A maratona

A maratona

Fernando Goldsztein*

03 de novembro de 2021 | 10h30

Maratona de Nova York. FOTO: ANDREW KELLY/REUTERS

Dentre as centenas de maratonas que existem ao redor do mundo, nenhuma é tão famosa como a que vai ocorrer neste domingo 7 de Novembro. Trata-se da maratona de Nova York que, neste ano, estará na sua 50ª edição

A palavra maratona tem vários significados na linguagem popular. Normalmente, é usada para definir algo trabalhoso, cansativo ou que requer muito esforço. E, mais recentemente, tem sido usada por quem gosta de “maratonar” séries no Netflix. Porém, maratona é uma corrida de longa distância com 42 km, cento e noventa e cinco metros. A prova foi criada em comemoração à lenda do soldado grego Pheidippides. O soldado correu esta exata distância desde a localidade de Maratona até a cidade de Atenas, na Grécia, com a importante notícia da vitória do exército grego sobre os invasores persas em 490 A.C. Depois de entregar a mensagem, o soldado morreu de exaustão. A dramática corrida foi celebrada e eternizada em 1896 por Pierre de Cobertin, o fundador dos jogos olímpicos modernos, tornando-se a modalidade símbolo das olimpíadas desde então.

A maratona de Nova York  normalmente reúne mais de cinquenta mil corredores de todos os cantos do planeta. Neste ano, em função da pandemia e para manter uma menor densidade de corredores, serão trinta e três mil. Todos os maratonistas sonham em um dia correr a maratona de Nova York. Eu já tive este privilegio.

Éramos cinquenta e três mil pessoas, ombro a ombro, quanto mais juntas melhor. Além de não existir o coronavírus naquele já longínquo novembro de 2018, era uma manhã de domingo muito fria. Portanto, nada melhor do que uma aglomeração. O principal desafio de um maratonista é completar a corrida, ser um “finisher”, no jargão dos corredores. À exceção dos atletas de elite, que competem pelo título, o objetivo do maratonista é correr contra o próprio tempo e quebrar seu recorde pessoal. Como diz um amigo: “A maratona em si não é tão difícil. O complicado mesmo é a preparação pra chegar lá”. São 70 a 80 km de treino por semana, musculação, dieta rigorosa e muitas idas ao fisioterapeuta. Exige muita disciplina e preparo.

Fernando Goldsztein. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

A largada da prova é em Staten Island, um dos cinco boroughs (distritos) que, junto com Brooklyn, Queens, Manhattan e o Bronx, compõem a cidade de Nova York. O percurso é crivado por pontes sendo a “Verrazano-Narrows bridge” a primeira e, também, a mais impressionante. É o cartão postal da prova. Possui o segundo maior vão suspenso do mundo e marca a entrada dos navios na baia de Nova York. O trajeto segue pelas enormes regiões do Brooklyn e do Queens até, finalmente, chegar à belíssima ponte Queensboro (construída em 1903), que conecta o Queens à Manhattan.

A emoção de correr em Manhattan, naquelas avenidas larguíssimas, circundadas por arranha-céus e com uma enorme torcida, é indescritível. Seguimos em direção ao norte da ilha ao longo da Primeira Avenida por 78 quarteirões até o Bronx. Do Bronx retorna-se para o centro de Manhattan, agora pela famosa Quinta Avenida. Nesta altura da prova, mais próximo do final, atinge-se o que os corredores chamam de “the wall” (a parede). É o esgotamento extremo, o momento em que o corpo insiste em desistir mas a mente não permite de jeito nenhum. Pra correr uma maratona, não basta apenas preparo físico, é preciso também preparo mental.

O ápice da corrida se dá quando a Quinta Avenida encontra o Central Park, a uns 6 km da linha de chegada. As árvores do Central Park coloridas pelo outono, o espetacular skyline de Manhattan e a multidão, dão o gás que falta para chegar ao final. Estes últimos quilômetros parecem ser os mais longos. A sensação é de que a linha de chegada não vai chegar nunca… Mas, depois de atravessar todo o parque, passar pelo famoso The Plaza Hotel e pela esplanada da Columbus Circle, finalmente avistei o pórtico da chegada com o seu cronômetro gigante. Parecia uma miragem. Naquele momento, a pouco mais de um quilômetro da linha final, levantei a cabeça e, usando os últimos resquícios de energia que tinha no corpo, acelerei o passo e completei a prova!!

Na chegada, recebi o tradicional cobertor térmico, a medalha por ter concluído a prova e o farto lanche para repor as energias. Definitivamente, maratonar pelas ruas e avenidas de uma cidade tão especial quanto Nova York foi uma sensação única. Me senti como um verdadeiro “Pheidippides” ao cumprir a sua missão. Por sorte, ao contrário do desafortunado soldado grego, não morri no final. Fui sim, depois de um bom descanso e muito gelo nas articulações, curtir um bom jantar na “cidade que nunca dorme”. E claro, como manda a tradição, ostentando no peito a minha reluzente e merecida medalha.

*Fernando Goldsztein, empresário

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.