A mediação como instrumento policial de vida

A mediação como instrumento policial de vida

Flavio Goldberg e tenente-coronel Valmor Racorti*

27 de outubro de 2020 | 08h00

Flavio Goldberg e tenente-coronel Valmor Racorti. FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

O combate ao crime é associado no imaginário coletivo brasileiro à ideia de “guerra”, conceito este em que inimigos sob a entidade dos estados travam disputas por territórios.

Historicamente com o desenvolvimento dos trabalhos sociológicos esta concepção no Brasil vem se configurando, drasticamente.

Com os recursos propiciados pela TV e as redes de Internet se projetaram cenas que marcam, de forma traumática, o sentimento da população, inclusive com o uso de linguagem bélica. Por exemplo, “território ocupado pelo tráfico”, “crime organizado”, “chefe das quadrilhas” e assim por diante.

Trata-se de algo que teve seu embrião jornalístico nos filmes antológicos de Hollywood, em que “mocinhos e bandidos” transferiam das disputas por espaços e cultura política os choques entre índios e brancos, para as zonas referenciais que habitam a fantasia da opinião pública em todo mundo.

Acontece que uma leitura maniqueísta destes processos distinguindo o Bem e o Mal frequentemente tumultuam a compreensão do complexo universo da nevrosidade que mantem o equilíbrio da Lei e da civilização, portanto a defesa da saúde mental da coletividade e dos direitos humanos pela biofilia versus necrofilia.

A introdução no Brasil e, particularmente, na Policia Militar de São Paulo, bem como em outros estados, cada vez mais na filosofia da mediação para a solução de ocorrências que podem gerar mortes é uma conquista pedagógica, jurídica, psicológica cuja síntese pode ser colocada como a de “SALVAR VIDAS”.

Episódios significativos, esta natureza se observa no treinamento de policiais capacitados, emocionalmente e dotados de informações, ampliando a consciência situacional para uma tomada de decisão técnica, bem como de visão cultural para a chamada “negociação” visando evitar a consumação do suicídio e de incidentes de reféns através do diálogo e da persuasão, bem como nas hipóteses de incidentes de reféns e tantas outras oportunidades em que as fronteiras do entendimento ou do desastre esbarram desde a pré-intencionalidade até o acaso.

O uso apurado e cuidadoso das técnicas cientificas da negociação como uma ciência da pessoa, que reúne elementos sociais e individuais tem merecido, por tudo isto, um papel preponderante na imagem da Policia Militar, num elemento de fora pacificador cuja finalidade não é “ganhar” uma guerra, mas servir à comunidade como decisivo fator de paz, sossego e tranquilidade.

Não se trata, meramente, de táticas ou estratégias, mas do desenvolvimento ideal da Polícia que protege e garante o sistema de interação humana, amparado pela Constituição e a Lei.

Quando este esforço é reconhecido pela sociedade se estabelece a “afinidade eletiva”, capaz de impactar a diminuição da influência do crime como habitualidade até charmosa principalmente, para os jovens, nas regiões mais carentes ou mesmo nas camadas ricas que possam se seduzir “roleta russa” da violência.

*Flavio Goldberg, advogado e mestre em Direito

*Tenente-coronel Valmor Racorti, comandante do Batalhão de Operações Especiais de São Paulo

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