A miséria da condição humana

A miséria da condição humana

José Renato Nalini*

08 de junho de 2022 | 08h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Quem diria que a indigência do espírito humano fosse nos reservar, em pleno 2022, o espetáculo de uma guerra convencional?

Válida a profecia do Evangelho de Lucas, capítulo 21, versículos 9 a 11: “Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não vos assusteis; pois é necessário que primeiro aconteçam estas coisas, mas o fim não será logo; então lhes disse: Levantar-se-á nação contra nação, e reino contra reino; haverá grandes terremotos, epidemias e fome em vários lugares, coisas espantosas e também grandes sinais do céu”.

Tudo isto já está acontecendo e nem todos têm condições de enxergar. Não parece crível que os avanços científicos e tecnológicos tenham acarretado tanto progresso material, mas tão pouco influenciem a mente das criaturas racionais.

Como conter as forças do mal que se desencadeiam sobre a Terra? O que será necessário para que esta afligida humanidade, tão carente e tão frágil, se compenetre de que é urgente a conquista da benção da paz?

Recorro a Ernesto Leme, em cujo sepultamento Paulo Bomfim, instado a discursar, afirmou singelamente: “Ernesto morreu! São Paulo está sem leme!”, para recordar como ele também conclamava os paulistas a buscar a paz, nos estertores do segundo grande conflito mundial:

“Não a paz dos cemitérios ou dos presídios, onde as consciências escravizadas sentem morrer-lhes no peito a voz de desespero, ou de protesto. Não a paz que rebrilha na ponta das baionetas, paz germânica dos países ocupados, em que a felicidade dos povos se trombeteia pela boca dos opressores, enquanto nos frios ergástulos gemem as vítimas da fúria dos tiranos, se não pendem suspensas a uma árvore da estrada, ou não tombam, exânimes, nos pátios de execução, silenciadas pelas metralhadoras homicidas”.

O anseio de paz era outro há quase oitenta anos, como deve ser outro neste exasperante 2022:

“A paz que há de vir será bem outra. Paz entre os homens, como base da paz entre as nações. Paz que brotará no coração, como emanação da bondade. Paz que descerá das consciências, como imposição do dever. Paz que será um elo de fraternidade entre as criaturas. Paz que fará com que a abundância na mesa dos ricos não seja um escárnio à fome dos Lázaros, assentados à sua porta. Paz que se entesourará na coragem dos cidadãos, sempre eretos, em defesa da liberdade. Paz que virá do prestígio dos governos, alicerçados na vontade nacional. Paz que será garantia da mesma paz, pela vigilância de todos, afim de que essa paz jamais seja comprometida com a ameaça de outra guerra”.

Paz que é um estado de espírito de não beligerância. Muito diverso da volúpia insana de armar cada cidadão, a pretexto de que isso garanta a sua segurança individual e a de sua família. Um instrumento cujo propósito é ceifar vidas sequer deveria ser fabricado, no atual estágio civilizatório que a sociedade humana se arroga haver atingido.

Uma República que possui hoje mais Faculdades de Direito do que a soma de todas as outras existentes no restante do planeta, deveria dar o exemplo de nação pacífica. Ambiente em que todas as vocações pudessem coexistir, sem risco de intolerância, que chega a insana reação cruenta, inadmissível entre seres providos de discernimento.

A formação jurídica deveria fornecer a arquitetura estrutural de um pensamento inspirado nos valores explicitados no pacto federativo de 5.10.1988. O constituinte, em nome da cidadania, a única titular da soberania que ainda pode ser invocada no Estado contemporâneo, elegeu uma carta de princípios edificantes. Fixou como supra princípio a dignidade da pessoa humana, farol norteador de que se irradiam inúmeros deveres com os quais não se pode transigir.

O constituinte, em nosso nome, teve a coragem de erigir à categoria de instituto jurídico a fraternidade, na promessa de edificação de uma pátria justa e solidária. Essa afirmação não é destituída de relevância e merece concretização. A partir da conduta pessoal de cada indivíduo inconformado com a guerra externa, mas também aflito ao constatar a guerra interna em que mergulhamos. A guerra de narrativas, de inverdades, de ira e de ódio, de intolerância e de crueldade mental.

Uma pátria de juristas precisa ser um exemplo de civismo. De coragem patriótica, apta a bradar um “basta” a tudo aquilo que não condiz com a vocação de perfectibilidade dos humanos. São Paulo sempre na frente, a fazer jus ao seu patrono, o Apóstolo dos Gentios, que vaticinou: “A noite passou, e o dia vem chegando. Deixemos, pois, as obras das trevas e vistamo-nos das armas da luz” (Romanos, 13,12).

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-202

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoJosé Renato Nalini

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.