A Moro, delatores dizem que Cabral cobrou propina do Comperj em reunião no Guanabara

A Moro, delatores dizem que Cabral cobrou propina do Comperj em reunião no Guanabara

Ex-presidente da construtora Andrade Gutierrez Rogério Nora de Sá e executivo do grupo Alberto Quintaes confirmaram a juiz Sérgio Moro acerto de R$ 2,7 milhões de corrupção a ex-governador do Rio

Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

07 Março 2017 | 20h22

Sérgio Cabral deixa Curitiba. Foto: Geraldo Bubniak/Agência O Globo

Sérgio Cabral, preso na Lava Jato desde novembro de 2016. Foto: Geraldo Bubniak/Agência O Globo

O ex-presidente da construtora Andrade Gutierrez Rogério Nora de Sá e um executivo do grupo afirmaram nesta terça-feira, 7, ao juiz federal Sérgio Moro, dos processos em primeira instância da Operação Lava Jato, em Curitiba, que o ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB) cobrou R$ 2,7 milhões de propinas da empresa nas obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). O peemedebista está preso desde novembro de 2016.

“Foram pagos R$ 2,7 milhões referentes a nossa participação. Esse pagamento era efetuado pelo Alberto Quintaes com recursos de caixa 2 que ele pegava junto com o diretor financeiro da empresa”, afirmou Nora de Sá, ouvido como testemunha de acusação do Ministério Público Federal contra o peemedebista.

comPERJ

Sérgio Cabral se tornou réu em ações penais abertas no Rio, decorrente da Operação Calicute, desdobramento da Lava Jato deflagrada em 17 de novembro, e em Curitiba. No processo aberto por Moro, o peemedebista é acusado por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, no acerto de R$ 2,7 milhões de propinas com a Andrade Gutierrez, pelo contrato de terraplanagem, do Comperj.

“Esse contrato houve um pedido específico do governador de pagamento, na época eu disse ao governador que eu via muita dificuldade de conseguir honrar, porque foi um contrato ganho numa concorrência muito acirrada, com preço bem abaixo do orçamento da Petrobrás. Mas ele me disse que havia um compromisso do Paulo Roberto Costa que deveria ser pago 1% sobre o valor das obras terraplanagem”, afirmou Sá.

O ex-presidente da Andrade disse que foi conversar com Paulo Roberto Costa, que era ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás e um dos responsáveis pelas contratações do Comperj, “para checar se havia esse compromisso”

“Ele confirmou. Então eu voltei ao governador e falei que iriamos efetuar esse pagamentos.”

A construção do complexo foi um dos maiores empreendimentos individuais da história da Petrobrás, com valor estimado de investimento em 2012 de US$ 8,4 bilhões. Localizado no município de Itaboraí, no Rio, o Comperj passou por uma fiscalização do Tribunal de Contas da União (TCU), que chegou a recomendar a paralisação dessa obra “por indícios de sobrepreço no valor de R$ 516,3 mil, que corresponde a 27,6% do valor do contrato”.

Guanabara. Nora de Sá, um dos delatores da Lava Jato, declarou a Moro que Cabral pediu propina para a empreiteira dentro do Palácio de Guanabara durante sua gestão. O Palácio Guanabara é a sede do governo fluminense. Na reunião, segundo o empreiteiro, estavam ainda outro executivo da Andrade Gutierrez e Wilson Carlos, braço direito e secretário de governo de Sérgio Cabral.

“Houve uma reunião no Palácio com o governador e o Wilson Carlos na presença do nosso representante comercial Alberto Quintaes e foi dito que o Wilson Carlos é que coordenaria essa divisão das obras e que sobre essas obras haveria um pagamento de 5% sobre as faturas das obras que as empresas executassem”, relatou o empreiteiro.

Propinas. Além do Comperj, Nora de Sá e o executivo Alberto Quintaes, ouvido também por Moro nesta terça-feira, confirmaram que toda obra da empreiteira no Rio tinha um percentual de propinas para o ex-governador que chegou a ser de 7% do valor da obra. Eles citaram as obras do Maracanã, “5%”, do Metro de Copacabana, 5%, do Complexo de Manguinhos, 3%, e do Arco Metropolitano do Rio.
As propinas pagas nessas outras obras são alvo da ação aberta pelo juiz federal Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Federal do Rio.

Segundo afirmou Quentais a Moro nesta terça-feira, toda obra da Andrade Gutierrez tinha propinas. “Quando eu entrei na construtora para assumir o Estado do Rio de Janeiro (2006), tinha algumas obras em andamento e eles me passaram, o João Marcos (ex-chefe) me passou uma planilha que ele tinha um controle, e não me lembro exato de cabeça todas, mas que todo faturamento feito dele tinha um percentual”, afirmou Quintaes.

“Percentual de quê?”, quis saber o procurador da República Athayde Ribeiro Costa.

“De obra, no Rio de Janeiro. De propina.”

Mais conteúdo sobre:

operação Lava Jato