A melhor biografia de 2020

A melhor biografia de 2020

Bernardo Pasqualette*

04 de abril de 2021 | 08h00

Muhammad Ali. FOTO: ART SHAY

O Estado de S. Paulo, 31/12/2020. Despedindo-se do melancólico ano marcado pela pandemia de Covid-19, essa edição do periódico lembrava que – apesar dos muitos pesares – o ano que ia embora naquele dia tinha sido dominado pelo lançamento de bons livros, a maioria deles biográficos. “O ano das biografias”, como o Estadão chamou 2020 – brindou o público com as trajetórias de personalidades como Xuxa Meneghel, Barack Obama, Woody Allen, João Figueiredo, Samuel Wainer, só para ficar nas principais.

O melhor título, sem dúvidas, ficou por conta de uma lenda do esporte mundial. Trata-se de Muhammad Ali: uma vida (Record, 770 páginas). Antes de começar, uma informação necessária: não se assuste com o tamanho, a leitura é linear, e prenderá sua atenção da primeira à última página. Palavra de um escritor que, antes e acima de tudo, é um leitor.

A trajetória do menino de origem humilde é descrita em detalhes, envolvendo o leitor em uma narrativa que, ao mesmo tempo que não se afasta dos grandes temas, traz curiosidades e detalhes que humanizam o personagem biografado, sem, contudo, se perder no lugar comum de obras melodramáticas ou das trivialidades cotidianas.

A partir desse quadro, se abre uma janela na qual se discute os grandes desafios da vida do boxeador, que superou o preconceito para brilhar no universo de um dos esportes mais competitivos e lucrativos do planeta. Em um ano em que a covardia cometida contra George Floyd escancarou o preconceito racial ainda existente nos Estados Unidos, como não se emocionar com a trajetória de um jovem, filho de uma dona de casa e de um pintor de placas, que ascendeu a posição mais cobiçada do mundo do boxe – o primeiro lugar absoluto na categoria dos pesos pesados?

Parece muito, mas é só o começo. Na politizada segunda metade do século XX, Ali mergulhou fundo nos dilemas da época – fazendo com que sua notoriedade como desportista amplificasse os anseios mais profundos de sua existência. Convertido ao islamismo, o boxeador se recusou a combater no Vietnã. À primeira vista, poderia ser falta de bravura, em contraste com a postura aguerrida com que sempre se portou nos ringues.

Muhammad Ali. FOTO: JOHN ROONEY/ASSOCIATED PRESS

Não era nada disso. Ali apenas seguia os ditames de sua consciência, guiado por aquilo que a sua convicção religiosa lhe dizia ser o correto há se fazer. Assim, involuntariamente, expôs ao mundo toda barbárie que a guerra infligia às populações civis e, ao mesmo tempo, provou que o pacifismo é uma convicção pessoal que ecoa no âmago mais profundo de um ser humano, incapaz de ser removida pela vontade de quem quer que seja.

Pagou caro por isso, é verdade. Foi em frente, mesmo assim. Hoje, a sua biografia conserva essa lição para as novas gerações.

Com tantas (e tão complexas) nuances políticas, o leitor pode (precipitadamente) imaginar de que se trata de uma biografia eminentemente política. Nada mais equivocado.

Ao lado dos dilemas existenciais que permeiam a leitura, há a dimensão humana do personagem, exposta em todas as suas mazelas e contradições. Sua atribulada vida financeira, na qual não faltam narrativas de extravagâncias e total falta de autocontrole, e sua conturbada vida emocional, com os inúmeros divórcios e relacionamentos um tanto quanto complicados com suas ex-mulheres, são contadas de modo a nos lembrar que até os gigantes também são capazes de se equivocar. E muito.

Bernardo Pasqualette. FOTO: DIVULGAÇÃO

Afinal, somos todos seres humanos e Ali não foge a essa regra. É um gigante sim, mas de carne e osso. Como cada um de nós.

O desfecho do livro ainda joga luz em um dos momentos mais emblemáticos do esporte olímpico. Quando um debilitado Muhammad Ali, fragilizado pelo Mal de Parkinson, caminha para acender a tocha olímpica dos Jogos de Atlanta, em 1996, a estratosférica audiência de 3 bilhões de espectadores ao redor de todo o mundo pôde
perceber o quanto uma vida dedicada ao boxe cobra da saúde – física e mental – de um atleta profissional.

Simbolicamente, foi o último ato de uma lenda, que ainda viveria por mais 20 anos. Suas aparições públicas naturalmente rarearam, junto com a deterioração de seu estado físico. Permanece firme, no entanto, a imagem de um campeão que nenhuma doença conseguiu nocautear. Ali superou todos os desafios e terminou sua vida da mesma forma corajosa e altiva com a qual se portou em toda sua trajetória: simplesmente lutando.

*Bernardo Pasqualette é advogado e autor do livro Me esqueçam – Figueiredo: a biografia de uma Presidência

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.