

Para nós, é certo que não há mais lugar no mundo para o racismo e para a proliferação de qualquer ideologia de raça. Contudo, possivelmente é este o pensamento de Chauvin. E é aí , nesse egocentrismo e nessa superioridade individualizada, que mora todo o perigo.

Chauvin não representa ninguém. Não carregava bandeiras e não se diz fruto do regime. Matou e agiu movimentado por uma ideologia própria. Nesse aspecto ele é infinitas vezes pior que Eichmann.

Ora, a lógica da violência é repugnante e tem que ser rechaçada pela sociedade e governantes para que mortes como a de Floyd não sejam classificadas como simples fatalidade ou fatos históricos isolados, assim como é a queda de um avião ou a Covid.

A tese de que o crime antes de tudo “é uma operação do espírito” foi defendida por Semelin. Na sua definição o crime é uma maneira de ver o outro, de estigmatizá-lo, de anulá-lo antes mesmo de matá-lo de fato. E explica que a maturação desse processo pode ou não ser rápida, mas que as dinâmicas sociais que podem levar a uma “limpeza étnica” e ao “genocídio”, por exemplo, já se encontram em estado latente nos pátios de recreio das escolas ou nos bairros da nossa cidade. É aqui que reside o perigo. O que anda acontecendo nos pátios das escolas?

O racismo é uma praga muito pior do que um vírus potencialmente mortal. Ele reacende sentimentos repugnantes, dentre eles ódio, medo e o desprezo do ser humano pelo seu semelhante. Esse ódio contra o outro é tão pernicioso e vil que não se compara a uma doença causada por um vírus hoje descontrolado.

Em breve teremos uma vacina que vai curar essa doença, mas para o racismo, decorrente da prepotência humana, não haverá nenhum antídoto. Este mal é incurável.

*Maria Inês Vasconcelos, advogada trabalhista, palestrante, pesquisadora e escritora

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