A missão dada por Temer ao homem da mala na Câmara

A missão dada por Temer ao homem da mala na Câmara

'Você vai ser vice-líder do Governo, você vai pra CCJ e você vai ser vice-líder do Baleia', relatou Rocha Loures para lobista da J&F

Ricardo Brandt, Julia Affonso, Luiz Vassallo e Fausto Macedo

29 de junho de 2017 | 17h05

Michel Temer e Rodrigo Rocha Loures. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Em conversa gravada pelo executivo da J&F, em Brasília, Ricardo Saud, o homem da mala preta, Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), ex-assessor da Presidência, relatou qual era sua missão na Câmara dos Deputados, a pedido do presidente Michel Temer.

“Ele (Temer) chamou e falou assim ‘você vai pra Câmara’. Eu disse assim: ‘tá bom. O que que o senhor quer que eu faça?'”, relata Loures, sobre conversa com Temer. (ouça aos 1h20min)

+ Marco Aurélio diz que denúncias de Janot ‘costumam ser bem embasadas’

+ A hora do juízo político

Na ocasião, o assessor especial da Presidência tinha assumido sua cadeira na Câmara, como suplente do deputado federal Osmar Serraglio (PMDB-PR), que estava no Ministério da Justiça.

“Ele pegou e falou assim ‘você não pode ser o líder do PMDB, porque o Baleia (Rossi, PMDB-SP) foi eleito agora. Você não pode ser líder do Governo porque o Aguinaldo (Ribeiro, PP-PB), foi feito um acordo lá com o Rodrigo Maia (presidente da Câmara, DEM-RJ), a gente moveu o André e blá, blá, blá … Você vai ser vice-líder do Governo, você vai pra CCJ e você vai ser vice-líder do Baleia.”

O homem da mala não sabia que estava sendo gravado. Candidato a delator, Saud gravou a conversa de quase duas horas, em um café em São Paulo, dias antes de Loures ser filmado saíndo com R$ 500 mil em dinheiro vivo, de uma pizzaria.

O delator queria saber dele da situação do governo e fala sobre as investigações que encurralam a J&F e membros do PMDB. “Não era melhor você ter ficado lá no Palácio não?”

“Ele (Temer) me chamou um dia e disse assim: ‘qual e a sua opinião sobre o Serraglio’. É do meu Estado, meu colega. .. Eu dei a minha opinião. Ele disse assim: ‘se eu chamá-lo, você volta pra Câmara. Como é que você vê isso?’.”, conta Loures. Ele afirma ter dito que preferia não assumir posto na Câmara.

+ Rocha Loures preso pela Polícia Federal

Rocha Loures foi afastado da Câmara, por ordem do ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), em 18 de abril, quando foi deflagrada a Operação Patmos – que encurralou Temer e o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG).

No final de maio, com a exoneração de Serraglio do cargo de ministro da Justiça, Loures perdeu o posto e o foro privilegiado. No dia 3 de junho, o homem da mala foi preso pela Polícia Federal.

Temer e Loures foram denunciados formalmente pela Procuradoria Geral da República (PGR), na segunda-feira, 26. O homem da mala supostamente agia em nome de Temer e na condição de “homem de confiança” do presidente teria intercedido junto à diretoria do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) – órgão antitruste do governo federal – em benefício da J&F.

Rocha Loures carrega mala com R$ 500 mil em dinheiro. Foto: Reprodução

CCJ. Uma das missões de Loures na Câmara seria ocupar uma cadeia da Comissão de Constituição e Justiça, a CCJ. “Então, eu sou více-líder do PMDB, do governo e tô na CCJ.”

Loures narrou conversa com Temer e disse que o presidente teria dado a ele qual seria o “papel” na Câmara. “‘Você vai ajudar o Embassay com a base. Ele tá tendo muito problema. A relação do PMDB e PSDB tá muito difícil. Há muito ciúme de um lado e de outro. Você trabalha pra aproximar todo mundo'”, teria dito Temer, segundo Loures.

O presidente teria pedido ao homem da mala que ele trabalhasse para para ajudar o governo e o PMDB. “Ele me deu toda a receita, faça isso, faça aquilo.” (ouça à partir de 1h24min30seg)

“Meu papel, Ricardo, é aprovar as reformas e dar atendimento ao governo.”

Reformas. Objetivo maior era aprovar reformas. Segundo o homem da mala, que era assessor especial do presidente, “no nosso calendário, a gente aprova (as reformas) na Câmara, em junho”.

“A gente aprova o segundo turno da reforma de Previdência em junho. Aprovou a Previdência, o govemo entregou um País melhor do que recebeu.”

Rocha Loures foi flagrado carregando uma mala com R$ 500 mil, no dia 28 de abril em uma das ações controladas feitas por investigadores junto aos delatores do grupo J&F. A PGR aponta que o valor recebido era propina repassada pelos empresários e suspeita que Temer possa ser destinatário.

Os dois falam sobre os estragos da delação da Odebrecht. “Acho que um terço do Senado vai ser atingido e todas as lideranças.” Ele afirma acreditar que as reformas serão aprovadas.

“Do ponto de vista quantitativo, nós vamos ter voto para aprovar as reformas. Aprovando as reformas, a gente destrava a economia, abre o mercado de capitais, pois há um apetito do mundo pelo País. E isso irriga, traz energia para a nossa economia, e alivia um pouco essa dor, esse desanimo.”