A mentira como arma institucional da política

A mentira como arma institucional da política

Lucas Matos de Lima*

24 de janeiro de 2021 | 10h30

Lucas Matos de Lima. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Atualmente, vê-se que a mentira deu um passo além e realmente tomou o protagonismo dentro da sociedade. A disseminação das chamadas “fake news” se tornou a ferramenta basilar das candidaturas nas eleições brasileiras e internacionais. Há, inclusive, empresas especializadas em bombardear a população com informações e, aliado à dificuldade de se confirmar a veracidade daquilo que se lê, vimos a intensa retomada de uma desconfiança relacionada às instituições vinculadas ao Estado e mídia.

Há quem diga que o conservadorismo está diretamente ligado a essa desconfiança. Inclusive, o retorno do protagonismo de partidos conservadores é quase que cíclico e, por vezes, é possível encontrar suas raízes no chamado fascismo eterno. Essa ideia é trazida por Umberto Eco, em texto publicado no “New York Review of Books”, no qual foram elencadas 14 características inerentes ao fascismo, sendo que algumas delas são vistas no atual contexto brasileiro.[1]

O culto à uma suposta tradição que se consubstancia no aforismo “família tradicional brasileira”, a rejeição ao modernismo que se traduz no constante questionamento da ciência e a dificuldade (ou completa ausência) de reflexões que fujam de jargões e bordões como bandido bom é bandido morto, são algumas destas particularidades que, junto à mentira e ao negacionismo, formam a atual conjuntura política nacional.

Isto não quer dizer, necessariamente, que estamos diante de um fascismo às claras. Contudo, vários componentes de um regime de exceção estão institucionalizados em nossa democracia, o que é plenamente inegável.

Por exemplo, nos últimos dias, o advogado criminalista Marcelo Feller foi intimado a comparecer na Polícia Federal para prestar esclarecimentos por ter chamado o Presidente da República de genocida por sua atuação frente a pandemia.[2] Essa intimação é um demonstrativo claro de mais uma pequena ruptura do Estado Democrático de Direito no Brasil e, ora, se a culpa dos mais de 210 mil mortos durante a pandemia do novo coronavírus não é do Chefe de Estado, de quem seria?

Para além do óbvio, é preciso entender que a articulação promovida pelo conservadorismo exacerbado utiliza pequenos vetores que atuam no seio das famílias do Brasil. Nesse sentido, temos a campanha presidencial de 2018 que Bolsonaro utilizou o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Isto não foi à toa. Veja, o Brasil é um país majoritariamente cristão, portanto não é mau negócio, no âmbito da politicagem, se comunicar diretamente com essa parcela da população.

Nessa linha, a filósofa Hannah Arendt diz que o poder é um “agir em uníssono, em comum acordo. O poder jamais é propriedade de um indivíduo; pertence ele a um grupo e existe apenas enquanto o grupo se mantiver unido”[3]. Ora, qual grupo é mais unido, senão o religioso?

Por isso se tornou tão interessante focar os disparos de mensagens falsas via redes sociais e em grupos que possuem minimamente uma inclinação à religião ou aos chamados bons costumes.[4] A arquitetura de um projeto de desinformação e mentiras como esse parece algo simples e pouco crível. Porém, é na simplicidade e facilidade de comunicação que se faz a morada das “fake news” e que boas pessoas ainda são enganadas.

O filósofo Santo Agostinho, porém, afirma que “Dizer uma coisa falsa não é mentira se alguém crê verdadeiro ou se tem opinião formada de que é verdadeiro aquilo que diz (si credit aut opinatur verum esse quoddicit). […] quem enuncia um fato que lhe parece digno de crença ou acerca do qual emite a opinião de que é verdadeiro não mente, mesmo que o fato seja falso (etiamsifalsum  sit)”.[5]

Em outras palavras, a ideia trazida por Santo Agostinho e transportada para o contexto atual nos permite inferir que alguns apoiadores de Bolsonaro realmente não conseguem distinguir o que é falso do que é verdadeiro e acreditam piamente nele como um líder quase messiânico.

