A ‘medicina da misericórdia’ para a pandemia na Páscoa

A ‘medicina da misericórdia’ para a pandemia na Páscoa

Marcelo Cypriano Motta*

10 de abril de 2020 | 11h00

Foto: Acervo Pessoal

Esta Páscoa, na qual nos defrontamos com o coronavírus, evoca com muita força a profética expressão “medicina da misericórdia” de São João XXIII, na abertura do Concílio Vaticano II (1962-1965), bem como deixa entrever as correntes mais profundas que vêm aflorando na Igreja Católica Apostólica Romana desde as últimas décadas, e se abrem ao futuro. Há, principalmente, uma redescoberta da misericórdia de Deus como central – ou transversal – na vida e na missão da Igreja, sobretudo nos pontificados de São João Paulo II e Francisco, como reconhecimento dos “sinais dos tempos” – uma noção que guiou o Concílio. O primeiro escreveu a Encíclica Dives in misericordia (1980), na qual interpretou o mistério pascal da cruz e ressurreição de Jesus Cristo como mistério da misericórdia divina. Já o atual pontífice proclamou um Ano Santo da Misericórdia (2015-2016); na sua mensagem para a Quaresma de 2020, adotou essa mesma compreensão de Páscoa como misericórdia, em que o olhar do coração fixo no mistério pascal cria o dinamismo que nos envolve na misericórdia de Deus até o nosso próximo.

A conexão essencial entre Páscoa e Misericórdia realça a “positividade” do pecado no mistério da nossa salvação – é o que denota o termo “Feliz culpa”, que ressoa na liturgia da Páscoa. Ensina o Catecismo da Igreja Católica (nº 412): “Por que Deus não impediu o primeiro homem de pecar? Santo Tomás de Aquino responde: ‘Nada obsta a que a natureza humana tenha sido destinada a um fim mais elevado após o pecado. Com efeito, Deus permite que os males aconteçam para tirar deles um bem maior. Donde a palavra de S. Paulo: ‘Onde abundou o pecado superabundou a graça’ (Romanos 5, 20)”.

Santo Ambrósio de Milão (séc. IV) foi ao cerne da questão nas linhas finais do Hexaemeron – sermão sobre os “seis dias da criação” – ao escrever, como relata o Gênesis, que Deus, ao concluir no sexto dia a obra do mundo na perfeição do homem, descansou no sétimo: “fez o homem e descansou, porque tinha alguém a quem perdoar os pecados (…) talvez já estivesse então prefigurado o mistério da futura paixão do Senhor”. É que Deus, sendo misericórdia, encontrou sua perfeita satisfação na morte redentora de Cristo. Para Santo Ambrósio, no desígnio de Deus, o pecado faz parte, desde o início, do projeto da criação deste mundo, para que toda a atenção recaia sobre a misericórdia, o principal atributo divino.

Num belo e inovador documento – Que coisa é o homem. Um itinerário de antropologia bíblica (Pontifícia Comissão Bíblica, 2019, 336 páginas) –, encomendado pelo Papa Francisco desde o início de seu pontificado, também se demonstra que na Bíblia, se Deus intervém na história segundo um “juízo” de condenação quanto ao pecado (já desde a expulsão do Paraíso), só o faz para favorecer a conversão e o perdão do pecador, e assim ressaltar seu amor misericordioso e poder salvador, como sentido da história, que se realiza em Cristo (ver Pietro Bovati, La Civiltà Cattolica, 1º de fevereiro de 2020).

São João Paulo II, sob o influxo das revelações de Santa Faustina Kowalska, (Polônia, 1905-1938), no Jubileu do ano 2000, instituiu para toda a Igreja o Domingo da Divina Misericórdia, o qual se segue ao Domingo de Páscoa. No seu pensamento – exposto sobretudo em seu último livro, Memória e identidade (Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2005) – é central a ideia da onipotência da misericórdia divina como “limite imposto ao mal”: “por isso – diz ele – Santa Faustina associou sua mística da misericórdia com o mistério da Páscoa, quando Cristo se apresenta vitorioso sobre o pecado e a morte”.

O objetivo deste Domingo é que nos voltemos com confiança e esperança para a misericórdia de Deus, que se derrama no mistério pascal da morte e ressurreição de Jesus Cristo, a fim de que todos a conheçam e dela se beneficiem. Esta é a verdadeira “medicina da misericórdia” a ser administrada – o Cristo misericordioso é também para nós o Cristo-médico, especialmente neste tempo de padecimento com o coronavírus. O Cristo-médico socorre, consola, fortalece e inspira a cuidar das pessoas, bem como ilumina o desenvolvimento e aplicação dos conhecimentos científicos em prol da vida. O Domingo da Misericórdia é oferecido à humanidade ferida e provada como um caminho infalível para que encontre a paz, pois atende ao desígnio mais profundo do coração de Deus. Por isso mesmo, deve ser o modelo a orientar a ação pastoral da Igreja segundo a “medicina da misericórdia” e o espírito do Concílio; do mesmo modo nos enraíza na dimensão concreta das nossas boas obras.

A Campanha da Fraternidade lançada este ano pela CNBB, no início da Quaresma, providencialmente trata do cuidado com a vida: “Fraternidade e vida: dom e compromisso”, com o lema “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lucas 10, 33-34: parábola do bom samaritano). Esta é a Igreja samaritana e misericordiosa a que exorta o Papa Francisco.

Marcelo Cypriano Motta, advogado, contemplado pela Arquidiocese de São Paulo com a Medalha “São Paulo Apóstolo” 2018, atua na “Promoção da Cultura da Misericórdia” no Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP*

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