A maturidade das fintechs e o papel das ‘F2F’

A maturidade das fintechs e o papel das ‘F2F’

Pedro Bono*

28 de fevereiro de 2020 | 05h00

Pedro Bono. FOTO: DIVULGAÇÃO

É visível que está havendo uma reconfiguração do mercado financeiro pela inovação tecnológica e pelos participantes ávidos em mudar atividades desempenhadas de forma similar há muitos anos.

Uma prova disso é o número de fintechs, startups de tecnologia voltadas aos serviços financeiros, que surgiu nos últimos anos. Nos Estados Unidos, as fintechs, nascidas na grande maioria no Vale do Silício, decolaram e chegaram a responder por 38% do volume de créditos concedidos em 2018, ante participação de apenas 5% em 2013. Para dar a dimensão da representatividade delas no setor, os bancos tradicionais passaram de 40% para 28% em volume total concedido no período, de acordo com os dados do 2018 Industry Insight Report, da TransUnion.

Na América Latina e no Brasil, as soluções financeiras inovadoras surgiram quase que simultaneamente, contribuindo para mudar a cara do setor, considerado até então conservador. Segundo o Relatório Fintech América Latina apresentado em 2018 pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, BID, o Brasil lidera o ranking de fintechs na região com 380 empresas, seguido pelo México com 273, Colômbia com 148 e Argentina participando com 116.

Ainda não ocorreu uma mudança tão grande na América Latina como nos Estamos Unidos, mas não há dúvida de que haverá uma reconfiguração do mercado de crédito, a questão a observar será a amplitude e velocidade das mudanças.

O interesse pelo redesenho do mercado financeiro tem aparecido nas discussões dos setores público e privado, na mídia e nas universidades. Diversas entidades contribuem com conhecimento e informações sobre o ecossistema, como exemplo há o já citado relatório do BID, e estudos com foco no Brasil promovido por instituições como boostLAB do Banco BTG, ABFintechs e Distrito, dedicados ao fomento da inovação no mercado financeiro local.

O universo das fintechs é amplo e vai muito além das concedentes de crédito. O estudo Fintech Mining Report 2019, realizado pela Distrito, mapeou 550 fintechs em atividade no Brasil, com 230 delas criadas entre 2016 e 2018. As empresas estão divididas em 14 segmentos de atuação, com 36% delas entregando soluções de meios de pagamento e concessão de crédito, 21% dedicadas às soluções de backoffice, risco e compliance, e 11% no segmento de investimentos e finanças pessoais, as demais distribuídas em 8 categorias, incluindo as soluções para lidar com a inadimplência.

O segmento está em pleno estágio de desenvolvimento e expansão gerando até mesmo oportunidades de internacionalização para algumas Fintechs. O relatório do BID destaca que 32% das fintechs na América Latina afirmam ter expandido suas operações para além das fronteiras nacionais, demonstrando o apetite dos empreendedores para competir em escala mundial.

Mas, embora o mercado das soluções inovadoras trazidas pelas fintechs apresente forte desenvolvimento, grande parte das empresas ainda está em processo de maturidade, tendo como grande desafio o processo de escala e crescimento. A taxa de mortalidade é muito alta, como aponta o relatório Fintech na América Latina do BID, destacando que 9 em cada 10 startups criadas não passam dos três anos de vida. Das 703 fintechs identificadas na região em 2017, primeira edição do relatório, 85 encerraram as atividades em pouco mais de um ano de atuação, registrando uma taxa de mortalidade de 12%”.

É neste ponto que as “F2F”, ou Fintechs para Fintechs, cumprem papel particularmente interessante. São fintechs que ajudam a reduzir a atual taxa de mortalidade do segmento, entregando eficiência operacional para outras fintechs. São soluções que endereçam necessidades específicas e compartilham competência em alguma dimensão do negócio. Há soluções inovadoras de gestão que permitem mitigar o risco de crédito, aspecto fundamental para a sobrevivência de uma operação de concessão de crédito. Veja, é comum ouvir que os grandes e tradicionais bancos vão perder participação de mercado no Brasil, mas a curva de aprendizagem em gestão de risco de crédito deles é longa e possuem muita consistência operacional para lidar com este risco, cenário ainda não observado em grande parte das fintechs.

Nossa plataforma é um exemplo de solução para esse ponto, pois otimiza a gestão de recebíveis das fintechs usando inteligência artificial para aumentar a recuperação dos créditos em atraso, melhorando a relação com os clientes devedores na jornada da cobrança. Os gestores passam a criar estratégias diferenciadas de relacionamento com os clientes, facilitando a gestão do risco de crédito e a entrega de retorno sobre o capital aplicado no negócio.

É certo que a maturidade do mercado de fintechs no mercado brasileiro será alcançada em breve, e virá por meio da inovação, da curiosidade, e sobretudo do aprendizado. Pelo retrovisor, entendemos a mensagem de Jamie Dimon, presidente do JPMorgan, prevendo mudanças no mercado bancário americano: “O Vale do Silício está chegando, trazendo um monte de startups com cérebro para mudar a nossa indústria”.

*Pedro Bono, cofundador da Receiv

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