Por essa razão, é necessário direcionar as críticas a quem produz e dissemina notícias falsas com a intenção de provocar uma alteração no cerne político. E é aí que encontramos a dificuldade. Como definir se há boa-fé, algo tão íntimo e pessoal, na conduta dos milhões de brasileiros que disseminam notícias sem checar a veracidade devidamente? Apesar disso, a função de político traz em seu bojo responsabilidades distintas da grande população, por isso que os atos perpetrados por Jair Messias Bolsonaro são tão condenáveis.

A política Bolsonarista nunca foi de enfrentamento ou resolução real dos problemas de política pública que arremessaram o país aos leões famintos da crise econômica. Na verdade, desde o início, a ideia é a negação da mencionada crise como se no governo dele não houvesse turbulências ou que tampouco houvesse a possibilidade superveniente de ocorrer algum percalço.

É como se um macaco – completamente louco e barulhento – assumisse o controle de uma aeronave alertando os tripulantes que não sabia mexer na máquina (pública, no caso) e a maioria simplesmente aceitasse sob a lógica de que ele, membro da companhia aérea há quase 30 anos em outra função, representaria novos ares.

De fato, os ares que respiramos parecem nunca dantes vistos na jovial democracia brasileira. O aspecto, a cor e o cheiro são sintomáticos de que a brisa dos novos tempos é minimamente próxima do chorume.

Um dos estratagemas favoritos de Jair para concretizar a disseminação dessa corrente de ar nebulosa é desviar a atenção da opinião pública com novos absurdos ou nomear algum bobo da corte, que muitas vezes ocupa algum cargo de confiança, mas é totalmente descartável como todos os outros, para ser seu porta-voz.

A estratégia é se intitular como comandante, mas não agir como tal. Isto me faz lembrar de um famoso quadro do belga René Magritte intitulado “Ceci n’est pas une pipe” (Isto não é um cachimbo). Ou seja, a pintura não é de um cachimbo, mas, sim, a representação dele. Revolucionário e atual. Temos, atualmente, apenas a carcaça de um presidente.

Aliás, perdoem-me os físicos pela liberdade poética, mas temos um verdadeiro Presidente de Schrödinger. Não sabemos se a representação do Chefe de Estado está viva ou morta, mas tenho a leve impressão de que por dentro algo já apodreceu.

É um constante dizer e desdizer. É apoiar e incentivar o uso de medicamentos no combate à covid-19 que não foram comprovados cientificamente e meses depois se desvincular de tal afirmação. É discursar afirmando que a mencionada doença era uma simples “gripezinha” e tempos depois dizer que nunca falou. É postar em redes sociais que jamais compraria a vacina produzida pela China, criar um cenário internacional instável para o Brasil e depois tentar reaver sua posição, enquanto a população clama pela vacina e por insumos básicos como seringas e oxigênio.

De qualquer forma, resta cristalino que a presença de alguém com esse calibre de incompetência faz crer que as armas estão liberadas e apontadas para a cabeça dos cidadãos brasileiros. Nos resta esperar por dias melhores, amanhã há de ser outro dia. Ou não. Tenhamos esperança e não expectativas para que aconteça um milagre e não uma decepção.

*Lucas Matos de Lima é advogado criminalista, formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), criador do portal @paporetonaofazcurva

[1]Revista Bula. “Umberto Eco lista 14 características comuns do fascismo”. https://www.revistabula.com/17846-umberto-eco-lista-14-caracteristicas-comuns-do-fascismo/

[2] Isto é Dinheiro. “PF intima advogado Marcelo Feller em inquérito de LSN por críticas a Bolsonaro”. Disponível em: https://www.istoedinheiro.com.br/pf-intima-advogado-marcelo-feller-em-inquerito-de-lsn-por-criticas-a-bolsonaro/

[3] Arendt, H. Da violência. Brasília. Ed. UNB. 1985. Pág. 29.

[4] “Grupos evangélicos e olavistas ajudaram a espalhar fake news de Bolsonaro sobre esquerda e pedofilia”. Disponível em: https://apublica.org/2020/07/grupos-evangelicos-e-olavistas-ajudaram-a-espalhar-fake-news-de-bolsonaro-sobre-esquerda-e-pedofilia/

[5] Santo  Agostinho,  Le  mensonge (De  mendacio),  Primeira  parte,  1a  seção,111, 3, trad. fr. G. Combes, em Oeuvres de Saint Augustin, Paris, 1937-1948, T. 2, p.237.

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